• Quarta-feira, 21 de janeiro de 2026
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Carta Insumos - Quando o insumo é gente

Em sistemas intensivos, como em confinamentos de bovinos, a eficiência depende de gente, da nutrição, da sanidade e do manejo.


Foto: Bela Magrela

Foto: Bela Magrela

Quando pensamos em ameaças aos bovinos, vem na cabeça as picadas de cobras, ataques de onças ou o desenvolvimento de doenças. Pouco se pensa que a mão de obra também pode ser uma ameaça.

Não que um trabalhador queira de vontade própria causar dano, mas pode prejudicar o desempenho em função dos efeitos operacionais da escassez, rotatividade e falta de qualificação. 

E isso foi apurado no Confina Brasil, pesquisa organizada pela Scot Consultoria. A taxa média de mortalidade foi de 0,5% nos confinamentos visitados. Na prática, a cada 200 bovinos que entram no confinamento, 1 morre. Dentro desses 0,5%, entram as diferentes causas de morte e, as doenças compuseram uma fatia importante dessa participação. 

A falta de pessoal qualificado dificulta a identificação precoce de bovinos doentes, atrasando tratamentos e elevando a taxa de mortalidade. 

As doenças foram responsáveis por 48,5% das citações de causas de morte de bovinos em confinamentos. 

O manejo inadequado e transporte deficiente podem levar a mortes por acidentes e fraturas, o que eleva ao percentual de 78,9% de causas de morte dos bovinos em confinamentos que podem ter algum nível de participação humana (tabela 1).

Tabela 1. Causas de morte relatadas pelos confinamentos visitados pelo Confina Brasil.

CAUSAS DE MORTALIDADE CITAÇÕES PARTICIPAÇÃO (%)
Doenças respiratórias 76 32,1%
Acidentes e fraturas 72 30,4%
Tristeza parasitária bovina 20 8,4%
Clostridioses 19 8,0%
Distúrbios metabólicos 15 6,3%
Predadores 10 4,2%
Mal súbito 10 4,2%
Cobra 5 2,1%
Desconhecido 5 2,1%
Afecções neurológicas 4 1,7%
Problema de casco 1 0,4%

Fonte: Confina Brasil / Elaborado por: Scot Consultoria

Ou seja, é evidente que a mão de obra pode causar danos ao bovinos. 

O pecuarista, por sua vez, busca continuamente mitigar esse risco. No entanto, esbarra em desafios que vão além da gestão da fazenda. 

Quando gestores e proprietários responderam sobre qual seria o maior desafio da atividade de confinamento, 80,4% apontaram a mão de obra como principal dificuldade. 

Para os entrevistados, a dificuldade envolve a escassez de trabalhadores disponíveis, a qualificação técnica e a dificuldade de encontrar profissionais preparados para lidar com as exigências operacionais dos confinamentos. 

De acordo com a Embrapa (2024), no relatório “Crise de mão de obra no campo: causas, impactos e possíveis soluções”, fatores como o envelhecimento da população rural, a baixa oferta de capacitação técnica e condições de trabalho pouco atrativas dificultam a contratação e a retenção de funcionários do agronegócio. 

O estudo ainda destaca que a agricultura, por ser mais tecnificada, mecanizada e mais bem remunerada, acaba absorvendo a parcela mais qualificada da já escassa mão de obra rural. 

Os dados do Novo Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados) permitem enxergar isso: a bovinocultura de corte paga, em média, salários de admissão maiores que os de outras atividades pecuárias. Ainda assim, quando colocada lado a lado com a agricultura, a pecuária fica em desvantagem (tabela 2). 

Tabela 2. Salário médio de admissão em atividades agrícolas e pecuárias, de acordo com a divulgação de setembro/25 do Novo Caged.

ATIVIDADE SALÁRIO
Algodão R$ 2.551,80
Soja R$ 2.681,08
Milho R$ 2.423,52
Trigo R$ 2.300,81
Bovinos de corte R$ 2.295,73
Bovinos de leite R$ 2.002,93
Suínos R$ 1.968,32
Frango de corte R$ 1.838,44

Fonte: MTE / Elaborado por: Scot Consultoria

Por outro lado, segundo os dados do Novo Caged, a média salarial de admissão na bovinocultura de corte tem apresentado crescimento superior ao observado tanto na agropecuária agregada quanto na pecuária como um todo. 

Entre janeiro de 2020 e setembro de 2025, o salário médio de admissão na bovinocultura de corte aumentou 54,3%, enquanto na pecuária geral o crescimento foi de 52,9% e, na agropecuária, de 44,8% (figura 1). Esse movimento indica a tendência do setor em tornar a atividade mais atrativa do ponto de vista salarial, ainda que esse ajuste não tenha sido suficiente para eliminar a escassez de mão de obra qualificada.

Figura 1. Evolução dos salários de admissão na bovinocultura de corte, pecuária e agropecuária. 

Fonte: MTE / Elaborado por: Scot Consultoria

Outro fator que ajuda a reter a mão de obra na atividade e diminuir a rotatividade é o sistema de bonificação e premiações. No total de confinamentos visitados pelo Confina Brasil, 73,9% deles informaram oferecer algum tipo de bonificação ou premiação aos colaboradores. 

Mesmo com salários mais altos e sistemas de bonificações, os problemas de mão de obra persistem, e fica claro que além desses fatores, outros fatores têm que ser considerados. 

É comum encontrar fazendas com alojamentos precários, alimentação inadequada, equipamentos ruins e condições de trabalho pouco atraentes, fatores que pesam na decisão do trabalhador de permanecer ou não.

Há relatos práticos mostrando que melhorias simples, como moradia adequada, estruturas básicas de conforto e cursos para a capacitação dos funcionários reduziram significativamente a rotatividade e quase a eliminaram. 

Assim, mais do que disputar mão de obra apenas pelo salário, o desafio da pecuária passa por tornar a fazenda um ambiente desejável para o colaborador.

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