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Carta Grãos e Agricultura - Sorgo como alternativa ao risco do El Niño

Com até 98,0% de chance de um evento climático muito forte na primavera, a soja pode atrasar e empurrar a safrinha para datas em que a janela de semeadura do milho estará fechando e a do sorgo segue aberta, com risco menor.


Foto: Scot Consultoria

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No fim de agosto, apontamos o El Niño como um fator de atenção ao mercado do milho (veja aqui). A atualização de setembro da NOAA, agência de clima dos Estados Unidos, reforçou o alerta: a chance de um evento muito forte, com as águas do Pacífico Equatorial 2,0 °C ou mais acima da média, é de 97,0% para setembro a novembro e de 98,0% para outubro a dezembro, justamente o período de semeadura da soja (figura 1).

Figura 1.
Probabilidade de intensidade do El Niño por trimestre, segundo a NOAA (previsão de setembro de 2026).

Intensidade medida pela anomalia relativa da temperatura do mar na região do Niño 3.4 (índice RONI).
Fonte: NOAA/CPC / Elaborado por Scot Consultoria

O fenômeno deve perder força a partir do verão, mas estará presente durante a semeadura da segunda safra: a chance de El Niño, em qualquer intensidade, ainda é de 97,0% para fevereiro a abril. A neutralidade só passa a ser o cenário provável entre abril e junho de 2027.

Em anos de El Niño forte, o padrão costuma ser de chuvas acima da média no Sul e abaixo dela no Norte e no Nordeste, além de irregularidade no Centro-Oeste, com atraso no início da estação chuvosa e calor acima do normal. Foi o que se viu em 2023/24, no último evento forte, quando a falta de chuvas regulares atrasou a semeadura da soja e obrigou ressemeaduras em Mato Grosso. E soja semeada mais tarde é colhida mais tarde, o que empurra a safrinha para o fim da janela.

Quanto de janela sobra? Quem responde é o Zoneamento Agrícola de Risco Climático (ZARC), do MAPA, que indica até quando cada cultura pode ser semeada em cada município. Semear fora dessa janela, além de arriscado, pode trazer problemas com seguro e financiamento. No ZARC 2026/27, de forma nacional, a janela do milho safrinha fecha, em média, por volta de 3/mar; a do sorgo, perto de 26/mar, três semanas depois (figura 2).

Figura 2.
Janela de semeadura e risco climático do milho e do sorgo de segunda safra, por estado (ZARC 2026/27).

Fonte: MAPA / Elaborado por Scot Consultoria

Além de mais longa, a janela do sorgo é mais segura. No início de março, 56,8% da área de safrinha já está fora da janela do milho; no sorgo, só 14,2%, e a maior parte ainda na faixa de menor risco.

Goiás e Minas Gerais são os casos mais críticos: a janela do milho fecha ainda em fevereiro, e a do sorgo, só em meados de março. Em Mato Grosso, maior produtor de milho safrinha, o sorgo ganha duas semanas; em Mato Grosso do Sul, São Paulo e Paraná, cerca de um mês ou mais.

Segundo a Conab, a área com sorgo passou de 864,6 mil hectares em 2020/21 para 2.169,0 mil hectares em 2025/26, recorde da série: 2,5 vezes em cinco safras, enquanto a de milho segunda safra cresceu 18,8% no período (figura 3). Só no último ciclo, foram 537,0 mil hectares a mais (+32,9%), acréscimo maior que o do milho segunda safra (+394,6 mil hectares), e a produção chegou a 7,3 milhões de toneladas (+20,4%). Goiás respondeu por 44,0% desse avanço: lá, a área com sorgo cresceu 59,9%, enquanto a de milho safrinha caiu 3,8%.

Figura 3.
Área semeada com sorgo no Brasil, em mil hectares.

*Estimativa de setembro de 2026.
Fonte: Conab / Elaborado por Scot Consultoria

Goiás foi um estado que sofreu com a janela de semeadura do milho segunda safra esse ano, e a resposta foi justamente migrar para o sorgo.

O último El Niño forte já havia dado uma amostra: em 2023/24, a área de sorgo em Mato Grosso saltou 45,3%, enquanto a de milho safrinha no estado recuou 5,2%.

Além da janela mais longa, o sorgo exige investimento menor na implantação e tolera melhor a falta de chuva, atributos que pesam em um ano de clima irregular. A demanda acompanha: o grão ganha espaço na nutrição animal e nas usinas de etanol de cereais, que podem substituir parte do milho pelo sorgo.

Por isso, esperamos novo avanço da área com sorgo em 2026/27, sobretudo se a semeadura da soja atrasar no Centro-Oeste.

Com um El Niño muito forte no horizonte, o sorgo tende a ser a opção mais segura para fechar a segunda safra.

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