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Carta Boi - Considerações sobre o mercado do boi gordo em 2020


Quarta-feira, 6 de novembro de 2019 - 16h30


China
(não é novidade, mas um destaque sobre a safra)


Não é novidade que a demanda chinesa tem sido um ponto fundamental para explicar as valorizações do boi gordo, mesmo com uma demanda doméstica em recuperação.


A tendência é de manutenção de um ritmo forte de compras em 2020. Segundo o USDA (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos), o país deve aumentar em 20,8% as importações no próximo ano, frente a 2019, para o qual está estimado um aumento de 63,6% sobre 2018.


Aqui temos um ponto importante. Com a liberação de mais plantas frigoríficas em setembro e a possibilidade de liberação mais unidades, temos um aumento da demanda específica por bovinos até 30 meses (exigência chinesa).


O momento atual (segundo semestre) tipicamente é o período de venda das boiadas confinadas, em geral, mais jovens. Ou seja, o momento é de “menor dificuldade” para compra de boiadas jovens. Destaco menor dificuldade, porque se estivesse fácil o mercado não estaria com a força com que está.  


As atenções se voltam ao período de safra em 2020, que deve ser enxuta de bois aptos à produção de carne para China, pela própria realidade da nossa pecuária.


Para exemplificar, para que um bovino de 18@ tenha até 30 meses, precisa ter tido ganho médio diário (seca e águas) de mais de meio quilo desde o nascimento (nascido com 35kg e abatido com 500kg, 54% de rendimento). Obviamente tal animal existe, mas é mais raro no primeiro semestre.


Então as atenções mais uma vez se voltam às novilhas, que também atendem aos requisitos de idade e são relativamente mais comuns no primeiro semestre.


Demanda doméstica (melhorando)


O consumo doméstico de carne bovina está em recuperação e a tendência é de continuidade em 2020. Tomando um indicador como exemplo, a Intenção de Consumo das Famílias, da Confederação Nacional do Comércio (CNC), subiu 0,2% em outubro e, na comparação anual, está 7,7% maior. 


As projeções do relatório Focus, elaborado pelo Banco Central, apontam para um crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de 2,0% em 2020. Não é muito, mas acima do 0,9% projetado para 2019. 


Em resumo, a tendência é que os indicadores sigam melhorando, com influência positiva sobre o consumo.  


Reposição (firme, mas possivelmente com recuperação da relação de troca)


A reposição não está barata e os preços não devem perder força, embora a troca possa melhorar.


Com os abates de fêmeas em alta nos últimos anos, não é esperado um acréscimo no volume de categorias de reposição. O cenário mais provável é que, com os preços futuros do boi gordo animando compradores, além de uma oferta curta, as cotações se mantenham firmes para as diversas categorias.


A oferta de reposição tem ditado o ritmo do mercado há meses, mas a expectativa é que o mercado do boi gordo mais forte ajude na valorização da reposição pelo lado da demanda. Com isto, devemos sentir um ganho de força no mercado de categorias mais eradas.


É possível que a relação de troca melhore, tanto para a recria, como engorda. Em outras palavras, o cenário é de preços em alta para as diversas categorias, possivelmente com uma recuperação do poder de compra por causa das altas maiores das categorias mais eradas.


Milho (provavelmente mais caro, mas com relação de troca interessante)


Mesmo com a evolução nas últimas semanas, o plantio da safra de verão aponta para alguma redução da janela de plantio do milho de segunda safra, aumentando o risco climático para esta produção.


Além disto, no relatório de outubro a Conab (Companhia Nacional de Abastecimento) projetou uma redução de 22,0% nos estoques finais no ciclo 2019/2020, frente ao anterior. O valor esperado, de 11,5 milhões de toneladas, é o menor desde a safra 2015/2016. 


As projeções de aumento do consumo doméstico de milho, com produção de aves e suínos para atender as exportações, colaboram com este cenário. Cabe a ressalva de que estas projeções consideram uma redução pequena da produção da safrinha. Se uma produção menor se consolidar, estes estoques podem ser revistos para baixo.


Um mercado enxuto tende a ser acompanhado de preços firmes para o principal componente de custo da dieta. 


O real mais valorizado pode afetar as exportações, inclusive, as projeções são de queda de 10,5%. No entanto, com um cenário de redução de 6,6% nos estoques finais globais de milho em 2019/2020 (segundo o USDA), devemos ter um bom volume embarcado. 


Confinamento (custos maiores, mas especialmente demandado pelos exportadores) 


Quando falamos em expectativas para confinamento, estamos analisando preço do boi magro, milho e projeções de receita. É a associação destes fatores que gera a atratividade ou não, com influência sobre o volume de animais confinados. 


Devemos ter milho e reposição em preços maiores do que os atuais, mas não necessariamente uma relação de troca ruim com a arroba vendida, com o mercado futuro forte. 


Lembrando que em 2020, com China demandando boiadas jovens, os frigoríficos devem trabalhar mais agressivos em confinamentos próprios, além de mais maleáveis nas negociações com parceiros que confinam e têm este tipo de gado. 


Há frigoríficos de menor porte, que não trabalham normalmente com termo, mas foram habilitados para China. Com isto, em 2020 devem buscar garantir essa oferta e evitar a briga pelo gado que “sobra” para o spot, como tem ocorrido este ano. É provável que haja ampliação da quantidade de indústrias que fazem termo. 


Resumo (expectativa positiva, sem dúvida, mas não deixe de trabalhar com segurança) 


Sem a pretensão de achar que é possível “desenhar” o mercado em 2020, devemos ter preços consistentemente firmes na safra, com a disputa pelos bovinos jovens. Isto tende a manter os preços futuros atrativos. 


Tais futuros podem defender a relação de troca mesmo se notícias de quebra de safrinha forem se consolidando e confirmando um cenário de custos maiores.


Frigoríficos devem comprar rebanhos com mais avidez para o segundo semestre, provavelmente com mais indústrias oferecendo termo, o que melhora as possibilidades para quem vende.


Como indicação final, deixamos sugestão de não travar preços fixos. Por mais que os preços futuros garantam a margem, e isso é importante, perder parte da alta pode inviabilizar a reposição, dependendo de quanto o mercado evoluir.


Travar preços mínimos, aproveitando possíveis (e prováveis) altas, mas sem contas com elas.



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