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Scot Consultoria

Conhecendo um pouco mais o principal vilão da soja


Quarta-feira, 31 de janeiro de 2018 - 17h20

Fonte: Visual Hunt


A ferrugem da soja é uma das principais doenças que acometem esta cultura. Ela causa sérios prejuízos às lavouras e consequentemente, aos produtores. A fim de ajudar os sojicultores a tirarem suas dúvidas, a Scot Consultoria entrevistou o pesquisador da Embrapa Soja, Rafael Moreira Soares.


Rafael possui graduação em Agronomia pela Universidade de Passo Fundo (1994), mestrado e doutorado em Agronomia na área de Proteção de Plantas pela UNESP. Atualmente, é pesquisador da EMBRAPA - Soja, com ênfase em Fitopatologia.


Ele comentou algumas características, sinais da doença e principais métodos de controle utilizados contra a ferrugem, afim de o produtor obter maiores ganhos por produtividade na soja. Confira:


Scot Consultoria: O senhor poderia falar algumas características da ferrugem asiática da soja?


Rafael Soares: A ferrugem asiática da soja é a principal doença da cultura falando em perdas econômicas no Brasil. Uma das dificuldades em relação à doença é porque ela é muito agressiva e com uma evolução muito rápida.


É difícil a identificação no início da ocorrência porque ela começa com pequenas lesões nas folhas. Essas lesões produzem os esporos, que são como as sementes dos fungos levadas pelos ventos, disseminando a doença eficientemente à longas distâncias. Esse é um dos maiores agravantes em relação à ferrugem.


Depois de um certo grau de severidade da doença nas folhas, ela causa o amarelecimento, o secamento e a queda prematura das folhas. Com isso, as plantas não conseguem ter energia para formar os grãos adequadamente. Então, há perda de produtividade e de qualidade dos grãos.


Scot Consultoria: Como o produtor pode ficar atento aos primeiros sinais da doença?


Rafael Soares: Nós recomendamos fazer o monitoramento da lavoura. Sendo assim, entrar na lavoura semanalmente ou o máximo de vezes que o produtor puder a partir do desenvolvimento vegetativo da soja, coletando folhas na parte baixeira das plantas, que é aonde a doença geralmente começa, nas folhas mais velhas, e analisando a presença da doença.


Scot Consultoria:  Qual é o principal método de controle da ferrugem asiática da soja?


Rafael Soares: Atualmente, o principal método de controle da doença é o uso de fungicidas, ou seja, o controle químico. Mas, a aplicação desses produtos tem alguns critérios. Costumamos dizer que a aplicação deve ser preventiva, ou seja, antes de visualizar a doença, mas não calendarizada, ou seja, não em uma data fixa.


O produtor deve observar vários quesitos técnicos para fazer essa aplicação, por exemplo, se o clima está favorável. A doença é favorecida por umidade, então chuvas constantes e temperaturas mais amenas favorecem o desenvolvimento da doença. A época de plantio também é importante porque plantios mais cedo têm a tendência de poder escapar da doença de acordo com a menor população do fungo na lavoura. Por outro lado, semeaduras mais tardias tem uma tendência de pegar uma população maior do fungo e ter problemas.


Em relação aos produtos químicos, há diferença entre fungicidas, há aqueles que são mais eficientes e outros menos. Existem diversos resultados de pesquisas mostrando a eficiência dos produtos. Então, o agricultor deve optar por produtos mais eficientes para ter maior controle.


Scot Consultoria: Alguns estados fazem o calendário da safra e o vazio sanitário. Essas formas de controle são eficientes?


Rafael Soares: O vazio sanitário, principalmente, tem sido bastante eficiente. O objetivo do vazio sanitário tem sido interromper o desenvolvimento do fungo, ou seja, não fazer a chamada ponte verde, porque o fungo que causa ferrugem precisa da planta viva para se desenvolver e se multiplicar.


Com o vazio sanitário, fica proibido o cultivo de soja durante 60 dias, em alguns estados são até 90 dias de vazio, sendo obrigatório também controlar as plantas espontâneas de soja que nascem no campo para, justamente, cortar essa ponte verde e diminuir a população do fungo no ambiente. Ele acaba sobrevivendo em mato por ter hospedeiros secundários, mas que não são tão bons para ele se desenvolver.


O vazio ajuda a retardar o aparecimento da doença quando começa a safra. Já a janela de plantio, que no Paraná é de 15/09 a 31/12, quando é permitido plantar soja, tem como objetivo inviabilizar plantios mais tardios de soja que elevam o número de aplicação de fungicida, como os feitos em janeiro, soja safrinha e soja pós soja. Então, a janela de plantio vem com o intuito de reduzir o número de aplicações porque está havendo já o problema de resistência do fungo aos fungicidas, ou seja, pelo excesso de aplicação, o fungo está resistente e os fungicidas não estão mais funcionando como funcionavam há alguns anos atrás.


Scot Consultoria: Existe alguma variedade de soja que já é resistente à doença ou que está sendo desenvolvida?


Rafael Soares: Sim. Depois do controle químico, talvez o desenvolvimento de variedades resistentes seja a nossa maior esperança de continuar com um bom controle da doença. No mercado já existem alguns materiais. A EMBRAPA está lançando esse ano um outro material, a BRS 511, que tem resistência a ferrugem. Mas, esses materiais não são imunes, eles são resistentes, ou seja, eles são afetados, mas a doença se desenvolve mais lentamente. Então, não se dispensa, independentemente da situação, o uso de fungicidas também. As variedades resistentes vão apenas colaborar para um melhor controle, para que não se perca o controle da doença por um atraso de aplicação ou falta de monitoramento. Então, cultivares resistentes devem também ser buscadas pelo produtor.


Scot Consultoria: Quanto o agricultor gasta aproximadamente por hectare ou por safra para controlar a doença?


Rafael Soares: Nós sabemos que a média do Brasil está em 3 aplicações por safra. É um custo relativamente alto. O custo de aplicação estava em torno de 30 dólares, mas aumentou devido ao problema da resistência. A recomendação tem levado a mistura de mais produtos para aumentar a eficiência, o que aumenta o custo da aplicação, porque ao invés de comprar um produto, você compra dois para uma mesma aplicação.


O número de aplicações está em torno de 3, mas o número considerando o número de produtos utilizados está em torno de 4,5. No Brasil, 99% das áreas de soja fazem aplicações de fungicidas. O custo estimado é em média de 2 milhões de dólares por ano, considerando perdas e o custo do controle. 


Scot Consultoria:  Como funciona o Consórcio Anti-Ferrugem?


Rafael Soares: O consórcio é uma parceria que nós temos coordenada pela EMBRAPA, uma parceria com instituições públicas e privadas que funciona desde 2004 para monitorar e gerar informações sobe a ferrugem da soja.


Atualmente, a nossa principal ferramenta é o site do consorcio onde nós temos ali em tempo real as ocorrências que estão sendo registradas durante a safra. E ali nós temos também uma rede de laboratórios credenciados com condições de identificar a doença corretamente. No site temos informações de todos os laboratórios que mandam informações para gente para que o produtor e os técnicos tenham informações, principalmente, das primeiras ocorrências.


No site também temos as épocas que ajudam o agricultor a determinar as aplicações dele. A gente começa desde a entressafra já com a soja voluntaria que aparece no MAPA e também temos parceria com a EMATER de presença de esporos, com coletor de esporos, e depois as ocorrências em lavoura comercial mesmo.   


Scot Consultoria:  Como está a dispersão da doença nessa safra comparada a anterior?


Rafael Soares: Ela começou, comparando as datas de ocorrência, um pouco mais tarde do que na safra anterior. Se for considerar a safra 2015/16, começou mais tarde ainda. 2015/16 foi uma safra que teve bastante ferrugem e na safra passada não foi tão severa a doença. Embora tenha tido uma boa condição de clima, alguns fatores levaram a não ter tantos prejuízos da doença. Esse ano a gente espera que tenha essa previsão de La Niña, que talvez chova um pouco menos no Sul do país, e talvez a doença possa ser um pouco menos severa, assim como foi na safra passada.


Scot Consultoria: O principal fator seria o climático ou também os produtores tiveram um maior controle além do clima?


Rafael Soares: Há alguns anos o produtor está bem ciente da doença. O maior problema tem sido a resistência, pois alguns produtos que estavam indo muito bem já não funcionam tão bem em alguns locais. Mas, em geral, o clima acaba sendo o principal fator no controle da doença. Evidentemente, que a gente tenta falar de modo geral, mas o Brasil é muito grande, tem soja do Sul ao Norte, então, a condição climática pode ser extremamente diferente de um local para o outro e também a doença pode ocorrer de forma bem diferente de uma região para outra.


Scot Consultoria: Então para o produtor as principais ações seriam monitoramento, aguardar o clima e ficar atento às questões de resistência dos fungicidas?


Rafael Soares: Isso, utilizar os produtos recomendados, cultivares resistentes, quando estiverem disponíveis para a região dele, ou disponibilidade de semente e fazer o monitoramento de lavoura, porque mesmo depois que você faz a primeira aplicação, que pode ser preventiva, a doença pode demorar para entrar ou entrar mais cedo. É importante que o agricultor esteja no campo coletando, atento as informações do que está acontecendo na região para determinar a necessidade ou não da aplicação.


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Entrevistado:



Rafael Moreira Soares, pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa Soja).




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