A discussão nos Estados Unidos sobre possíveis restrições às exportações de diesel adiciona um novo fator de risco ao mercado brasileiro, cuja dependência do combustível norte-americano aumentou em meio à menor disponibilidade global.
Foto: Scot Consultoria
O mercado brasileiro de diesel está pressionado, principalmente pela alta dos preços internacionais e pela menor disponibilidade do combustível no mercado internacional. Embora o Brasil produza a maior parte do diesel que consome, a produção doméstica não é suficiente para atender integralmente à demanda. Segundo a Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom), aproximadamente 30,0% do consumo brasileiro depende de importações.
Essa dependência aumentou diante da redução da disponibilidade internacional. A Rússia, grande fornecedora de diesel, suspendeu as exportações, após ataques ucranianos afetarem sua capacidade de refino. Antes da restrição, era grande abastecedora de mercados como Brasil e Turquia. Paralelamente, os conflitos no Oriente Médio reduziram os embarques da região: entre março e agosto, as exportações de diesel do Oriente Médio caíram pela metade na comparação feita ano a ano.
Com menos produto, as cotações internacionais subiram. Na Europa, os contratos futuros de diesel mais que dobraram em relação ao início de 2026, enquanto os estoques norte-americanos ficaram abaixo da média dos últimos cinco anos, mesmo com as refinarias operando em níveis elevados.
No Brasil, esse movimento aumentou a diferença entre o preço vigente internamente e o custo de importação. Em 16 de setembro, a Abicom calculava que o diesel vendido pela Petrobras estava R$3,89 por litro abaixo do preço de importação, a maior diferença registrada até então.
Esse descolamento reduz a atratividade econômica das compras externas por importadores independentes, que passaram a postergar operações. Ao mesmo tempo, as refinarias brasileiras já operam próximas de sua capacidade, limitando a possibilidade de compensar rapidamente uma redução das importações com aumento da produção doméstica.
Figura 1.
Cotação média do diesel em São Paulo (R$/litro).
Fonte: Scot Consultoria
A situação ganhou um novo componente em setembro com a discussão, nos Estados Unidos, sobre possíveis restrições às exportações de diesel. Com a redução da oferta russa, o Brasil aumentou as compras do produto norte-americano. Cerca de 80,0% do diesel importado em setembro teve origem em refinarias dos Estados Unidos (Abicon), justamente em um período de menor disponibilidade global.
Em 23 de setembro, o governo norte-americano defendeu a redução das exportações de diesel. No mesmo dia, uma reportagem indicou que o governo preparava uma suspensão das exportações por 90 dias. A Casa Branca posteriormente negou que uma proibição ampla estivesse sendo preparada, e o secretário de Energia dos Estados Unidos, afirmou que um bloqueio total poderia prejudicar a operação das refinarias e elevar também os preços da gasolina e do combustível de aviação.
A discussão, entretanto, não está encerrada. Em 24 de setembro, a Reuters informou que o secretário de Energia havia procurado executivos de grandes refinarias norte-americanas para avaliar uma restrição voluntária às exportações de diesel. Até o momento não há um bloqueio formal das exportações americanas, mas há uma discussão sobre mecanismos para ampliar a disponibilidade doméstica nos Estados Unidos.
Para o Brasil, uma redução dos embarques norte-americanos exigiria buscar volumes adicionais em outros fornecedores justamente quando o mercado internacional apresenta oferta limitada. Isso poderia elevar o custo de importação e aumentar a competição pelos volumes disponíveis.
Figura 2.
Importações de óleo diesel e participação dos Estados Unidos por mês em 2026 em mil toneladas.
Fonte: Comex | Elaboração: Scot Consultoria
Governo tenta limitar a transmissão da alta ao mercado doméstico
A elevação do preço internacional não foi integralmente repassada aos preços brasileiros. Uma das medidas utilizadas no Brasil foi a subvenção ao diesel.
Em setembro, o benefício alcançou R$2,12 por litro. Tal benefício é resultado da subvenção inicial de R$1,12 por litro, acrescida de R$1,00 diante da continuidade da pressão externa. Em 25 de setembro, o Ministério da Fazenda decidiu manter os R$2,12 por mais 30 dias, a partir de 27 de setembro, justificando a decisão pela persistência da volatilidade dos preços internacionais do petróleo e dos combustíveis.
A medida reduz, no curto prazo, a transmissão da alta internacional para o mercado doméstico. No entanto, não elimina os fatores que pressionam o mercado. A disponibilidade internacional continua limitada e o Brasil permanece dependente das importações para complementar sua produção.
O cenário merece atenção no agronegócio porque o diesel está presente tanto nas fazendas quanto no transporte da produção. Tratores, colheitadeiras e outras máquinas agrícolas utilizam o combustível, enquanto a dependência brasileira do transporte rodoviário faz com que alterações no preço do diesel também sejam transmitidas ao frete.
A pressão ocorre em um período de avanço da semeadura da safra de verão. Em meados de setembro, produtores do Rio Grande do Sul relataram restrições e atrasos pontuais nas entregas de diesel. A ANP informou, naquele momento, que o fornecimento ocorria normalmente e que não havia identificado risco de desabastecimento no estado. A Reuters também apontou que uma falta do produto era improvável, apesar do mercado mais apertado.
Uma eventual alta mais forte do preço do diesel teria dois efeitos sobre o setor. O primeiro seria pelo aumento dos custos nas fazendas. O segundo ocorreria na logística, com pressão sobre o custo de transporte de insumos até as fazendas e sobre o escoamento da produção.
O impacto tende a ser maior em cadeias que percorrem grandes distâncias entre as regiões produtoras, unidades de processamento, portos e centros consumidores. A relação entre diesel e frete é institucionalmente reconhecida: a metodologia dos pisos mínimos do transporte rodoviário de cargas utiliza o preço do diesel S10 como um dos parâmetros para atualização dos coeficientes de frete.
Dessa forma, um aumento persistente do combustível pode reduzir margens ao elevar simultaneamente os custos operacionais e logísticos. Dependendo da capacidade de repasse ao longo da cadeia, parte desse aumento ficará com os produtores, transportadores ou demais agentes.
No curto prazo, três fatores deverão determinar a direção do mercado brasileiro: a disponibilidade global de diesel, diante das restrições russas e da guerra no Oriente Médio; a política norte-americana de exportação; e a capacidade do Brasil de manter economicamente viáveis as importações enquanto os preços domésticos permanecem abaixo das referências internacionais.
A manutenção da subvenção de R$2,12 por litro reduz parte da pressão imediata, mas o benefício termina em 30 dias. Por isso, a evolução do mercado internacional e uma eventual decisão sobre a continuidade da medida formará o preço doméstico.
O risco para o Brasil não está apenas na possibilidade de uma diminuição das exportações norte-americanas. A combinação entre menor oferta mundial, preços internacionais elevados, concentração das importações brasileiras nos Estados Unidos e baixa expansão da produção doméstica torna o abastecimento brasileiro exposto às alterações no mercado internacional.
Para o agronegócio, o acompanhamento desse cenário é especialmente importante durante o plantio (momento que estamos) e, posteriormente, no escoamento da produção. Mesmo sem um cenário de desabastecimento, a manutenção dos preços internacionais em níveis elevados pode pressionar custos de produção e frete, afetando as margens das atividades agropecuárias e o custo de comercialização da produção.
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