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Scot Consultoria

A reprodução além da reprodução

Entrevista com o proprietário da Firmasa Tecnologia para Pecuária Ltda, Luciano Penteado

Segunda-Feira, 08 de Julho de 2019 - 17h20
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Médico veterinário formado pela Universidade de Marília. Atualmente é proprietário da Firmasa Tecnologia para Pecuária Ltda e diretor executivo da PEC 4.0 - Pecuária de Precisão

Foto: Scot Consultoria


O Encontro dos Encontros da Scot Consultoria, que engloba o Encontro de Criadores, Encontro de Adubação de Pastagens e o Encontro de Pecuária Leiteira, está chegando. A Scot Consultoria vai fazer uma rodada de entrevistas com palestrantes, a fim de abordar os principais temas que serão discutidos no evento.

Luciano Penteado é nosso primeiro entrevistado dessa rodada e sanou algumas dúvidas sobre o impacto de se fazer uma boa reprodução para o restante da cadeia.

Luciano é médico veterinário formado pela Universidade de Marília. Atualmente é proprietário da Firmasa Tecnologia para Pecuária Ltda e diretor executivo da PEC 4.0 - Pecuária de Precisão.

Scot Consultoria: Luciano, o senhor, como coordenador do bloco sobre reprodução, pode nos dizer a importância desse evento para a pecuária nacional?

Luciano Penteado:  O Encontro de Criadores para nós, produtores, técnicos, todos os setores envolvidos na pecuária, na minha opinião, é um dos melhores eventos, senão o melhor evento do Brasil.

Isso porque ele comtempla todo o sistema de produção, o que é muito importante. Eu acho que a chave é você pensar em sistema de produção. E aqui entra a reprodução, que é o assunto que o bloco que eu vou participar vai debater.

A reprodução é a base do sistema de criação. E sempre, a reprodução, a cria, é o patinho feio dos sistemas de produção, é o sistema mais penalizado. Então, sempre recebe o pior pasto, a pior nutrição, o pior investimento, por quê? Porque a cria tem um ciclo mais longo, então dá menos retorno e exige maior eficiência para dar retorno.

A ideia desse Encontro é mostrar para os pecuaristas e para todos que vão participar, que a reprodução está além da reprodução. Mostrar a importância da reprodução, que não está limitada apenas a emprenhar uma vaca. Sair desse clichê que “ah, você precisa fazer mais prenhezes”, mas ninguém consegue visualizar esse aumento de prenhezes no sistema de produção total.

Vamos falar de trás para frente, o sistema de terminação nos últimos anos aumentou, confinamento, semi-confinamento e tudo mais. Sempre que você melhora a qualidade nutricional, consequentemente, exige uma melhor genética dos animais, ou seja, a resposta dos animais está diretamente relacionada à genética.

A nutrição na cria também melhorou nos últimos anos, não é mais um salzinho qualquer. Utiliza-se uma nutrição melhor para o bezerro não ter aquele efeito sanfona na recria. Mas, também tem uma dependência muito grande da qualidade e da performance do animal para responder à nutrição.

Então, cada vez mais o sistema de produção está dependente de animais melhores, com genética melhor. E quem pode produzir genética é a reprodução.

Scot Consultoria: Qual será o foco do bloco de reprodução no Encontro dos Encontros? Quais as principais ideias inovadoras no ramo que valem destaque?

Luciano Penteado: Partindo dessa linha de pensamento, o sistema, ou seja, quem engorda, quem recria, não dava importância para o setor de reprodução, para a cria. Só que agora começou a dar importância.

A ideia do bloco de reprodução dentro do Encontro de Criadores é mostrar que o trabalho bem feito dentro da reprodução tem um impacto muito grande dentro dos outros sistemas e que complementam o sistema de produção.

Se eu conseguir colocar a genética, se eu conseguir que nasça uma maior quantidade de bezerros, e bezerros de melhor qualidade, que terão um melhor desempenho, quando eu entrar com uma nutrição mais pesada ou condições sanitárias melhores, nascidos na época certa, o impacto disso na cadeia é muito grande.

Eu tenho animais, por exemplo, que foram comparados em uma fazenda, animais de genética versus animais que não possuíam genética, em que os animais de genética apresentaram 20% a mais de desempenho.

Aí eu escuto “ah, mas então você não está falando de reprodução, você está falando de genética”. Mas, como é que eu ponho genética? E parece que as pessoas não percebem que bezerro não dá em árvore, bezerro dá em vaca. Quer dizer, não tem outra maneira de você ter bons animais para recria, engorda e terminação se não mexer na cria.

Então, a ideia do bloco é mostrar que todos os trabalhos, que também estão sendo feitos hoje por pesquisadores e agentes que trabalham no campo, não estão voltados apenas para fazer prenhez, mas sim, fazer uma maior quantidade de bezerros desmamados com potencial genético para atender a demanda de todo o sistema de produção.

Todo esse trabalho que fez com que você começasse a abater animais mais precoces, fez com que você começasse a emprenhar novilhas mais precoces. O avanço que houve no sistema de cria proporcionou a melhora do desempenho do sistema de produção.

Esse é o objetivo do bloco, a reprodução além da reprodução, quais os benefícios que ela traz para todo o sistema de reprodução.

Scot Consultoria: Luciano, o que a programação fetal afeta na reprodução? Na sua opinião, a programação fetal veio para auxiliar a melhorar esse sistema?

Luciano Penteado: Vamos falar assim, os estudos sobre os quais mais se falam é a nutrição fetal. Na verdade, a nutrição fetal não tem uma relação direta com a reprodução, ou seja, não traz um benefício direto para a reprodução.  

A não ser quando o feto fêmea, no primeiro terço da gestação, quando a vaca está muito bem nutrida, tem uma maior produção de oócitos, isso pode influenciar na qualidade da produção de oócitos desse feto.

Mas a nutrição da fêmea durante a gestação está diretamente relacionada ao desempenho dos animais no sistema de produção. Isso porque no terço medial é que vai acontecer a hiperplasia em que vai ter a maior produção muscular. A grande composição do boi terminado é de musculo. Está comprovado e isso realmente acontece.

Além disso, também tem estudos mostrando que é no terço medial da gestação que sã criados os espaços, os “vácuos”, para deposição de gordura. Se não tem esse espaço, não tem onde depositar gordura, não tem marmoreio.

Então, a programação fetal não tem uma influência muito grande na reprodução. Mas, a reprodução ajuda a programação fetal.

Por que isso? Porque toda matriz prenha tem um metabolismo diferente, ela se mantém mais gorda e aproveita melhor os nutrientes. Se eu emprenho uma vaca com um pós-parto muito curto é porque ela pariu bem.

Quanto mais tempo eu demorar para emprenhar a matriz, mais tempo ela vai estar com o bezerro ao pé e mais fraca ela fica, mais ela perde o escore corporal e fica cada vez mais difícil recuperá-la. Normalmente a fêmea vai dar o pico de queda de escore corporal exatamente no terço medial e aí, eu faço o efeito antagônico da nutrição fetal.   

Se eu consigo emprenhar ela mais cedo, se eu fizer um protocolo bem feito e adequado, com 55 dias já estou com ela prenha. Depois do repasse com o touro, 70% a 95% das minhas vacas estão prenhas e eu mantenho o escore corporal da vaca. E nesse caso, qualquer suplementação extra que eu faça eu já consigo alcançar a nutrição fetal mais fácil do que se a vaca estivesse mais magra.

Por isso que eu acho que a reprodução bem-feita, com um intervalo entre partos pequeno e com uma prenhez pós-parto curta, ajuda a nutrição fetal.

Scot Consultoria: Na sua visão, o que falta para o produtor reconhecer a importância da reprodução no sistema e investir mais nesse setor?

Luciano Penteado: Eu tenho uma opinião formada de muitos anos, e não é só em relação à cria, é de todos os sistemas, mas a cria é o pior, que é o fato de aceitar a incompetência. A pecuária toda absorve a incompetência, os erros, coisa que outras atividades não absorvem.

Por exemplo, a agricultura, se você atrasar 15 a 20 dias o plantio da soja, você colhe 20% a menos de soja. É avassalador isso, se você colher 20% a menos de soja, você não paga as contas.

Na pecuária não existe isso, por quê? Porque se o produtor tem 85% de prenhez e ele abaixa para 65%, ele quebra? Não quebra.

No ano seguinte, ele tem 200kg por bezerro desmamado, que antes era 240kg. Aproximadamente 15% a menos de quilos de bezerro desmamado e o pecuarista não consegue enxergar isso. Aí o que ele faz? Não reforma cerca, não reforma pasto, não reforma curral, corta gastos.

Para você ser eficiente, só existem duas maneiras, por opção ou por obrigação. Na agricultura é por obrigação, na pecuária, é opção. Então, o que falta para ser mais eficiente? Dar mais valor para o setor de cria.

Eu tenho um slide que apresento com o professor Pietro Baruselli, que também irá palestrar no evento, sobre uma propriedade que nós atendemos. Só sobre a época de nascimento, em 2012, a estação de monta tinha 11% de bezerros nascendo no que eu considerava a melhor época de nascimento, trinta e poucos por cento de bezerros nascendo em uma época indesejável e quarenta e tantos por cento nascendo em uma época ruim.

Na estação de monta passada, nós conseguimos fazer 54% nascendo na melhor época, 44% nascendo em época indesejável e apenas 2% nascendo em época ruim. Sabe quanto aumentou de quilos de bezerro só pela mudança da época de nascimento? Aproximadamente 20%, isso em um experimento a campo. É avassalador. E esse experimento vai até o confinamento, os dados são impressionantes. O professor Pietro Baruselli, inclusive, irá mostrar isso.

Esse é o impacto da reprodução no sistema.


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