Com 40 anos de pesquisa em bioinsumos, Mariangela Hungria, da Embrapa Soja, fala sobre o avanço dos biológicos na agricultura brasileira, as tecnologias de inoculação e coinoculação da soja, os entraves de financiamento da ciência e o uso de microrganismos na recuperação de pastagens degradadas.
Foto: Divulgação
Olá! Eu sou Lebna Landgraf e falo do estúdio da Embrapa Soja, em Londrina, no Paraná. E vamos para mais um episódio do Soja Talks. Hoje nós vamos conversar com a pesquisadora da Embrapa Soja Mariangela Hungria, que desenvolve há mais de 40 anos pesquisas com bioinsumos. Tudo bem, Mariangela? É um privilégio ter você aqui com a gente. Seja muito bem-vinda.
Eu que agradeço essa oportunidade aqui de poder falar dessas coisas maravilhosas que são os bioinsumos.
Mariangela, os biológicos vêm ganhando cada vez mais espaço. Quais são os desafios científicos para as próximas décadas nessa área?
Então, o Brasil hoje é considerado o líder no uso desses biológicos na agricultura. As pessoas mesmo, no exterior, falam muito: “Ai, conta, qual é o segredo? Como vocês conseguiram?”. Eu falo assim: o segredo realmente é muito tempo, porque faz sete décadas que o Brasil começou a desenvolver pesquisas. Estão avançando na parte da ciência, no desenvolvimento industrial, contribuindo para a legislação. Não é uma história de um dia, é uma história que foi construída com bases sólidas.
Hoje, por exemplo, o que eu vejo para o futuro? Apesar da gente ser líder mundial, os biológicos na agricultura brasileira representam só 10,0% em relação aos químicos. Hoje, a gente tem produtos na prateleira prontos para subir isso rapidamente para 40,0%, 50,0%. São produtos prontos, validados a campo.
E por que isso não acontece? Pelo setor privado. Biológicos são baratos. O setor privado é maravilhoso, ele dá empregos, ele paga imposto, mas ele tem que ter lucro, ele quer lucro, e lucro num curto período. Então, o setor privado só está interessado em grandes culturas, de grandes áreas. Só soluções para soja, milho, entrando agora em cana-de-açúcar, e pronto.
Nós temos hoje 80 estirpes validadas a campo para mais de 100 leguminosas. São leguminosas forrageiras, de grãos, tropicais, subtropicais, temperadas, e estão lá. Ninguém se interessa por produzir. O pequeno agricultor, o médio agricultor, eles procuram a gente, só que não existem esses produtos.
Além disso, o pequeno e o médio agricultor não são atendidos. Por isso que é tão importante o fortalecimento de cooperativas e de associações. Até a própria embalagem dificulta: pequenas embalagens, a gente não acha; embalagens cada vez maiores. Então, facilmente, com coisas prontas que a gente tem para essas outras culturas e para pequenos e médios agricultores, a gente subiria para, tranquilamente, 50,0%.
Aí, para o resto — e eu não sei até onde vai o limite de biológicos substituindo os químicos, eu acredito que vá acima de 80,0% —, aí precisamos continuar a fazer o que a gente está fazendo há 70 anos: investimento, ciência e tecnologia.
Mariangela, você sempre trabalhou muito com soja. Quais foram as suas principais contribuições para essa cultura?
Eu trabalhei dez anos em outra unidade da Embrapa, a Embrapa Agrobiologia, trabalhava com feijão, que eu amo também até hoje, minha cultura do coração, mas eu vim para a Embrapa Soja e me encantei. É uma cultura maravilhosa. Mas só que, quando eu cheguei, ninguém usava biológicos na soja, porque eram conceitos que tinham vindo dos Estados Unidos, de que, uma vez que você já usou a bactéria, ou usou a semente com a bactéria, você nunca mais tem que fazer nada.
Então, eu comecei a minha carreira — eu considero que a minha carreira científica mesmo, onde eu estava independente, tinha meu laboratório, meu grupo de pesquisa… não tinha nada, não tinha dinheiro nenhum, mas foi a oportunidade de realmente colocar em prática aquilo que eu pensava: eu tenho que trabalhar, porque o que se achava dos biológicos é que era uma coisa em pequena escala, para pequenos agricultores. Eu cheguei no centro de soja e falei: “Não, o pessoal daqui não é pequeno, não é pequena escala, essa coisa está crescendo”. Então, eu vou trabalhar visando altíssimas produtividades, porque daí realmente também vi que o agricultor não aceitava nada que eu não garantisse que era máxima produtividade. Eu falava: “Se eu trabalhar com isso, atendo ao grande, ao médio, ao pequeno, tudo”.
Então, comecei com os próprios estudos de inoculação anual da soja, que não existia no mundo, e que nós provamos que, colocando bactérias frescas, prontas fisiologicamente para começar o processo de fixação (de nitrogênio), a gente ganhava um rendimento médio de 8,0%, naquilo que eles chamam de áreas velhas, as áreas degradadas.
Isso foi muito interessante, porque aqui eu aprendi — foi sempre uma construção com o agricultor, que o agricultor aqui procura muito a gente. Daí o agricultor veio e pediu uma solução para o milho e para o trigo, porque ele não plantava só a soja. Então, nós selecionamos as Azospirillum brasilense. A primeira tecnologia da inoculação anual hoje já está em 85,0% de toda a área cultivada no Brasil. Isso são mais de 40 milhões de hectares. A do milho, que nós lançamos em 2009, já está em 10 milhões de hectares: mais de 50,0% do milho de inverno, quase 30,0% do milho de verão.
E aí também, mais uma vez, foi a ciência participativa, construindo com o agricultor.
O agricultor começou a relatar melhorias depois que ele usava o inoculante do milho, se ele plantasse a soja em cima do trigo que tinha recebido o Azospirillum brasilense. Isso nos alertou: alguma coisa está acontecendo ali. Então começamos os estudos e lançamos a tecnologia da coinoculação da soja, que eram duas bactérias com processos microbianos diferentes. Era assim: a indústria de fertilizante nitrogenado biológico, que era o rizóbio, e a indústria de fitormônio, que era o Azospirillum brasilense, que aumentava as raízes. Com isso, a gente dobrava os benefícios da soja.
E veja, faz dez anos que a gente lançou essa tecnologia. O último dado que eu recebi — nossa, fico até arrepiada, porque é como se fosse um filho, sabe, que a gente lança — já está em 57,0% de toda a área cultivada no Brasil. Isso são 30,0 milhões de hectares.
Então, só no caso da soja, por não ter que usar fertilizante nitrogenado, a gente faz essa conta indireta de quanto está economizando, porque não teve que gastar.
Eu acabei de atualizar os dados agora para a última safra: a área, rendimento e preço do fertilizante — 29,0 bilhões de dólares, que o Brasil deixou de gastar nessa última safra, não usando o nitrogênio fertilizante na soja, por causa das bactérias do processo de fixação biológica do nitrogênio.
Nossa, é um resultado e tanto. E para as outras culturas? Você falou do milho, mas você tem diferentes trabalhos na área de bioinsumos, né, Mariangela?
Sim. Como eu falei, hoje, qual eu considero a nossa principal limitação? Nós temos 70 anos de pesquisas, desenvolvimento industrial e, inclusive, legislação com biológicos na agricultura.
E considerando só o topo da contribuição de fixação de nitrogênio, com as leguminosas, hoje a gente tem 80 estirpes selecionadas, validadas a campo, para mais de 100 leguminosas — que você inclui grãos, forrageiras, árvores, tropicais, subtropicais, temperadas.
São centenas e centenas de quilos de nitrogênio.
E eu falo, um exemplo só, que é do que eu dediquei dez anos da minha vida no começo da carreira, que é o feijão, nosso feijãozinho — na minha casa, tem que ter feijão todo dia. É super nutritivo; uma pena que os brasileiros estejam comendo menos feijão. Mas para o feijão, a gente tem umas estirpes, uma até saída aqui do Paraná, espetaculares, que conseguem fornecer todo o nitrogênio que o feijão precisa. E nas nossas validações ainda aumentam o rendimento nacional em três, quatro vezes.
Hoje a produtividade está em mil quilos por hectare; a gente consegue chegar facilmente a 4,0 mil quilos por hectare. E hoje, na média nacional, as pessoas usam cerca de 25kg de nitrogênio por hectare no feijão. Podemos eliminar isso e ainda quadruplicar o rendimento nacional.
Mas o que acontece? O agricultor nem encontra esse produto, porque o setor privado está concentrado em soja, milho, um pouco de cana-de-açúcar. Então, essas soluções que a gente tem prontas e que podem chegar para várias culturas e para pequenos e médios agricultores, mas não chegam, é uma limitação que nós temos que resolver. É um desperdício a gente estar usando 25kg de N no feijão.
É uma dificuldade também a questão de recursos. A gente ouve os seus resultados, parece que é simples, mas eu já ouvi você dizer que no Brasil você não faz ciência, você faz milagre, né? Qual que é o desafio de se colocar um projeto em prática?
As pessoas, ainda mais a geração Z agora, que é bem imediatista, não entendem que as coisas demoram na ciência. Às vezes a gente fala assim: “Ai, olha, nossa, deu super certo, só dez anos e deu certo”.
Então, quais as limitações que a gente tem? A gente não tem recursos. Às vezes a gente tem recursos, mas ficam contingenciados, não vêm, então você não tem a previsibilidade. E você tem projetos de curta duração, sabe? São dois, três anos um projeto.
Você não tem os resultados e não consegue validar a campo nesse intervalo de tempo. Então, nós temos que mudar toda a estrutura de financiamento da pesquisa para a agricultura no Brasil. É diferente de você ter lá, por exemplo, um desenvolvimento industrial, um produto químico, que você consegue fazer o ano inteiro, 365 dias por ano. Não, nós temos que esperar validar no campo, por cultura, uma vez por ano.
Nós precisamos disso: de recursos, porque retorno econômico a gente dá, né?
Não falei dos R$29,0 bilhões? Eu falo: “Ah, eu queria receber 0,001% todo ano desse dinheiro para as pesquisas. Nós íamos arrasar.”
Eu queria que você falasse um pouco do papel dos INCTs, que coordenam as redes de pesquisa de instituições, institutos de pesquisa e universidades. Como que eles colaboram com o desenvolvimento dos bioinsumos no Brasil?
Então, eu tenho a honra de ser líder, desde 2014, de um Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de microrganismos na agricultura. E é uma experiência fantástica, porque é somatória de esforços.
Como você falou, a gente faz milagre. Então, junto, a gente consegue fazer um milagre maior. Eu não posso, por exemplo, atuar na Amazônia, atuar no Rio Grande do Sul. Então, nós temos as lideranças em cada bioma, em cada estado, e nós nos unimos e discutimos os problemas, usamos as mesmas metodologias para enfrentar esses problemas.
A gente se ajuda muito, sabe? Assim: “Olha, acabou o meu dinheiro, preciso fazer tal análise”. “Não, manda para cá que eu analiso”, entendeu? A gente maximiza os recursos, não repete coisas. Porque, às vezes, se você não é conectado, você se mata para fazer uma coisa que percebe que o colega ali do lado está fazendo. Numa situação de limitação de recursos, a gente tem que maximizar isso.
No último ciclo — nós estamos agora no segundo ciclo do nosso INCT —, nós colocamos 14 produtos no mercado, produtos que estavam numa estimativa de atuarem em mais de 30,0 milhões de hectares.
Nós conseguimos dar um retorno muito bom para a sociedade. Tivemos patentes. Uma coisa muito importante: tivemos formação de recursos, recursos qualificados, sabe? Foram mais de 250 alunos de mestrado, doutorado e iniciação científica. Então, o INCT, para mim, significa isso: maximização de tudo para dar o maior retorno para a sociedade.
E quais são os desafios científicos que merecem a sua atenção agora, nos próximos anos?
Olha, são tantos, tantos. E o que acontece? Mais do que nunca, nós precisamos de investimentos. Por quê? Porque nós estamos com ferramentas que podem ser fantásticas. E eu falo assim: “Ah, eu queria ter mais 30 anos para frente”, porque ia ser tão mais fácil fazer coisas que hoje demoram.
Por exemplo, o trabalho de seleção de estirpe, validação e reconhecimento genético, demorava 15 anos. Hoje, com as ferramentas que a gente tem, edição gênica etc., pode demorar três anos só. Então, temos grandes oportunidades de acelerar a obtenção de resultados científicos.
Por outro lado, como está tudo indo muito rápido, mais do que nunca a gente precisa de seriedade no investimento. Por quê? Porque, se a gente não tiver autonomia e treinamento e conhecimento científico nessas novas metodologias, nós vamos passar a ser importadores de tecnologia.
Hoje, a gente conseguiu ser líder em agricultura tropical — nós até exportamos nossas tecnologias — mas, se não investirmos em inteligência artificial, em data centers, em ilhas de excelência de manipulação genética, nós vamos passar até a ter que pagar para ter acesso a essas tecnologias e não vamos dar tudo que a gente poderia estar entregando para a agricultura.
Para a gente finalizar, queria que você falasse um pouco sobre o seu trabalho com pastagens degradadas ou em estado de degradação.
Eu, como agrônoma, sempre quis contribuir, e a minha maior tristeza era viajar — porque a gente viaja bastante — e ver essas pastagens degradadas. Agora surgiu essa grande oportunidade. Eu trabalhava no centro de soja — na Embrapa, nós temos as missões de cada centro —, mas, com a entrada do sistema de integração lavoura-pecuária, eu vi uma oportunidade de realizar isso, que era o meu grande sonho: dar essa contribuição, que eu acho que pode ser a maior contribuição ambiental que o Brasil precisa ter. Porque a área que a gente tem com pastagens hoje equivale a duas vezes a área que a gente tem com todas as culturas. E delas 50,0%, pelo menos, estão em algum estado de degradação.
E nós vimos que, com os microrganismos, a gente pode recuperar essas áreas — ajudar a recuperar —, produzir mais biomassa, e biomassa com mais nutrientes. Então, o gado não só tem mais comida, como comida de melhor qualidade.
Com isso, a gente pode aumentar a lotação e recuperar o resto para virar agricultura. Então, toda a área que a gente tem cultivada hoje com todas as culturas, a gente pode dobrar sem ter que derrubar uma árvore.
Hoje, a gente tem tecnologia pronta para o agricultor que quiser adotar, e existe financiamento para isso. A gente está com linhas do governo para a recuperação de áreas degradadas, que vão permitir a recuperação dessas áreas.
O agricultor que vem e que fala que precisamos desmatar está impedindo a agricultura de progredir — é mau agricultor. Hoje, o bom agricultor consegue recuperar essas áreas e introduzir, e produzir cada vez mais. O Brasil não merece ter que derrubar uma árvore para produzir mais. Nós temos que recuperar esse nosso passivo ambiental, e temos condições de recuperar.
Muito obrigada, Mariangela. Gostaria de acrescentar algo, deixar alguma mensagem?
Só que valorizem a ciência. A ciência traz até resultados econômicos bastante impactantes, e os resultados ambientais. Acabei nem comentando aqui, mas, não usando, por exemplo, o nitrogênio fertilizante na soja, a gente deixou de emitir 260,0 toneladas de CO₂ equivalente só na última safra.
Então, os biológicos são maravilhosos economicamente, socialmente e para o ambiente também. Mas precisam de reconhecimento da sociedade, inclusive para o suporte financeiro, para a gente substituir cada vez mais os químicos pelos biológicos.
Referência
SOJA RADAR DA TECNOLOGIA. Bioinsumos na agricultura. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=IdREJQnFzmU
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