Onde está a ordenha robotizada no país, quanto ela produz e em quanto tempo o investimento é pago.
Foto: Bela Magrela
O sistema automático de ordenha (AMS, na sigla em inglês), conhecido como ordenha robotizada, é o estágio avançado de automação da sala de ordenha.
Diferentemente da ordenha mecanizada convencional, em que o funcionário conduz as vacas, higieniza os tetos e acopla as teteiras, o sistema robotizado executa essas etapas sozinho, da identificação da vaca à retirada do leite, e ainda monitora a qualidade e registra os dados de cada animal.
No mundo, o uso se concentra em países de tradição leiteira que enfrentam escassez de mão de obra, como Suécia, Islândia, Países Baixos, Dinamarca, Bélgica e Noruega.
Em agosto de 2026, um estudo de pesquisadores da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) e da Universidade Federal do Paraná (UFPR) reuniu 17,6 mil registros semanais de 487 unidades de rebanho, em oito estados, com dados cedidos pelas fabricantes DeLaval e Lely.
As duas empresas respondem por 90,0% dos equipamentos no país, estimados em 540 unidades, ante aproximadamente 50 mil no mundo. As demais fabricantes não aceitaram participar do estudo.
A região Sul concentra 93,6% das unidades da amostra, com o Rio Grande do Sul à frente.
Tabela 1.
Distribuição das unidades de ordenha automática no Brasil, por estado.
| Estado | Participação |
|---|---|
| Rio Grande do Sul | 43,9% |
| Santa Catarina | 29,0% |
| Paraná | 20,7% |
| Minas Gerais | 3,1% |
| Goiás | 1,4% |
| São Paulo | 1,0% |
| Bahia | 0,6% |
| Mato Grosso do Sul | 0,2% |
Fonte: Haponiuk Prus et al. (2026) | Elaboração: Scot Consultoria
A distribuição acompanha a escassez de mão de obra. Predomina a propriedade familiar de porte médio, com alta produção por animal, sucessão rural ameaçada e dificuldade persistente para contratar ordenhadores.
Os indicadores do estudo são medianas. A unidade mediana operou com dois equipamentos e 55,5 vacas em lactação por robô, produzindo cerca de 2,0 mil litros por equipamento ao dia e 2,7 mil litros no total.
A produção mediana foi de 36,0 litros por vaca ao dia, resultado de 12,9 litros por ordenha e 2,8 ordenhas por vaca ao dia.
Por estado, o Paraná liderou, com 37,0 litros por vaca ao dia, seguido do Rio Grande do Sul, com 36,8, e de Santa Catarina, com 34,3. Nos demais estados, em conjunto, o indicador ficou em 30,0 litros.
Tabela 2.
Indicadores da ordenha robotizada nas 487 unidades de rebanho analisadas.
| Variável | Mínimo | Mediana | Máximo |
|---|---|---|---|
| Número de unidades de AMS | 1,0 | 2,0 | 10,0 |
| Número de vacas em lactação ordenhadas pelo AMS | 17,0 | 81,0 | 535,5 |
| Número de vacas em lactação por unidade de AMS | 17,0 | 55,5 | 77,0 |
| Produção total de leite, l/dia | 270,3 | 2.691,9 | 24.099,8 |
| Produção de leite por unidade de AMS, l/dia | 270,3 | 1.977,7 | 3.023,5 |
| Produção de leite por vaca em lactação, l/dia | 13,6 | 36,0 | 53,6 |
| Produção de leite por ordenha, l | 5,9 | 12,9 | 17,8 |
| Frequência de ordenha, ordenhas/vaca/dia | 1,6 | 2,8 | 3,7 |
Fonte: Haponiuk Prus et al. (2026), adaptado | Elaboração: Scot Consultoria.
O estudo separou as 487 unidades em quatro perfis.
Perfil A: sistemas de menor escala, com o menor desempenho relativo e produção de 32,1 litros por vaca ao dia.
Perfil B: opera um único robô com o maior número de vacas por equipamento, 61,0, e produz 2,2 mil litros por unidade ao dia.
Perfil C: tem a maior frequência de ordenha, 3,1 vezes ao dia, e a menor produção por equipamento, 1,7 mil litros diários, com 47,3 vacas por robô.
Perfil D: concentra os sistemas de maior escala, com duas a três unidades, e tem a melhor produção individual: 38,9 litros por vaca ao dia.
O contraste entre os perfis B e C mostra que o grupo que mais ordenha, 3,1 vezes ao dia, produz menos por equipamento do que o que menos ordenha, 2,7 vezes. A diferença está na ocupação: 47,3 contra 61,0 vacas em lactação por robô. Ou seja, a capacidade do equipamento não está sendo plenamente explorada.
Todos esses indicadores são gerados e armazenados pelo próprio equipamento, o que ajuda o produtor a identificar gargalos e a decidir, por exemplo, se aumenta o rebanho ou o número de robôs.
Vale destacar, porém, que a instalação do AMS não aumenta, por si só, a produtividade da propriedade. Fatores que o equipamento não mede, como nutrição, bem-estar, genética e manejo, precisam ser avaliados em conjunto para uma leitura completa do sistema.
Essa visão integrada também fez parte da expedição Ordenha Brasil 2026, realizada pela Scot Consultoria, que teve como objetivo mapear, registrar e conectar eficiência produtiva, gestão e inovação nas maiores fazendas leiteiras do país.
A equipe de pesquisadores visitou 26 propriedades leiteiras de referência em Goiás, Minas Gerais e no Paraná, analisando indicadores essenciais, como manejo, gestão, indicadores zootécnicos, infraestrutura, nutrição, qualidade do leite, mão de obra, custos, investimentos e, principalmente, as pessoas envolvidas na produção.
Para avaliar se o investimento se justifica, o produtor precisa orçar o projeto completo, que varia conforme as adaptações exigidas em cada propriedade. A título de ilustração, o investimento inicial no equipamento fica em torno de R$1,5 milhão por robô, sem considerar obras e instalação.
Com esse valor como referência e os preços do leite levantados na expedição Ordenha Brasil 2026, é possível estimar o payback simplificado de um sistema hipotético.
Tabela 3.
Preço do leite pago ao produtor, por estado, e o payback do sistema*.
| Indicador | GO | MG | PR | Média |
|---|---|---|---|---|
| Preço médio recebido (R$/L) | 2,84 | 2,97 | 2,69 | 2,83 |
| Payback (anos) | 10,7 | 10,2 | 11,3 | 10,7 |
*Investimento teórico de R$3,0 milhões (dois robôs), produção de 985,5 mil litros por ano (2,7 mil litros/dia) e margem de 10,0% sobre a receita do leite. Não inclui custos de operação e manutenção do equipamento, obras, financiamento e depreciação.
Fonte: Scot Consultoria
Uma produção de 2,7 mil litros por dia totaliza 985,5 mil litros por ano. Com margem de 10,0% sobre a receita e o preço pago ao produtor na média de R$2,83/l, um sistema de dois robôs, de R$3,0 milhões, se pagaria em 10,7 anos.
O prazo é sensível à ocupação dos equipamentos: se os dois robôs operarem na mediana do estudo, 2,0 mil litros por unidade ao dia, a produção anual sobe para 1,4 milhão de litros e o retorno cai para cerca de 7,3 anos.
O sistema automático de ordenha traz conforto à vaca, padronização do processo e ganho de produtividade. Para que isso vire resultado, porém, gestão e manejo precisam acompanhar a tecnologia. O maior trunfo do robô talvez esteja na coleta contínua de índices zootécnicos: bem interpretados, eles fazem diferença no rumo da produção.
Referências
HAPONIUK PRUS, I. N.; OSTRENSKY, A.; DE ALMEIDA, R.; SOTOMAIOR, C. S. Characterization of structural profiles and performance of dairy farms with automatic milking systems in Brazil: a national overview. Frontiers in Animal Science, v. 7, art. 1880571, ago. 2026. Disponível em: https://www.frontiersin.org/journals/animal-science/articles/10.3389/fanim.2026.1880571/full
EMBRAPA GADO DE LEITE. Sistemas automatizados de ordenha no Brasil: panorama e percepções. Juiz de Fora, 2024. Disponível em: https://www.alice.cnptia.embrapa.br/alice/bitstream/doc/1169515/1/Sistemas-automatizados-de-ordenha-no-Brasil.pdf
PECUÁ. Ordenha Automática vs. Convencional: Custo-Benefício no Gado de Leite. Disponível em: https://pecua.com.br/blog/ordenha-automatica-custo-beneficio-gado-leite
ZANIN, A. et al. Estudo de viabilidade financeira e inovação na ordenha robótica. Research, Society and Development. Disponível em: https://rsdjournal.org/rsd/article/view/35129/29717
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