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Carta Boi - Considerações sobre o que está por vir no mercado do boi gordo


Terça-feira, 2 de março de 2021 - 17h00


O mercado do boi gordo começou 2021 com valorizações fortes, mesmo com o período tipicamente de menor consumo se somando ao término do auxílio emergencial e com a pandemia afetando fortemente a economia.


Quem tem dado as cartas é a oferta, curta, com o estímulo dos preços da reposição à retenção de vacas e novilhas.


Ao que tudo indica, teremos a retomada do auxílio emergencial e o ritmo de vendas para a China deve ser crescente, após algumas semanas mais lentas no mercado externo.


Oferta de gado na safra

Março e maio normalmente são os meses com maior volume de vendas de vacas e novilhas. Março, por causa calendário reprodutivo, e maio, pela chegada da seca, que aumenta a oferta das diversas categorias.


Em anos de retenção, como 2021 deve ser, normalmente temos preços mais firmes nas safras, com menor pressão da oferta de fêmeas, como abordado na última Carta Boi.


Oferta de gado na entressafra

Embora as expectativas sejam de preços mais firmes na safra, frente às variações históricas, temos que observar se isso vai ser suficiente para animar o mercado futuro, que tem trabalhado com preços menores para o segundo semestre, frente aos vigentes em fevereiro.


Esse ceticismo dos preços futuros tem seus motivos, afinal, estamos em uma pandemia, mas achar que a situação econômica não vai melhorar após oito meses de vacinação talvez seja um pouco pessimista.


Aqui cabe uma observação, que o ceticismo citado para o mercado futuro é o fato de ele apontar para uma arroba abaixo da atual, o que não necessariamente indica que ele devia estar com ágio grande, apenas que deságio parece pessimista.


Começamos pelo mercado futuro ao falar da oferta no segundo semestre, porque é daí que pode vir um estímulo maior ao confinamento, uma vez que preços da reposição e milho não têm ajudado quem quer fechar o gado.


China recompondo o rebanho suíno e aumentando as compras de milho, além das incertezas com a safrinha, não devem dar muita folga do lado dos custos.


Covid-19 e economia

Ao falar de projeções de retomada econômica ou evolução da pandemia, a cautela deve ser a tônica.


Isso porque até agora, quase tudo que foi e tem sido dito ou projetado por especialistas, passou por tantas alterações, que o que temos que fazer, além de cuidar da saúde, é acompanhar muito de perto a evolução dos acontecimentos.


Apenas para demonstrar o ponto citado, em boa parte de 2020, era praticamente unanimidade entre os especialistas que não teríamos vacina desenvolvida tão cedo, com base em tempos de desenvolvimento de outros imunizantes. Hoje temos mais de meia dúzia de vacinas em uso mundo afora, embora os volumes disponíveis ainda sejam limitantes.


Atualmente o foco é abordar o tema com o viés de que não atingiremos a imunidade de rebanho até determinada data.


Ora, apesar de algo de impacto inédito, com perdas irreparáveis (como a perda de qualquer familiar é), pensando em letalidade, não estamos falando de raiva ou ebola, com risco alto para todos. Com isso, a evolução da imunização dos grupos de risco já reduzirá drasticamente internações, tirando a carga do sistema de saúde, melhorando o suporte aos que precisarão, destravando os fechamentos da economia, e assim por diante.


Não queremos dizer que a pandemia é pouca coisa ou que estamos saindo dela, apenas para demonstrar como praticamente todas as expectativas ditas como “certas” foram sendo ajustadas.


A evolução, tanto da pandemia, como da economia, é algo a ser acompanhado passo a passo, com a humildade de sabermos que não há um “especialista” vivo que tenha passado por algo semelhante.


Dólar e arroba em dólares

Além das polêmicas de cada dia, nas diversas esferas dos poderes e que impactam o câmbio, em alguns dias teremos a definição do novo auxílio emergencial. Se esse for mais amplo do que o esperado, tende a impactar mais as contas públicas e diminuir otimismo com o cenário fiscal,  desvalorizando o real.


Se for menos abrangente, terá menos impacto sobre a demanda, mas afeta menos o equilíbrio fiscal em médio prazo. Por falar em equilíbrio fiscal, as reformas administrativa e tributária, com os presidentes das casas do Congresso mais alinhados ao Planalto, pode ganhar ritmo.


Também com relação ao câmbio, mais um ponto é a cotação da arroba em dólares, que em alguns casos é citada como se o patamar atual fosse insustentável. Não há dúvida que se tivéssemos uma arroba em dólares mais barata seria melhor para os embarques, mas olhar para resistências ou suportes como se fossem intocáveis é uma boa forma de ter prejuízos, independente do lado do negócio.


A título de referência, em 2003/2004, o Brasil começou a despontar no mercado internacional. Casos de vaca louca nos Estados Unidos ajudaram naquele momento e o potencial brasileiro fez o resto. Em 2003, a arroba brasileira custava US$18,44, na média do ano, em 2020 a cotação foi US$43,90/@ (+138,1%) e em fevereiro de 2020 está na casa de US$56,00/@ (+27,6%, frente à média de 2020).


Desde o início de 2019, primeiro ano após o início do surto de peste suína na Ásia, até o início de fevereiro de 2020, a cotação do boi gordo em dólares subiu 43,9% no Brasil, mas na Argentina a alta foi de 65,5% e na Austrália de 50,1%, ambos também fornecedores de carne para a China. No mesmo intervalo o preço do suíno vivo na China subiu 157,9%, também em dólares, passando de US$2,02/kg para US$5,21/kg, segundo o portal de mercado pig333. 


E como ficaria o mercado interno com patamares maiores de preços?

Se a arroba encontrar ritmo para altas em dólares, isso será em decorrência de um cenário internacional atrativo. Como a oferta de gado também está curta, produzindo menos carne e exportando bons volumes, temos menos carne a ser escoada no mercado doméstico.


Para vender uma produção menor, o frigorífico e o varejo precisam de menos pessoas com o nível de renda para pagar determinado preço (curva da demanda). Por isso, houve espaço para altas, mesmo com a economia em queda.


A diminuição da margem, tanto do atacado e varejo, demonstra que tal escoamento não está fácil, mas tem ocorrido, nas quantidades disponíveis.


Considerações finais

Devemos ter um ano de oferta curta, com retenção de fêmeas, ponto positivo para os preços.


A situação econômica esperada é melhor que a de 2020, mas ainda adversa e a ser acompanhada. O contraponto para a pecuária (apenas em curto prazo) é que sinais negativos da nossa economia depreciam o real e ajudam os embarques.


No mercado externo, a China deve seguir com bons volumes de importação, enquanto recompõe o rebanho suíno.


Em resumo, referências históricas, como tempo para desenvolvimento de vacinas ou patamar de um ativo em dólares, são um ponto de partida, um parâmetro inicial, até deixarem de sê-lo.



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