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Scot Consultoria

Carta Conjuntura - O que falta para unir de fato a cadeia produtiva da carne bovina?


Segunda-feira, 9 de setembro de 2013 - 18h33

Esta antiga e conhecida frase pode ser usada para descrever a cadeia da bovinocultura no Brasil. 


Independente da força da indústria frigorífica ou do varejo, se as coisas não estiverem em ordem dentro da porteira, na produção, a cadeia não desempenhará seu papel como poderia, ou deveria. Pergunte, por exemplo, a um dono de frigorífico o que ocorreu em outubro de 2005, em Mato Grosso do Sul.  


Se os pecuaristas não produzirem um rebanho de qualidade, não há tecnologia que remedeie isto na indústria, assim como não há estratégia de marketing que agregue valor a este produto. 


Da mesma forma, de nada adianta produzir um animal precoce, com boa genética e acabamento, se o processamento, do transporte à manipulação da carcaça, for deficiente.


A partir destas premissas apresentamos algumas reflexões sobre os desacertos entre os elos da cadeia produtora de carne bovina.  


PECUARISTA E FRIGORÍFICO


Hoje o pecuarista é um produtor de bovinos e é a carcaça que precifica o animal e gera receita. A qualidade da carcaça, sem um padrão oficialmente definido e aceito, é motivo de atrito. 


Os programas de bonificação têm aumentado, premiando bovinos castrados, favorecendo raças, cruzamentos específicos, etc. Ainda assim, as exigências de tais programas por vezes limitam a bonificação dentro dos lotes e apenas parte do rebanho recebe o ágio. 


Por exemplo, se em um programa de incentivo de produção de carcaça a bonificação pode chegar a R$4,00/@, mas somente 25% do lote é bonificado, em média, o sobrepreço será de R$1,00/@. Na prática, ocorre uma melhoria da qualidade média do lote para o frigorífico, apesar de apenas parcela do lote ter atingido o patamar de bonificação. 


RENDIMENTO E PRECIFICAÇÃO


Por falar em carcaça, temos a questão do rendimento, fator de discórdia entre pecuaristas e frigoríficos. 


É comum a reclamação de que o frigorífico não paga o couro ou os miúdos. Tal reclamação ocorre porque a carcaça é a medida usada para a precificação. A carcaça em si não é suficiente para pagar a aquisição do boi gordo. 


Neste ano, em média até 20/8, a venda da carcaça pagou o equivalente a 94,5% do preço de compra do boi gordo em São Paulo. Em média, de 2003 a agosto de 2013, a venda da carcaça respondeu por 91,5% do preço de compra do boi gordo. 


Somente com o apurado com a venda da carcaça as contas do frigorífico não fecham. 


Considerando a venda de todos os produtos do abate, as margens médias de comercialização estão na figura 1.



O Equivalente Scot Carcaça afere a receita com a venda de todos os produtos do abate, de um frigorífico que não desossa. Já o Equivalente Scot Desossa se refere à receita com a venda de todos os produtos de um frigorífico que desossa.  


Em média, entre 2008 e agosto deste ano, as margens de comercialização foram de 15,9% para um frigorífico que não desossa e de 21,2% para a empresa que vende carne sem osso. Cabe destacar que esta margem não se refere a lucro, uma vez que os custos, além do boi gordo, não foram considerados. 


Em anos de queda de preços do boi gordo e reposição, ocorre desinvestimento na produção e aumenta o abate de fêmeas. São tempos ruins para o pecuarista e tempos bons para a indústria. O inverso ocorre. 


A figura 2 mostra a relação entre a margem de comercialização dos frigoríficos e o preço do boi gordo. 



Por exemplo, em 2008, com o preço dos bovinos terminados em alta, a margem estava menor. Em 2012, a cotação caiu, pressionada pela oferta de fêmeas, o que melhorou a margem da indústria. 


As exportações de carne bovina são influenciadas por fatores tais, como concorrência, câmbio, economia global e preços do boi gordo, entre outros. 


Em 2008 o preço do boi gordo subiu 23,9%, na comparação com 2007. No mesmo intervalo os embarques de carne bovina in natura caíram 20,4%. Em 2012 a cotação do boi gordo caiu 9,5% e as exportações subiram 15,3%.


INDÚSTRIA DE INSUMOS E PECUARISTA


O desempenho da indústria de insumos tem estreita relação com os preços do boi gordo e, consequentemente, com o desempenho do pecuarista. 


Em anos de preços do boi gordo em alta, o pecuarista investe, aumentando a demanda por insumos e tecnologia. Figura 3.



Este PIB se refere à produção pecuária como um todo, mas a parcela da pecuária de corte é a maior. Segundo a Confederação Nacional da Agricultura, o Valor Bruto da Produção da pecuária foi de US$152,6 bilhões em 2012, dos quais a pecuária de corte participou com 40,4% (R$61,7 bilhões).


A evolução do PIB do setor de insumos teve correlação de 0,80 com o preço do boi gordo no período analisado. Correlações próximas a 1,0 indicam que as séries tiveram tendências semelhantes. A correlação entre a série do PIB da indústria e o boi gordo, por sua vez, foi baixa, de 0,07.


As indústrias de insumos sabem desta relação com os resultados do pecuarista. Por este motivo e com o intuito de agregar valor ao que produzem, têm aumentado a atenção dada ao pós-venda, à assistência técnica para o uso destes insumos.


Com isto o pecuarista ganha com o suporte à produção, e os frigoríficos também, porque o insumo bem usado tende a gerar resultados positivos, o que resultará em satisfação e aumento do valor percebido pelo pecuarista. 


Tecnologia ou investimento em insumos não devem ser analisados pelo custo, mas pelo retorno. 


FRIGORÍFICO E VAREJO


Entre o frigorífico e o varejo existe a questão da margem de comercialização. Enquanto a margem de comercialização do frigorífico que desossa foi de 26,9%, considerando todos os produtos do abate. Para o frigorífico que não realiza desossa a margem foi de 20,0%. 


No mesmo ano, a margem de comercialização do varejo, considerando a média de todos os cortes, foi de 74,8%. 


Os varejistas atribuem esta margem maior aos custos operacionais e às perdas, devido à perecibilidade da carne. 


Os elos anteriores apontam a margem de comercialização do varejo como um limitante ao consumo, uma vez que a diminuição do ágio neste elo geraria preços mais atraentes ao consumidor, o que poderia estimular a demanda por carne e gado para abate.


CONSIDERAÇÕES FINAIS


A demanda por qualidade tem que vir do consumidor. 


Na verdade, o valor agregado de uma carne de qualidade é pequeno aos olhos de um consumidor pouco exigente. Com isto, a disposição para pagar mais pelo produto é pequena. 


A relação entre o varejo e o frigorífico deve ser a mais próxima possível, para que a indústria possa detectar os anseios de quem define o que será produzido, o consumidor. 


Entre a indústria e o pecuarista, após a definição destas demandas, deve existir transparência e consciência da relação simbiótica existente. Sem o frigorífico, os bois do pecuarista perdem valor. Por outro lado, sem os bois, um frigorífico é inútil. 


Parece simplista, mas uma estratégia predatória de um ou mais frigoríficos em determinada região tende a desestimular os pecuaristas, que podem migrar de atividade ou vender suas fazendas. Isto, em médio prazo, diminui a oferta de boiadas e causa um estrago nas contas da indústria, pelo aumento do custo do boi e da ociosidade. No entanto, a indústria tem acesso facilitado ao crédito e poderá se adaptar a um mercado menor e pague mais pela carne.


Em função dessa possibilidade o consumo de massa deve ser a opção do pecuarista.


Com a definição da carne que o consumidor busca, o frigorífico deve procurar parcerias, com o intuito de estimular a oferta de determinado tipo de boiadas. 


Dentro da porteira, o pecuarista deve aprimorar o sistema de produção, usando investimentos em tecnologia que realmente gerem resultados, com risco e retorno considerados. 


Também é importante saber que a concentração dos frigoríficos é uma tendência, que não deverá se inverter, e os produtores precisarão focar em diluição de custos fixos com aumento da produção. 


Ágios também são importantes, quando estes remunerarem o custo adicional da produção de maior qualidade. 


Neste contexto, de otimizar a utilização das terras e benfeitorias, as indústrias de insumos têm papel importante, dando suporte tecnológico ao produtor que, com boa produtividade e remuneração adequada, tende a investir mais em tecnologia. 


Um elo fraco pode quebrar uma corrente forte.


Colaborou Alcides de Moura Torres Junior, diretor Scot Consultoria.





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