Captação ainda abaixo dos patamares do início do ano mantém preços sustentados, mas viés de baixa ganha força.
Foto: Bela Magrela
Após um 2025 marcado por aumento da produção, pressão sobre as margens e queda na remuneração ao produtor, o mercado em 2026 mudou de rumo. A menor disponibilidade de leite no campo, reflexo da redução dos investimentos ao longo do último ano, ajudou na recuperação das cotações ao produtor (figura 1).
Figura 1.
Cotação do leite ao produtor - média ponderada nacional - em R$/litro, sem o frete, valores nominais.
Fonte: Scot Consultoria
Segundo o levantamento da Scot Consultoria, considerando a média nacional ponderada dos 18 estados pesquisados, o litro de leite ficou cotado em R$2,527 no pagamento realizado em agosto, referente à produção entregue em julho, com alta de 2,2% em relação ao pagamento anterior, equivalente a R$0,06/litro. Desde o início do ano, a cotação subiu 22,3%.
A recuperação ocorre em um ambiente de oferta ajustada. No primeiro semestre de 2026, a oferta esteve acima dos níveis observados em 2025 (IBGE), mas em ritmo mais moderado.
A captação formal no primeiro trimestre foi de 6,78 bilhões de litros, aumento de 2,6% na comparação feita ano a ano, o maior volume registrado para o período.
No segundo trimestre, a captação foi de 6,61 bilhões de litros, crescimento de 1,0% frente ao mesmo período de 2025, também configurando o maior volume da série histórica para um segundo trimestre. Apesar disso, houve redução de 2,5% em relação ao primeiro trimestre, desempenho associado à sazonalidade da produção e ao início da entressafra em algumas regiões.
Esse comportamento indica uma desaceleração da expansão da oferta ao longo do ano, o que contribui para manter os estoques ajustados e limita a disponibilidade de matéria-prima para a indústria.
Do outro lado, houve redução nos preços negociados no spot (leite comercializado entre as indústrias), o que reforça a possibilidade de pressão sobre a matéria-prima nos próximos pagamentos ao produtor, especialmente diante de uma demanda doméstica ainda limitada.
Em agosto, os preços no mercado spot caíram. Considerando a média dos estados de São Paulo, Minas Gerais, Goiás, Paraná e Rio Grande do Sul, o leite comercializado entre indústrias na segunda quinzena do mês caiu 4,5%, ou R$0,14 por litro, frente a igual período do mês anterior, com a referência em R$3,06/litro.
Outro ponto de atenção são as importações. No caso do leite em pó, foram importadas 120,1 mil toneladas nos sete primeiros meses de 2026, volume 15,2% maior que no mesmo período de 2025.
A importação foi favorecida pela disponibilidade de leite no Mercosul e pelas condições cambiais, mantendo a competitividade dos produtos importados frente aos nacionais.
No curto prazo, a expectativa é de manutenção das importações em níveis relevantes, limitando uma recuperação das cotações domésticas.
Do lado dos custos, o cenário exige cautela. O Índice Scot Consultoria de Custos de Produção da Pecuária Leiteira subiu 2,0% em agosto, com a alimentação permanecendo como o principal fator de pressão.
A cotação do milho, principal fonte energética da dieta, subiu no período, e fertilizantes também contribuíram para o aumento dos custos.
Na comparação feita ano a ano, o índice de custo de produção está 7,4% maior. Embora a recuperação da remuneração ao produtor tenha superado o aumento dos custos no último pagamento, melhorando a margem em 0,2 ponto percentual na comparação mensal, a margem ainda está 4,5 pontos percentuais abaixo da observada no mesmo período do ano anterior.
Entre os insumos, o comportamento da cotação do grãos será determinante nos próximos meses. A produção brasileira de milho foi revisada para cima pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), com expectativa de 143,0 milhões de toneladas na safra 2025/26, além de estoques finais estimados em 15,6 milhões de toneladas, os maiores dos últimos cinco anos.
Apesar da maior disponibilidade, a sazonalidade de entressafra e uma demanda firme podem limitar quedas expressivas nas cotações.
Além dos fatores de mercado, o clima também preocupa para a atividade leiteira em 2026. A consolidação do El Niño aumenta o risco de alterações no padrão de chuvas durante o segundo semestre e início de 2027, podendo afetar a disponibilidade e a qualidade das pastagens em determinadas regiões.
Em regiões onde a oferta de forragem já está limitada, a menor disponibilidade de pasto pode elevar a dependência de suplementação, aumentando os custos e pressionando a margem do produtor.
Além do impacto direto sobre a produção de leite, eventuais irregularidades climáticas também podem influenciar o mercado de grãos, principalmente caso afetem a janela de semeadura e o desenvolvimento das próximas safras, trazendo reflexos sobre os custos de alimentação animal.
Para os próximos meses, a combinação entre a recuperação sazonal da oferta, as importações ainda elevadas, os custos de produção com potencial de alta e uma demanda doméstica limitada tende a reduzir o espaço para valorizações.
Segundo levantamento da Scot Consultoria, para o pagamento de setembro, referente à produção entregue em agosto, 71,1% dos laticínios consultados apontam estabilidade, enquanto 20,1% esperam queda e 8,9% acreditam em continuidade do movimento de alta.
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