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Scot Consultoria

O mercado Halal e seu potencial de crescimento no cenário pandêmico

Entrevista com o diretor-executivo da Cdial Halal Ali Saifi

Segunda-feira, 31 de maio de 2021 - 11h20
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Ali Saifi é brasileiro, nascido em São Bernardo (SP) e graduado em Administração de Empresas pela Universidade Metodista. É diretor-executivo da Cdial Halal, vice-presidente do Centro de Divulgação do Islam para América Latina (Cdial), vice-presidente da Câmara de Comércio Brasil Iraque; embaixador pela paz do EML - European Muslim League e membro do IMMC - International Muslim Minority Community.

Fonte: Shutterstock


Ali Saifi é graduado em Administração de Empresas pela Universidade Metodista. É diretor-executivo da Cdial Halal, vice-presidente do Centro de Divulgação do Islam para América Latina (Cdial), vice-presidente da Câmara de Comércio Brasil Iraque; embaixador pela paz do European Muslim League (EML) e membro do International Muslim Minority Community (IMMC).

Ali Saifi foi um dos idealizadores e fundadores do Movimento de Jovens Muçulmanos. Assumiu a direção da Entidade Islâmica – Sociedade Beneficiente Muçulmana Mesquita Brasil e fundou o Centro de Divulgação do Islam para América Latina (Cdial), que tem por objetivo divulgar a cultura islâmica através de diversas atividades desenvolvidas nos países da América Latina.

Na década de 80, foi criado o Grupo de Abate Halal frente à solicitação do Kuwait para prestação de serviços relacionados ao abate religioso muçulmano, assim como sua fiscalização.

Scot Consultoria: Ali, quais foram os fatores que contribuíram para o crescimento dos produtos brasileiros no mercado árabe? Quais oportunidades para o setor de importação e exportação brasileira essa expansão econômica dos países do Oriente Médio pode trazer?

Ali Saifi: Há décadas, o Brasil tem estudado e se dedicado a entender os costumes, a cultura e as exigências de mercado do Oriente Médio. O Brasil foi exemplar. Estudou, adaptou e tem atendido com proeza esse mercado de uma cultura e exigência totalmente diferenciadas.

Hoje, sem sombra de dúvida, afirmo que o Brasil está preparado para exportar muito mais. Somos grandes fornecedores de matérias-primas e commodities e podemos nos transformar num dos maiores players para fornecer produtos processados com maior valor agregado. Atendemos rigorosamente às exigências dos países árabes e islâmicos, principalmente, na questão da certificação Halal, a qual é exigida para exportar qualquer produto para países árabes islâmicos.

Além de produtos de qualidade, temos know how, profissionais de alta qualidade e um potencial gigantesco para ampliar nossas exportações. O Oriente Médio é uma potência de grande importância para o mercado brasileiro e não podemos perder as oportunidades que esses países nos oferecem. No ano passado, as exportações do agronegócio brasileiro atingiram o patamar de US$100,81 bilhões, de acordo com dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex). Para os países árabes foram comercializados US$8,8 bilhões, onde as carnes de frango foram responsáveis por 21%, com receita de US$1,83 bilhão; carne bovina por 6,8%, gerando US$ 604 milhões; açúcares e melaço por US$1,33 bilhão, com 15% de market share, e milho com US$1,050 bilhão.

Esse mercado pode aumentar e muito! Há uma boa relação diplomática entre os países. A visita do governo federal à Riade (capital da Arábia Saudita) em outubro de 2019 selou ainda mais nosso compromisso de atender com eficiência e assertividade. Demonstramos interesse brasileiro no fortalecimento da cooperação econômica bilateral e na relação comercial. A Arábia Saudita é um dos principais parceiros comerciais do Brasil.

Em virtude da pandemia, nos afastamos um pouco das visitas diplomáticas. Precisamos retomar essa relação com uma agenda positiva que possa atender os dois países, ou seja, tanto a exportação quanto a importação. O negócio deve ser bom e rentável para ambos os lados.

Ressalto o brilhante trabalho desenvolvido pela ministra Tereza Cristina, sempre nos apoiando e trabalhando com as empresas brasileiras, com o objetivo de fomentar esse mercado tão importante para nosso Brasil.

Scot Consultoria: Quais são os mercados mais promissores? E qual o principal gargalo?

Ali Saifi: Alimento sempre será destaque no mundo. As pessoas não param de se alimentar. Por exemplo, há uma demanda boa para doces no geral, biscoitos e sucos Halal. Somos os maiores produtores de sucos. Atualmente, estamos exportando extrato de suco e os países receptores estão envasando in loco

Há um infinidade de mercados que o Brasil pode explorar nesses países. Até 2024, de acordo com dados divulgados pelo Global Islamic Economic Report 20/21, o mercado Halal global deve atingir em torno de US$2,35 trilhões. O setor com maior movimento de receitas, sem dúvidas, é o de alimentos e bebidas, principalmente de alimentos saudáveis, funcionais e orgânicos, responsável por 58% do faturamento global e com Certificação Halal. Os mercados promissores são os de moda, fármacos, cosméticos, entre outros. Veja na tabela 1.

Tabela 1. Os setores do mercado Halal global, seus respetivos faturamentos em 2019 e previsões de faturamentos em 2024*.

Segmento mercado

Faturamento 2019

Faturamento 2024*

Variação

Mercado Halal global

US$2,02 trilhões

US$2,35 trilhões

+16,2%

Alimentos e bebidas

US$1,17 trilhões

US$1,38 trilhões

+17,9%

Moda

US$277 bilhões

US$311 bilhões

+12,3%

Turismo

US$194 bilhões

US$208 bilhões

+7,2%

Fármacos

US$94 bilhões

US$105 bilhões

+11,7%

Cosméticos

US$66 bilhões

US$76 bilhões

+15,2%

*Expectativa

Fonte: Global Islamic Report 20/21.

Agora, para que nossa exportação alcance voos mais altos, precisamos resolver a questão da logística. As taxas são muito altas, nem um pouco competitivas, e sem falar sobre falta de contêiner em virtude dos problemas causados pela pandemia. Nosso custo de produção é competitivo, mas precisamos melhorar esses custos logísticos, entregar os produtos com mais agilidade para sermos mais competitivos. Temos know how e produtos de altíssima qualidade.

Scot Consultoria: Há uma tendência de aumento de países importadores exigindo o abate Halal nos frigoríficos brasileiros? Se sim, por quais motivos?

Ali Saifi: Todos os países árabes muçulmanos exigem o abate Halal. A Certificação Halal, além de ser reconhecida mundialmente como selo que atesta boas práticas de fabricação e segurança, tem sido adotada por muitos países como selo de qualidade, como na África, Japão e Canadá. Antes a Certificação Halal era utilizada para produtos, mas hoje, todo o processo produtivo tem recebido a Certificação Halal, mais conhecido como door-to-door.

Scot Consultoria: Como o senhor acredita que as restrições recentes da Arábia Saudita impactarão nas exportações de carne de frango brasileira?

Ali Saifi: A Arábia Saudita é um país importante para o mercado brasileiro. Nosso governo precisa entender claramente a posição dos sauditas, para que juntos possam resolver essa situação. Acredito que em breve teremos uma posição mais clara e assertiva.

Hoje, o Brasil exporta para mais de 100 países e, com certeza, nossos frangos não ficarão sem destino. Mas que o mercado saudita é muito importante para os frigoríficos brasileiros, não há dúvida. Precisamos estreitar nossas relações diplomáticas e intensificar a cooperação econômica bilateral. É um mercado rentável e de altos volumes. Mas acredito que, em breve, essa situação se resolva. Precisamos de uma agenda positiva, estreita, para que possamos abrir novos mercados ao invés de fechar.

Scot Consultoria: Quais são as perspectivas para esse mercado num período pandêmico?

Ali Saifi: Com a chegadas das vacinas, o mercado árabe vai voltar a crescer. Os países árabes pertencentes ao GCC (Conselho de Cooperação do Golfo), que são Omã, Emirados Árabes Unidos, Árabia Saudita, Qatar, Bahrein e Kuwait, tomaram atitudes interessantes para que os negócios voltassem a crescer. Por exemplo, adotaram uma série de ações para auxiliar as empresas afetadas pela pandemia, com pacotes emergenciais para o setor privado e pequenas empresas. A implementação de todas essas medidas preventivas mantiveram as economias do GCC estáveis. A maioria está se recuperando e de forma mais rápida do que o esperado.

Recentemente, li na Câmara de Comércio Árabe Brasileira, que os países árabes estimam um crescimento no PIB de alguns países já para este ano. A Arábia Saudita, maior economia do Golfo, espera crescer 2,8% em 2021. Os Emirados Árabes contraíram em 5,8% no ano passado e esperam alcançar crescimento de 2,5% para este ano. O Kuwait estima alta de 2,2%, enquanto Omã e Bahrein devem chegar a 2,1% e 2,5% de aumento do PIB, respectivamente.


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