• Segunda-feira, 18 de maio de 2026
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Carta Boi - Mercado futuro: pessimista ou realista?

Do início de abril à primeira quinzena de maio, o contrato futuro do boi gordo para julho, momento em que a China deverá estar fora das compras em função da salvaguarda, caiu 2,8%, ou R$9,75/@.


Foto: Bela Magrela

Foto: Bela Magrela

A primeira quinzena de maio, no mercado físico, foi marcada apela queda da cotação da arroba do boi gordo – movimento “sazonal” no ano para a commodity, que vê a oferta aumentar (figura 1), e, em 2026, com um adicional das preocupações do mercado com relação à exportação à China e à possível suspensão da exportação para a União Europeia a partir de setembro.

Além disso, a cotação média da arroba do boi gordo em abril foi recorde em algumas praças e quedas após um pico de preços não são anomalias.

Na B3, os contratos futuros para os próximos meses (junho – julho – agosto) estão sendo negociados abaixo da referência vigente no mercado físico e, para o contrato de agosto no fechamento em 14 de maio, a diferença em relação preço médio da Scot Consultoria para maio foi  de R$7,86/@, retração de 2,3%. Para o indicador da B3, a  queda foi de R$3,72/@, variação de -1,7%.

Mas, será que o mercado futuro está exagerando na dose?

Analisamos a variação de preços nominal e real entre agosto e maio de 1996 a 2025. Detalhamos na tabela 1 as variações, ano-a-ano.

Tabela 1.
Preço real e nominal da arroba do boi gordo, em São Paulo, e a variação entre agosto e maio em cada ano.

  Real Nominal
Ano maio (A) agosto (B) variação (B/A) maio (C) agosto (D) variação (D/C)
1996 188,64 210,25 11,5% 20,85 23,78 14,1%
1997 210,45 217,69 3,4% 25,16 26,22 4,2%
1998 209,59 220,51 5,2% 26,18 27,47 4,9%
1999 216,26 228,49 5,7% 29,15 32,06 10,0%
2000 234,44 253,13 8,0% 36,09 40,94 13,5%
2001 237,77 236,95 -0,3% 40,59 42,08 3,7%
2002 224,23 245,57 9,5% 41,88 48,74 16,4%
2003 215,02 236,66 10,1% 52,22 57,32 9,8%
2004 227,00 224,94 -0,9% 59,53 61,22 2,8%
2005 189,11 181,38 -4,1% 53,74 50,70 -5,7%
2006 172,39 192,80 11,8% 48,92 55,39 13,2%
2007 184,73 210,21 13,8% 54,71 63,53 16,1%
2008 237,99 264,50 11,1% 79,04 90,16 14,1%
2009 228,22 228,45 0,1% 78,06 77,46 -0,8%
2010 223,40 240,06 7,5% 79,76 87,14 9,2%
2011 255,87 258,14 0,9% 99,70 101,02 1,3%
2012 232,25 218,49 -5,9% 94,84 92,38 -2,6%
2013 229,05 233,36 1,9% 99,33 102,59 3,3%
2014 263,15 269,38 2,4% 122,40 123,90 1,2%
2015 305,50 287,07 -6,0% 148,98 142,33 -4,5%
2016 285,00 278,20 -2,4% 154,64 153,48 -0,7%
2017 252,77 248,92 -1,5% 138,61 135,11 -2,5%
2018 243,92 245,02 0,5% 140,71 145,04 3,1%
2019 253,09 251,99 -0,4% 156,11 155,61 -0,3%
2020 292,49 317,77 8,6% 192,70 226,12 17,3%
2021 336,93 340,43 1,0% 303,07 310,57 2,5%
2022 306,43 296,53 -3,2% 304,73 293,98 -3,5%
2023 269,77 230,40 -14,6% 253,55 212,63 -16,1%
2024 235,86 237,68 0,8% 223,64 228,64 2,2%
2025 303,48 320,86 5,7% 305,79 302,55 -1,1%

Fonte: Scot Consultoria

Em 20 anos, a cotação em agosto foi maior que a de maio. Em 10 anos, a cotação em agosto foi menor.

O detalhe relevante é que seis, dessas dez oportunidades, aconteceram após 2015, ou seja, o comportamento recente tem indicado pressão de baixa para o período.

A maior variação entre os meses foi em 2023 – não precisamos nos lembrar daquele ano, onde, em setembro, a cotação da arroba do boi gordo foi a menor em mais de 15 anos.

Descartando o comportamento incomum à época, a variação negativa de agosto, em relação a maio foi de 2,7%, considerando as variações positivas no período, 3,3%. Olhando para o que o mercado futuro está projetando, a curva está “ok”.

Tabela 2.
Gráfico de dispersão da variação real da cotação da arroba do boi gordo de agosto, em relação a maio, entre 1996 e 2026.
Fonte: Scot Consultoria

Por que isso importa?

Dois pontos importam.

O primeiro é quanto e até onde o mercado pode chegar. O futuro nem sempre repete o passado, mas rima.

De 2015 para cá, à exceção dos picos em 2020,2023, e de 2025, a cotação média em agosto em relação a maio ficou, na maioria das vezes, dentro da faixa de 3,0%, seja para cima, ou para baixo.

Isso, somado à avaliação dos fundamentos vigentes, reflete em estratégia para as operações – principalmente, para o confinamento.

Um dos fundamentos é que neste ano a oferta de gado deverá ser menor - e está sendo (até o primeiro quadrimestre, segundo dados do Sistema de Inspeção Federal, o abate caiu 7,6%) - Ou seja, do lado da oferta, o mercado deve sofrer menor pressão.

Do lado da demanda, há alguns pontos de atenção, como a cota chinesa e impactos na exportação a partir de julho e à suspensão anunciada pela União Europeia a vigorar a partir de setembro. Mas, de modo geral, o mundo está com a oferta de carne menor e passa por um momento de preços globalmente elevados, o que tende a manter o quadro exportador, se não ótimo, bom.

No mercado interno, podemos esperar melhora da demanda a partir de agosto – a carga tributária diminui, empregos temporários devem aumentar e os indicadores macroeconômicos atuais, estão interessantes – desconsiderando o nível de endividamento alto das famílias –, isso, somado ao período pré-eleitoral e a renda extra que ele deverá trazer.

Onde queremos chegar com tudo isso?

O mercado futuro é uma ferramenta para gestão de risco e otimização dos resultados. Maio e junho são meses importantes para o confinador, principalmente para o primeiro giro.

Considerando 100 dias de terminação, a boiada fechada nestes meses, sairá entre agosto e setembro.

Ele serve para garantir margem e dar tranquilidade. A arroba projetada na B3 para agosto, no preço atual (R$340,85), com o preço do boi magro de 12,5@ em R$4.750,00 e o custo da diária estimado em R$18,50 para São Paulo, o retorno é positivo em  R$190,44/cabeça.

Considerando o histórico do comportamento da cotação da arroba para agosto e o movimento esperado pela B3, dentro da “faixa normal”, garantir esse preço mínimo, neste momento, é uma estratégia interessante. Se o mercado físico mudar  o rumo, diante de um ano menos ofertado e subir, que seja os 3,0% dentro da faixa “habitual”, a margem passa a R$397,46/@.

Em suma, neste momento, o recuo no mercado futuro aparenta muito mais uma oportunidade de garantia de preços mínimos e em linha com o comportamento histórico, do que uma aberração em um mercado cada dia mais volátil.

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