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Gestão de risco vai muito além do mercado futuro

Gestão de risco na pecuária tem ganhado importância entre os pecuaristas. E isso envolve saber quanto custa produzir uma arroba de boi gordo.


O mercado do boi gordo apresenta oscilações expressivas de preços. A série histórica do preço nominal da arroba, desde 2010, evidencia esse comportamento, com movimentos de maior intensidade entre 2020 e 2024.

Embora a volatilidade tenha sido acentuada nesse período, as oscilações observadas em 2025 e 2026 foram menores em comparação aos anos anteriores (figura 1).

Figura 1.
Evolução diária do preço nominal do boi gordo (Cepea), em reais por arroba, desde 2010.imagem
Fonte: Cepea | Elaboração: Farmnews

Em um mercado sujeito a mudanças rápidas, esperar pelo melhor momento para vender pode aumentar a exposição do pecuarista às oscilações de preços.

Nesse contexto, a gestão de risco é uma ferramenta para organizar as decisões de comercialização e proteger as margens da atividade. Mais do que acompanhar as cotações ou tentar antecipar os movimentos do mercado, é necessário conhecer os custos de produção, calcular o preço necessário para cobri-los e definir qual margem se pretende alcançar.

Sem essas informações, o produtor pode até conseguir fixar um preço de venda, mas isso não significa, necessariamente, que terá um resultado econômico satisfatório.

Custos e margem da fazenda

O primeiro passo para estruturar uma estratégia de gestão de risco é conhecer os custos de produção. Isso envolve acompanhar as despesas, identificar os componentes de maior participação no custo total e avaliar como suas variações afetam a rentabilidade da atividade.

Nesse processo, o preço de equilíbrio é uma referência importante, pois indica quanto a arroba precisa render para cobrir os custos considerados no planejamento.

Com essa referência, o produtor consegue avaliar as cotações disponíveis e identificar oportunidades de proteção de margem. Essa análise, porém, precisa ser atualizada ao longo do ciclo produtivo, já que despesas com alimentação, reposição, mão de obra e sanidade podem mudar, alterando o preço necessário para cobrir os custos e alcançar a margem pretendida.

Por isso, as decisões não devem considerar apenas a cotação do boi gordo na B3, mas também a evolução dos custos e das margens projetadas para o período de venda.

Como aplicar a gestão de risco na pecuária?

Imagine uma fazenda com bovinos previstos para venda nos próximos meses. Com os custos de produção conhecidos, o pecuarista identifica uma cotação do boi gordo que proporciona uma margem satisfatória.

Uma alternativa é proteger parte da produção por meio do mercado futuro, mantendo o restante exposto às oscilações de preços. Também é possível escalonar as operações, realizando proteções em diferentes momentos, conforme as condições de mercado e a proximidade da comercialização.

Dessa forma, se as cotações recuarem, a parcela protegida ajuda a preservar a margem planejada. Por outro lado, se subirem, os bovinos que permaneceram sem proteção ainda podem capturar essa alta.

A estratégia não elimina os riscos nem garante o melhor resultado, mas reduz a exposição da fazenda às oscilações de preços e à dependência de uma única data de comercialização.

Fluxo de caixa nas operações

A utilização do mercado futuro também exige planejamento financeiro. Em uma operação de venda na B3, por exemplo, uma alta das cotações pode gerar ajustes financeiros negativos, exigindo desembolsos antes mesmo da venda dos bovinos no mercado físico.

Por isso, antes de assumir uma posição, o produtor precisa avaliar se a fazenda dispõe de recursos para suportar eventuais ajustes sem comprometer o pagamento de insumos, salários e demais despesas operacionais.

A proteção de preços deve ser compatível com a capacidade financeira da propriedade. Uma estratégia pode ser adequada do ponto de vista da margem, mas se tornar inviável caso exija uma disponibilidade de caixa que a fazenda não possui.

Proteção não significa vender tudo na Bolsa

O mercado futuro é uma alternativa para gerenciar o risco de preços, mas não é a única. O produtor pode combinar operações na B3 com a comercialização no mercado físico, negociar lotes em diferentes momentos ou utilizar contratos comerciais disponíveis na região.

O importante é que a estratégia de comercialização esteja fundamentada nos custos de produção, na margem pretendida e na capacidade financeira da fazenda.

Ivan Formigoni

Zootecnista, doutor pela USP-FZEA e fundador da Farmnews.

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