Início do primeiro giro de confinamento tem dúvidas quanto à saída de boiadas e a certeza de margens potencialmente menores.
Foto: Bela Magrela
Originalmente publicado no Broadcast Agro.
Março e abril marcam na pecuária de corte brasileira o início do primeiro giro do confinamento de bovinos (figura 1).
Figura 1.
Distribuição dos meses de início do confinamento (1º e 2º giros) em 2025.
Fonte: Confina Brasil/ Elaborado por: Scot Consultoria
O início do outono e consequente pressão climática frente às pastagens nos meses subsequentes (entressafra do capim), e o início da “safra de bezerros” no Brasil Central tornam o confinamento uma estratégia interessante para o período.
Em 2025, o benchmarking do Confina Brasil-Scot Consultoria estimou o tamanho do confinamento de bovinos em 8,3 milhões de cabeças exclusivamente para a engorda - crescimento de 11,9% em relação à 2024 cuja quantidade confinada fora de 7,4 milhões de cabeças.
Os confinadores visitados pela expedição estimam manter ou aumentar (87,5%) o rebanho de bovinos confinados em 2026.
À época, algumas coisas estavam diferentes no mercado do boi gordo e vale a atenção: salvaguarda chinesa, guerra no Oriente Médio, aumento do preço da alimentação e da reposição.
Em média, para a terminação de um bovino são 107 dias de confinamento (Confina Brasil-Scot Consultoria).
Considerando a entrada dos bovinos no primeiro giro de março a junho, o abate acontecerá entre junho e setembro.
A exportação é importante para o confinamento. O padrão de acabamento, uniformidade de lote e peso, fazem com que a produção destinada ao mercado externo seja facilitada.
O setor desde o início do ano vive um desafio. A China, a partir de janeiro de 2026, adotou política de salvaguarda – com cotas e, ao excedente, tarifa adicional de 55,0%.
A cota destinada ao Brasil é de 1,1 milhão de toneladas, menor que as compras chinesas em 2025.
A China é o maior comprador de carne bovina do Brasil e a demanda cresce, justamente, a partir de junho e julho (figura 2).
A expectativa do comprador chinês de pagar mais pela carne bovina que tem sido, ano a ano, mais demandada pelo mercado local, pode mudar a sazonalidade de demanda e desacelerar o ritmo das compras, justamente quando há maior saída de boiadas.
Figura 2.
Exportação de carne bovina in natura para a China, média mensal (2020 – 2025), e volumes exportados em 2025 e em 2026*.
*para março, estimado.
Fonte: Secex / Elaboração: Scot Consultoria
Estima-se que, no ritmo atual, entre junho e julho o Brasil preencherá a cota.
A possibilidade de uma oferta de gado confinado em volume maior ao longo do ano, com destaque para o segundo semestre, e uma exportação menor, geram dúvidas sobre a manutenção dos preços ou maior firmeza, por ora, o mercado trabalha com este cenário indicando uma “curva invertida” entre o primeiro e o segundo semestre – veja na figura 3 – sinal amarelo para o confinador.
Figura 3.
Preço do boi gordo no mercado físico e no mercado futuro (B3, considerando a referência em 1/4/26), em R$/@.
Fonte: B3 / Scot Consultoria
O principal fator de suporte, acreditamos ser as vendas à China. Há pontos para considerar e ponderar que, são fundamentais nessa percepção.
A oferta mundial de carne bovina está menor e os preços subindo.
Um fornecedor como o Brasil que, mesmo na fase de alta, mantém bons volumes de produção e preços em dólares, competitivos, pode vir a alterar o diálogo e abrir oportunidades, com a China, quanto à política de salvaguarda, como com outros países que temos conversado, como Japão e Coreia do Sul.
O mercado doméstico, por sua vez, que é o principal destino da produção brasileira, com 70,0% da fatia do mercado e, no primeiro trimestre, tem sido uma grata surpresa.
A dúvida que fica: se o preenchimento da cota chinesa ocorrer em junho, o mercado interno pode absorver um eventual “excedente”? Enxergamos que sim.
Teremos, em junho, a Copa do Mundo de futebol. As confraternizações podem ser marcadas pelo churrasco e a cervejinha, empregos temporários devem ser gerados e a carga tributária do brasileiro, pós-IPVA, IPTU e outros, tende a ser menor, o que se soma a proximidade do período eleitoral no Brasil e, na sequência, a entrada do último trimestre – empregos temporários, décimos terceiros, bonificações.
É verdade que o conflito no Oriente Médio pode trazer pressão ao cenário, com destaque ao custo logístico, mas, por ora, enxergamos um mercado doméstico interessante.
Analisando o primeiro giro do confinamento e a entrada da boiada em abril, o resultado é positivo.
Os cálculos baseiam-se no preço da B3 para o contrato com vencimento em junho (referência de 31/3/2026), de R$351,05/@, o preço atual do boi magro com 12,5@ (R$4.871,52/cabeça), e o Índice de Custo Alimentar da Ponta (ICAP) em fevereiro de 2026 (R$15,41), acrescido do custo operacional.
O resultado pode ser melhor – ou pior – a depender do cenário. Simulações na figura 4 exibem o potencial de retorno em diferentes cenários de preços para o boi gordo e para aquisição do boi magro.
Figura 4.
Matriz do resultado estimado, considerando diferentes faixas de compra do boi magro (à esquerda) e diferentes preços de venda do boi gordo (acima), considerando o custo da diária constante.
| R$/@ | R$ 336,00 | R$ 341,00 | R$ 346,00 | R$ 351,05 | R$ 356,00 | R$ 361,00 | R$ 366,00 |
|---|---|---|---|---|---|---|---|
| R$ 365,00 | R$ 308,81 | R$ 410,47 | R$ 512,13 | R$ 614,80 | R$ 715,45 | R$ 817,10 | R$ 918,76 |
| R$ 370,00 | R$ 246,31 | R$ 347,97 | R$ 449,63 | R$ 552,30 | R$ 652,95 | R$ 754,60 | R$ 856,26 |
| R$ 375,00 | R$ 183,81 | R$ 285,47 | R$ 387,13 | R$ 489,80 | R$ 590,45 | R$ 692,10 | R$ 793,76 |
| R$ 380,00 | R$ 121,31 | R$ 222,97 | R$ 324,63 | R$ 427,30 | R$ 527,95 | R$ 629,60 | R$ 731,26 |
| R$ 385,00 | R$ 58,81 | R$ 160,47 | R$ 262,13 | R$ 364,80 | R$ 465,45 | R$ 567,10 | R$ 668,76 |
| R$ 390,00 | -R$ 3,69 | R$ 97,97 | R$ 199,63 | R$ 302,30 | R$ 402,95 | R$ 504,60 | R$ 606,26 |
| R$ 395,00 | -R$ 66,19 | R$ 35,47 | R$ 137,13 | R$ 239,80 | R$ 340,45 | R$ 442,10 | R$ 543,76 |
| R$ 400,00 | -R$ 128,69 | -R$ 27,03 | R$ 74,63 | R$ 177,30 | R$ 277,95 | R$ 379,60 | R$ 481,26 |
| R$ 405,00 | -R$ 191,19 | -R$ 89,53 | R$ 12,13 | R$ 114,80 | R$ 215,45 | R$ 317,10 | R$ 418,76 |
| R$ 410,00 | -R$ 253,69 | -R$ 152,03 | -R$ 50,37 | R$ 52,30 | R$ 152,95 | R$ 254,60 | R$ 356,26 |
| R$ 415,00 | -R$ 316,19 | -R$ 214,53 | -R$ 112,87 | -R$ 10,20 | R$ 90,45 | R$ 192,10 | R$ 293,76 |
Fonte: Scot Consultoria
Diante das dúvidas que pairam no mercado, garantir o resultado da operação do confinamento é essencial. E há ferramentas para isso. Mas, mais da metade dos confinadores ainda não usa ferramentas para amenizar risco.
Figura 4.
Porcentagem de confinamentos que aderem a ferramentas de proteção contra oscilações de preço do boi gordo e grãos, em 2024 e em 2025.
Fonte: Confina Brasil 2025, Scot Consultoria
Um seguro de preço mínimo, no preço atual, pode ser uma boa para garantir o sono em uma eventual baixa e desfrutar de resultados, ainda melhores, em um potencial alta de preços.
Em um ano onde há, mais incertezas, do que certezas, garantir o resultado e preservar margens será, essencial.
<< Notícia AnteriorReceba nossos relatórios diários e gratuitos