Como o pecuarista pode se preparar para a seca sem perder a qualidade das pastagens e o desempenho animal e garantir uma boa rebrota nas águas.
Bela Magrela
Com a chegada do inverno nas regiões Centro-Oeste e Norte do Brasil, as pastagens enfrentam condições climáticas mais adversas, que reduzem seu crescimento e comprometem a oferta de alimento para o rebanho. O planejamento antecipado e o manejo adequado são fundamentais para minimizar os impactos da estiagem. Ao adotar estratégias ao longo do ano e durante os meses mais secos, o pecuarista consegue manter o desempenho dos bovinos, preservar a qualidade das pastagens e favorecer uma rebrota vigorosa com a volta das chuvas.
Convidamos a professora e doutora em forragicultura da Universidade Federal de São João del-Rei, Janaina Martuscello, para comentar o assunto.
Quais são os principais cuidados que o pecuarista pode adotar durante o inverno e o período de seca para preservar o vigor das pastagens e garantir uma boa rebrota do capim com a volta das chuvas?
Janaina Martuscello: O principal ponto é não entrar na seca com mais gado do que a reserva alimentar permite. Quando não se faz um bom planejamento forrageiro, há falta de volume desse alimento, e o pecuarista precisa adquirir alimentos mais caros para manter o rebanho. Na seca, o pasto não deve ficar rapado, pois exige que a planta utilize as reservas que armazenou nas águas. O uso excessivo dessas reservas faz com que o pasto demore mais para rebrotar nas primeiras chuvas. Por outro lado, o pasto não pode entrar muito alto nas águas, macegado* e com muito material morto, pois isso também prejudica a rebrota, uma vez que os perfilhos mortos e o material senescente impedem a entrada de luz na base das plantas, impossibilitando a geração de novos perfilhos. Portanto, o bom planejamento forrageiro impede pasto passado ou rapado.
*capim alto, seco e fibroso, com material morto na base.
De que forma a manutenção inadequada das pastagens no inverno afeta a rentabilidade do pecuarista após esse período?
Janaina Martuscello: Na seca, o objetivo do pecuarista é preservar os ganhos obtidos nas águas, já que a arroba produzida nesse período é sempre mais cara, pois na seca o pasto apresenta pior qualidade e menor quantidade, forçando o pecuarista a recorrer a uma suplementação mais eficiente em relação ao ganho de peso. Mas é importante destacar que na seca, mesmo com os pastos apresentando pior qualidade, há necessidade de quantidade para que o suplemento possa complementar o ganho. Suplementação funciona com pasto. Por isso, é importante que se tenha oferta de volume para que os ganhos econômicos sejam maiores. Mesmo com o pasto macegado e boa suplementação é possível não só preservar ganhos, mas também adicionar desempenho ao gado no período seco.
Quais estratégias de manejo podem ajudar a reduzir os impactos da estiagem sobre as pastagens e evitar a degradação das áreas de produção?
Janaina Martuscello: São várias as formas de se ter pasto volumoso na fazenda, transferindo forragem do período das águas (quando os fatores de produção são abundantes, como água, luz, temperatura e nutrientes, se houver adubação no sistema) para o período seco (quando há escassez de forragem). O pecuarista pode lançar mão de feno, silagem, pré-secado e pastos diferidos (feno em pé). Mas, para todas essas técnicas é necessário isolar parte das pastagens nas águas para a conservação. Portanto, o planejamento forrageiro deve prever a diminuição das áreas de pastagens nas águas que serão usadas para a geração de volumoso de seca. Isso torna a divisão de pastos imprescindível para um bom planejamento forrageiro.
O diferimento de pastagens é uma técnica interessante e de baixo custo. Mas deve ser feito com regras para que se preserve não só a quantidade de forragem como também a qualidade. Essa técnica consiste em vedar algumas áreas da propriedade para que possam ser utilizadas durante a estação seca. Essa vedação deve ser realizada no fim do período chuvoso, desde que as condições climáticas, como temperatura, precipitação e luminosidade ainda estejam favoráveis para o crescimento e desenvolvimento do capim. Antes de realizar o diferimento, após o último pastejo da estação chuvosa, deve-se realizar uma adubação nitrogenada e vedar a área. Essa vedação pode ser feita de forma escalonada, isolando os piquetes do pastejo em tempos diferentes para que possam ser abertos em tempos diferentes, isso melhora a qualidade da forragem diferida. Por exemplo, veda em fevereiro e abre em maio, ou veda em março e abre em junho, e assim por diante. Caso não seja realizada a adubação, o pasto deve ser vedado um pouco antes para que haja tempo de acumular maior massa de forragem.
Vale salientar que o uso do diferimento só é possível depois que o manejo das pastagens da propriedade estiver acertado, de forma que haja a possibilidade de isolar um ou mais piquetes. Isso será possível após a divisão dos piquetes e, consequentemente, maior controle do pastejo.
E sobre o desempenho produtivo do bovino em meio à redução da oferta nutricional do pasto?
Janaina Martuscello: Na seca, a arroba é mais cara por ser mais difícil de ser “conquistada”. As estratégias de conservação de volumoso, associada a uma boa suplementação, podem permitir ganhos interessantes durante a seca. O feno, a silagem e o pré-secado, quando bem feitos, podem gerar excelente ganho de peso. Já o diferimento pode gerar ganhos modestos, mas a combinação de um bom diferimento escalonado com suplemento adequado, de acordo com a qualidade do pasto, pode gerar resultados animadores.
Como o planejamento forrageiro realizado durante o ano pode ajudar o produtor a enfrentar o inverno e a seca sem comprometer a produtividade no campo?
Janaina Martuscello: O planejamento forrageiro é a principal ferramenta para transformar a seca e o inverno de um problema em uma fase previsível e administrável dentro da fazenda. Como eu sempre digo, “todo ano tem seca”, a única dúvida é saber se o produtor estará preparado ou não para ela. O bom planejamento forrageiro permite definir antecipadamente quantos bovinos a fazenda suportará durante a seca, evitando o superpastejo, a degradação das áreas e a perda de desempenho animal. Em vez de ser obrigado a vender bovinos em momentos desfavoráveis ou gastar excessivamente com suplementação emergencial, o pecuarista passa a tomar decisões estratégicas e econômicas.
Na prática, a produtividade da pecuária não é determinada pelo melhor mês do ano ou pela melhor estação, mas sim pela capacidade da fazenda de atravessar o pior período sem perder desempenho. Quem produz pasto nas águas e o transfere para a seca mantém a produção, preserva o pasto e protege a rentabilidade do negócio.
Por isso, eu costumo dizer que o planejamento forrageiro não é apenas uma ferramenta de manejo, mas uma estratégia de gestão de risco da pecuária.
Zootecnista pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, mestre e doutora, com pós-doutorado em zootecnia pela Universidade Federal de Viçosa, na área de forragicultura e manejo de pastagens. Professora de graduação e pós-graduação da Universidade Federal de São João del-Rei, leciona as disciplinas Fundamentos de Forragicultura e Forragicultura Aplicada.
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