Do início de abril à primeira quinzena de maio, o contrato futuro do boi gordo para julho, momento em que a China deverá estar fora das compras em função da salvaguarda, caiu 2,8%, ou R$9,75/@.
Foto: Bela Magrela
A primeira quinzena de maio, no mercado físico, foi marcada apela queda da cotação da arroba do boi gordo – movimento “sazonal” no ano para a commodity, que vê a oferta aumentar (figura 1), e, em 2026, com um adicional das preocupações do mercado com relação à exportação à China e à possível suspensão da exportação para a União Europeia a partir de setembro.
Além disso, a cotação média da arroba do boi gordo em abril foi recorde em algumas praças e quedas após um pico de preços não são anomalias.
Na B3, os contratos futuros para os próximos meses (junho – julho – agosto) estão sendo negociados abaixo da referência vigente no mercado físico e, para o contrato de agosto no fechamento em 14 de maio, a diferença em relação preço médio da Scot Consultoria para maio foi de R$7,86/@, retração de 2,3%. Para o indicador da B3, a queda foi de R$3,72/@, variação de -1,7%.
Analisamos a variação de preços nominal e real entre agosto e maio de 1996 a 2025. Detalhamos na tabela 1 as variações, ano-a-ano.
Tabela 1.
Preço real e nominal da arroba do boi gordo, em São Paulo, e a variação entre agosto e maio em cada ano.
| Real | Nominal | |||||
|---|---|---|---|---|---|---|
| Ano | maio (A) | agosto (B) | variação (B/A) | maio (C) | agosto (D) | variação (D/C) |
| 1996 | 188,64 | 210,25 | 11,5% | 20,85 | 23,78 | 14,1% |
| 1997 | 210,45 | 217,69 | 3,4% | 25,16 | 26,22 | 4,2% |
| 1998 | 209,59 | 220,51 | 5,2% | 26,18 | 27,47 | 4,9% |
| 1999 | 216,26 | 228,49 | 5,7% | 29,15 | 32,06 | 10,0% |
| 2000 | 234,44 | 253,13 | 8,0% | 36,09 | 40,94 | 13,5% |
| 2001 | 237,77 | 236,95 | -0,3% | 40,59 | 42,08 | 3,7% |
| 2002 | 224,23 | 245,57 | 9,5% | 41,88 | 48,74 | 16,4% |
| 2003 | 215,02 | 236,66 | 10,1% | 52,22 | 57,32 | 9,8% |
| 2004 | 227,00 | 224,94 | -0,9% | 59,53 | 61,22 | 2,8% |
| 2005 | 189,11 | 181,38 | -4,1% | 53,74 | 50,70 | -5,7% |
| 2006 | 172,39 | 192,80 | 11,8% | 48,92 | 55,39 | 13,2% |
| 2007 | 184,73 | 210,21 | 13,8% | 54,71 | 63,53 | 16,1% |
| 2008 | 237,99 | 264,50 | 11,1% | 79,04 | 90,16 | 14,1% |
| 2009 | 228,22 | 228,45 | 0,1% | 78,06 | 77,46 | -0,8% |
| 2010 | 223,40 | 240,06 | 7,5% | 79,76 | 87,14 | 9,2% |
| 2011 | 255,87 | 258,14 | 0,9% | 99,70 | 101,02 | 1,3% |
| 2012 | 232,25 | 218,49 | -5,9% | 94,84 | 92,38 | -2,6% |
| 2013 | 229,05 | 233,36 | 1,9% | 99,33 | 102,59 | 3,3% |
| 2014 | 263,15 | 269,38 | 2,4% | 122,40 | 123,90 | 1,2% |
| 2015 | 305,50 | 287,07 | -6,0% | 148,98 | 142,33 | -4,5% |
| 2016 | 285,00 | 278,20 | -2,4% | 154,64 | 153,48 | -0,7% |
| 2017 | 252,77 | 248,92 | -1,5% | 138,61 | 135,11 | -2,5% |
| 2018 | 243,92 | 245,02 | 0,5% | 140,71 | 145,04 | 3,1% |
| 2019 | 253,09 | 251,99 | -0,4% | 156,11 | 155,61 | -0,3% |
| 2020 | 292,49 | 317,77 | 8,6% | 192,70 | 226,12 | 17,3% |
| 2021 | 336,93 | 340,43 | 1,0% | 303,07 | 310,57 | 2,5% |
| 2022 | 306,43 | 296,53 | -3,2% | 304,73 | 293,98 | -3,5% |
| 2023 | 269,77 | 230,40 | -14,6% | 253,55 | 212,63 | -16,1% |
| 2024 | 235,86 | 237,68 | 0,8% | 223,64 | 228,64 | 2,2% |
| 2025 | 303,48 | 320,86 | 5,7% | 305,79 | 302,55 | -1,1% |
Fonte: Scot Consultoria
Em 20 anos, a cotação em agosto foi maior que a de maio. Em 10 anos, a cotação em agosto foi menor.
O detalhe relevante é que seis, dessas dez oportunidades, aconteceram após 2015, ou seja, o comportamento recente tem indicado pressão de baixa para o período.
A maior variação entre os meses foi em 2023 – não precisamos nos lembrar daquele ano, onde, em setembro, a cotação da arroba do boi gordo foi a menor em mais de 15 anos.
Descartando o comportamento incomum à época, a variação negativa de agosto, em relação a maio foi de 2,7%, considerando as variações positivas no período, 3,3%. Olhando para o que o mercado futuro está projetando, a curva está “ok”.
Tabela 2.
Gráfico de dispersão da variação real da cotação da arroba do boi gordo de agosto, em relação a maio, entre 1996 e 2026.
Fonte: Scot Consultoria
Dois pontos importam.
O primeiro é quanto e até onde o mercado pode chegar. O futuro nem sempre repete o passado, mas rima.
De 2015 para cá, à exceção dos picos em 2020,2023, e de 2025, a cotação média em agosto em relação a maio ficou, na maioria das vezes, dentro da faixa de 3,0%, seja para cima, ou para baixo.
Isso, somado à avaliação dos fundamentos vigentes, reflete em estratégia para as operações – principalmente, para o confinamento.
Um dos fundamentos é que neste ano a oferta de gado deverá ser menor - e está sendo (até o primeiro quadrimestre, segundo dados do Sistema de Inspeção Federal, o abate caiu 7,6%) - Ou seja, do lado da oferta, o mercado deve sofrer menor pressão.
Do lado da demanda, há alguns pontos de atenção, como a cota chinesa e impactos na exportação a partir de julho e à suspensão anunciada pela União Europeia a vigorar a partir de setembro. Mas, de modo geral, o mundo está com a oferta de carne menor e passa por um momento de preços globalmente elevados, o que tende a manter o quadro exportador, se não ótimo, bom.
No mercado interno, podemos esperar melhora da demanda a partir de agosto – a carga tributária diminui, empregos temporários devem aumentar e os indicadores macroeconômicos atuais, estão interessantes – desconsiderando o nível de endividamento alto das famílias –, isso, somado ao período pré-eleitoral e a renda extra que ele deverá trazer.
O mercado futuro é uma ferramenta para gestão de risco e otimização dos resultados. Maio e junho são meses importantes para o confinador, principalmente para o primeiro giro.
Considerando 100 dias de terminação, a boiada fechada nestes meses, sairá entre agosto e setembro.
Ele serve para garantir margem e dar tranquilidade. A arroba projetada na B3 para agosto, no preço atual (R$340,85), com o preço do boi magro de 12,5@ em R$4.750,00 e o custo da diária estimado em R$18,50 para São Paulo, o retorno é positivo em R$190,44/cabeça.
Considerando o histórico do comportamento da cotação da arroba para agosto e o movimento esperado pela B3, dentro da “faixa normal”, garantir esse preço mínimo, neste momento, é uma estratégia interessante. Se o mercado físico mudar o rumo, diante de um ano menos ofertado e subir, que seja os 3,0% dentro da faixa “habitual”, a margem passa a R$397,46/@.
Em suma, neste momento, o recuo no mercado futuro aparenta muito mais uma oportunidade de garantia de preços mínimos e em linha com o comportamento histórico, do que uma aberração em um mercado cada dia mais volátil.
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