Em sistemas intensivos, como em confinamentos de bovinos, a eficiência depende de gente, da nutrição, da sanidade e do manejo.
Foto: Bela Magrela
Quando pensamos em ameaças aos bovinos, vem na cabeça as picadas de cobras, ataques de onças ou o desenvolvimento de doenças. Pouco se pensa que a mão de obra também pode ser uma ameaça.
Não que um trabalhador queira de vontade própria causar dano, mas pode prejudicar o desempenho em função dos efeitos operacionais da escassez, rotatividade e falta de qualificação.
E isso foi apurado no Confina Brasil, pesquisa organizada pela Scot Consultoria. A taxa média de mortalidade foi de 0,5% nos confinamentos visitados. Na prática, a cada 200 bovinos que entram no confinamento, 1 morre. Dentro desses 0,5%, entram as diferentes causas de morte e, as doenças compuseram uma fatia importante dessa participação.
A falta de pessoal qualificado dificulta a identificação precoce de bovinos doentes, atrasando tratamentos e elevando a taxa de mortalidade.
As doenças foram responsáveis por 48,5% das citações de causas de morte de bovinos em confinamentos.
O manejo inadequado e transporte deficiente podem levar a mortes por acidentes e fraturas, o que eleva ao percentual de 78,9% de causas de morte dos bovinos em confinamentos que podem ter algum nível de participação humana (tabela 1).
Tabela 1. Causas de morte relatadas pelos confinamentos visitados pelo Confina Brasil.
| CAUSAS DE MORTALIDADE | CITAÇÕES | PARTICIPAÇÃO (%) |
|---|---|---|
| Doenças respiratórias | 76 | 32,1% |
| Acidentes e fraturas | 72 | 30,4% |
| Tristeza parasitária bovina | 20 | 8,4% |
| Clostridioses | 19 | 8,0% |
| Distúrbios metabólicos | 15 | 6,3% |
| Predadores | 10 | 4,2% |
| Mal súbito | 10 | 4,2% |
| Cobra | 5 | 2,1% |
| Desconhecido | 5 | 2,1% |
| Afecções neurológicas | 4 | 1,7% |
| Problema de casco | 1 | 0,4% |
Fonte: Confina Brasil / Elaborado por: Scot Consultoria
Ou seja, é evidente que a mão de obra pode causar danos ao bovinos.
O pecuarista, por sua vez, busca continuamente mitigar esse risco. No entanto, esbarra em desafios que vão além da gestão da fazenda.
Quando gestores e proprietários responderam sobre qual seria o maior desafio da atividade de confinamento, 80,4% apontaram a mão de obra como principal dificuldade.
Para os entrevistados, a dificuldade envolve a escassez de trabalhadores disponíveis, a qualificação técnica e a dificuldade de encontrar profissionais preparados para lidar com as exigências operacionais dos confinamentos.
De acordo com a Embrapa (2024), no relatório “Crise de mão de obra no campo: causas, impactos e possíveis soluções”, fatores como o envelhecimento da população rural, a baixa oferta de capacitação técnica e condições de trabalho pouco atrativas dificultam a contratação e a retenção de funcionários do agronegócio.
O estudo ainda destaca que a agricultura, por ser mais tecnificada, mecanizada e mais bem remunerada, acaba absorvendo a parcela mais qualificada da já escassa mão de obra rural.
Os dados do Novo Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados) permitem enxergar isso: a bovinocultura de corte paga, em média, salários de admissão maiores que os de outras atividades pecuárias. Ainda assim, quando colocada lado a lado com a agricultura, a pecuária fica em desvantagem (tabela 2).
Tabela 2. Salário médio de admissão em atividades agrícolas e pecuárias, de acordo com a divulgação de setembro/25 do Novo Caged.
| ATIVIDADE | SALÁRIO |
|---|---|
| Algodão | R$ 2.551,80 |
| Soja | R$ 2.681,08 |
| Milho | R$ 2.423,52 |
| Trigo | R$ 2.300,81 |
| Bovinos de corte | R$ 2.295,73 |
| Bovinos de leite | R$ 2.002,93 |
| Suínos | R$ 1.968,32 |
| Frango de corte | R$ 1.838,44 |
Fonte: MTE / Elaborado por: Scot Consultoria
Por outro lado, segundo os dados do Novo Caged, a média salarial de admissão na bovinocultura de corte tem apresentado crescimento superior ao observado tanto na agropecuária agregada quanto na pecuária como um todo.
Entre janeiro de 2020 e setembro de 2025, o salário médio de admissão na bovinocultura de corte aumentou 54,3%, enquanto na pecuária geral o crescimento foi de 52,9% e, na agropecuária, de 44,8% (figura 1). Esse movimento indica a tendência do setor em tornar a atividade mais atrativa do ponto de vista salarial, ainda que esse ajuste não tenha sido suficiente para eliminar a escassez de mão de obra qualificada.
Figura 1. Evolução dos salários de admissão na bovinocultura de corte, pecuária e agropecuária.

Fonte: MTE / Elaborado por: Scot Consultoria
Outro fator que ajuda a reter a mão de obra na atividade e diminuir a rotatividade é o sistema de bonificação e premiações. No total de confinamentos visitados pelo Confina Brasil, 73,9% deles informaram oferecer algum tipo de bonificação ou premiação aos colaboradores.
Mesmo com salários mais altos e sistemas de bonificações, os problemas de mão de obra persistem, e fica claro que além desses fatores, outros fatores têm que ser considerados.
É comum encontrar fazendas com alojamentos precários, alimentação inadequada, equipamentos ruins e condições de trabalho pouco atraentes, fatores que pesam na decisão do trabalhador de permanecer ou não.
Há relatos práticos mostrando que melhorias simples, como moradia adequada, estruturas básicas de conforto e cursos para a capacitação dos funcionários reduziram significativamente a rotatividade e quase a eliminaram.
Assim, mais do que disputar mão de obra apenas pelo salário, o desafio da pecuária passa por tornar a fazenda um ambiente desejável para o colaborador.
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