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Plano Safra 2026/27, como refletirá na prática?

Apesar do aumento do crédito, alguns pontos importantes, como seguro rural e quitação de endividamentos, ficaram de fora da discussão.


Divulgação

Na terça-feira, 30 de junho de 2026, foi lançado o Plano Safra 2026/2027, que entrou em vigor em 1º de julho. Ao todo, serão destinados R$525,1 bilhões ao financiamento de médios e grandes produtores rurais, um aumento de mais de R$9,0 bilhões em comparação com o ciclo anterior. Em relação ao seguro rural, o governo ainda não se pronunciou sobre a destinação dos recursos.

Convidamos a palestrante e jornalista especializada em agronegócio e economia, Kellen Severo, para comentar o assunto.

Apesar do aumento do crédito e dos novos benefícios, como a redução de taxas de juros, muitos se preocupam com o seguro rural, já que a expectativa é que ele não cubra todas as áreas afetadas. Com as condições climáticas alteradas, principalmente em relação ao El Niño, esse Plano Safra é capaz de atender à necessidade do produtor? 
Kellen Severo: A avaliação predominante do agronegócio foi de insatisfação. A dependência do crédito privado continua crescendo, enquanto o crédito subsidiado perde espaço. A redução dos juros se confirmou e ficou entre 0,5 e 1,5 ponto percentual para a agricultura empresarial, dependendo da linha de crédito. É uma queda bem-vinda, mas os juros continuam em um patamar historicamente elevado, o que limita o acesso ao financiamento, mesmo com o anúncio de um volume recorde de recursos.

Existem alguns pontos a serem destacados. Um deles é sobre o endividamento rural. Sem uma solução para as dívidas acumuladas, cresce o número de produtores que não consegue acessar o crédito. O outro é o seguro rural, já que seu fortalecimento é uma das principais demandas das entidades do agro, que ficou fora do anúncio principal e não houve menção ao tema.

Apesar do aumento do volume total do Plano Safra, os recursos destinados ao custeio e à comercialização foram reduzidos em cerca de R$30,0 bilhões, de R$414,7 para R$384,9 bilhões. O governo anunciou um Plano Safra recorde de R$525,1 bilhões para a agricultura empresarial, volume com reajuste abaixo da inflação, mas o indicador mais importante não é o valor total. O que mede o alcance da política pública é o crédito com juros equalizados, e esse caiu de R$113,7 bilhões para R$97,0 bilhões.

Ou seja, o Plano ficou maior no papel, mas a parcela de crédito subsidiado pelo governo, aquela mais barata, encolheu.

O governo priorizou o investimento de longo prazo, mas diminuiu os recursos para custeio, que são a principal necessidade imediata do produtor. Quais impactos essa mudança pode trazer para a capacidade de produção nesta safra? 
Kellen Severo: Os recursos destinados ao custeio e à comercialização foram reduzidos em cerca de R$30,0 bilhões, saindo de R$414,7 para R$384,9 bilhões. Ou seja, o agro é forçado a buscar outras formas de financiamento, geralmente com juros mais altos, o que aumenta o custo de produção e mantém o produtor em uma “selva financeira”, com alta de juros, seletividade dos bancos e crédito restrito.

Pensando na competitividade do Brasil no mercado global, qual impacto esse Plano Safra pode ter sobre a produção, as exportações e a posição do país frente aos principais concorrentes?
Kellen Severo: O Brasil está entre os países que menos apoiam os produtores rurais. Segundo a OCDE, o apoio ao produtor brasileiro representa 5,4% da receita bruta agrícola, menos da metade da média dos países analisados, que é de 12,5%. Isso significa que o agro brasileiro já compete nos grandes mercados globais com menos subsídios do que muitos concorrentes.

No Plano Safra 2026/27, os recursos com juros equalizados pelo Tesouro caíram de R$113,7 bilhões para R$97,0 bilhões, redução próxima de 15,0%, enquanto cresce a participação do crédito contratado a taxas de mercado. O uso de recursos livres a juros de mercado cresce. Na prática, há um grande desafio para continuar competitivo em um mundo onde o dinheiro ficou mais caro e o subsídio ficou menor.

Se tivesse que destacar um ponto forte e um ponto de atenção do Plano Safra 2026/27, quais seriam? E quais ajustes ainda seriam necessários para fortalecer o crédito rural no longo prazo?
Kellen Severo: Ponto forte: a redução das taxas de juros, mesmo em um cenário em que elas ainda permanecem elevadas, não resolve o problema do custo do crédito, mas representa uma leve melhora.

Ponto de atenção: a baixa prioridade dada ao seguro rural, já que o crédito e o seguro precisam caminhar juntos.

O que ainda precisa ser ajustado: o crédito rural precisa ser tratado como uma política pública estratégica de longo prazo. Isso passa por garantir orçamento suficiente para a equalização de juros e para o seguro rural, dando previsibilidade ao sistema. Além disso, é fundamental uma condução responsável da macroeconomia, capaz de reduzir estruturalmente as taxas de juros. Enquanto o Brasil conviver com juros tão elevados, o custo do financiamento continuará sendo um dos principais desafios para a competitividade do agronegócio.

Kellen Severo

Palestrante e jornalista especializada em agronegócios e economia. Foi âncora e editora-chefe da Jovem Pan News e Canal Rural, colunista da Zero Hora, repórter na BM&FBovespa e consultora em documentário da HBO americana. Atualmente, é embaixadora da IHARA e parceira de conteúdo da John Deere.

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