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Scot Consultoria

Quem tem medo do Super El Niño?

Considerando seus efeitos residuais até 2032, há uma previsão de redução do crescimento econômico global em até US$10 trilhões.


Foto: Shutterstock

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Nas redes sociais há um debate, não exatamente declarado, entre o que seria “alarmismo” ou, por outro lado, uma eventual desconexão da realidade na questão de quão grave poderá ser o fenômeno El Niño neste seu ciclo atual.

O objetivo deste texto é juntar as melhores informações que dispomos neste momento para tentar se afastar desses extremos e procurar dimensionar esse desafio que já estamos enfrentando e que deve se agravar nos próximos meses. Também, oferecer algumas sugestões de ações para adaptação e mitigação aos eventos climáticos que ele deve provocar.

O que é o El Niño?

O El Niño (O Menino) é um fenômeno climático cíclico, conhecido desde 1500 e com registros climatológicos desde 1870, que consiste no aquecimento anormal das águas do Pacífico Equatorial na altura do Peru. Foram os pescadores deste país que cunharam o nome, pois um dos seus efeitos era a redução da pesca no litoral.

No caso, a criança referida em seu nome é o menino Jesus, pois o auge do efeito ocorre perto da data de Natal. O aquecimento anormal nesse local aquece a atmosfera, reformatando as correntes de vento, provocando alterações no clima em grande parte do Mundo (vide figura 2).

Batizada pelos climatologistas como “Oscilação Sul El Niño”, abreviada como ENSO (do acrônimo em inglês), é uma flutuação natural da temperatura da superfície do oceano que ocorre em ciclos que costumam variar de 2 a 7 anos. Apesar de ter alguns efeitos bem característicos no “atacado”, cada ciclo tem suas próprias variações únicas no “varejo”.

Os anos sem El Niño podem ser anos neutros ou anos de um efeito inverso a ele, ou seja, o resfriamento das águas do Pacífico Sul, com o nome de La Niña (A Menina), que também afeta o clima global causando problemas, mas, pelo menos não agrava o aquecimento global. Já anos de ocorrência de El Niño resultam em anos com expressivos e duradouros recordes de temperatura, com destaque para El Niños muito fortes de 1997 e de 2015.

Um detalhe é que os climatologistas usam o termo oficial “El Niño muito forte”. A variação “Super El Niño” tem origem ligada à comunicação dos boletins meteorológicos na imprensa, o que é revelador em termos do viés dela em deixar tudo com cores mais fortes, dando uma ponta de razão para o tal do alarmismo. Isso não muda o fato que essa ENSO é mesmo única, como veremos em seguida.

O que este tem de diferente?

Na figura 1, retirada da atualização de julho do Berkeley Earth, pode-se ter uma ideia de como o atual ciclo desse fenômeno é, de fato, bem mais intenso que os dois recordistas anteriores. Em agosto de 1997 e 2015, mesmo estes dois ciclos sendo muito fortes, o diferencial de temperatura foi menor do que 2º C.

A previsão para o atual, como destacado na figura 1, previu-se +2,7º C. O valor real obtido, conforme a atualização de agosto do mesmo grupo da Universidade de Berkeley foi de +2,6º C, praticamente confirmando a previsão.

Figura 1.
Anomalia diária da temperatura da superfície do mar na região El Niño 3.4 para cada ano desde 1982 (cinza), com 2026 em vermelho e os anos de forte desenvolvimento do El Niño de 1997 (verde) e 2015 (azul) em destaque. As anomalias são medidas em relação à climatologia própria de 30 anos de cada ano, o que remove a tendência de aquecimento de longo prazo. No início de agosto, o ano de 2026 está acima de todos os anos anteriores para a data.
Fonte: Análise do Climate Dashboard do NOAA OISSTv2.1 (caixa Niño 3.4, 5°S–5°N, 170°–120°O) realizada e publicada por Berkely Earth no “July Temperature Update”.

Neste momento, há praticamente 100,0% de chance que este seja o El Niño mais forte em 150 anos de observações, com o pico previsto entre novembro e janeiro. Ele deverá ter um diferencial de +4º C, que é mais de um grau sobre o recordista anterior (2015).

Todo esse calor liberado, junto com o aumento da temperatura causada pelas atividades humanas já faz com que 2026 tenha 98,0% de chance de ser o ano mais quente dos últimos 120 mil anos. Provavelmente, 2027 deva desbancá-lo, pois a previsão é que ele seja até 1,7º C mais quente que a temperatura prévia à revolução industrial (a média entre 1850-1900), a “anomalia climática”. Obviamente isso representa um aumento no número e na severidade de eventos climáticos extremos.

Há outra diferença ainda, pois o padrão de aquecimento se concentrou nas porções mais ao Leste do Pacífico, sendo o primeiro Super El Niño desde 1990 com esse padrão. Por ser recordista, de ter essa concepção mais rara e, a estas duas peculiaridades se somar 30 anos de aquecimento global, seus efeitos são mais difíceis de serem previstos.

As observações dão conta que a ENSO acelera as mudanças climáticas, bem como o aquecimento global intensifica a ENSO, mas ainda há incertezas como, por exemplo, se ela está ficando mais frequente.

O que está previsto para esse ciclo? O que já está ocorrendo?

Historicamente, ENSO fortes deixam algumas regiões com excesso de chuvas e outras com secas severas, estas se associando a eventos de grandes incêndios em florestas e áreas rurais. Na figura 2, há um resumo dos efeitos previstos em várias regiões do Globo.

Pode-se observar que as Américas têm a maior área afetada, com a América do Norte parecendo um espelho do que ocorre na América do Sul. Em seguida, a Ásia parece concentrar os maiores problemas e, por fim, a porção Oeste da África. São regiões com grande concentração de pessoas e de alta relevância na produção de alimentos.

Assim, além do sofrimento das populações locais pelos eventos extremos, a provável perda de lavouras e criações nesses casos, somada à frustração de safra nos locais em que apenas a água seja abaixo da média esperada ou que as chuvas atrapalhem a colheita no momento ideal, deve reduzir a produção de alimentos. Insegurança alimentar e aumento de inflação são efeitos esperados em função desse cenário. Considerando seus efeitos residuais até 2032, há uma previsão de redução do crescimento econômico global em até US$10 trilhões.

Os efeitos da atuação da ENSO já se fazem sentir. Artigo na revista Nature, de 24/9/26 lista alguns deles:

(i) Redução no tráfego no Canal do Panamá devido a efeitos de falta de chuvas; 
(ii) perdas de lavoura na América Central; 
(iii) seca histórica causando escassez hídrica em Porto Rico e na Jamaica, 
(iv) um início de temporada de incêndios florestais acima da média na Indonésia; 
(v) chuvas de monção abaixo da média na Índia; 
(vi) Partes do Sul e Leste da África com seca contribuindo, junto com outros fatores, para a insegurança alimentar; 
(vii) no Chile, chuvas fortes e neve interromperam a mineração de cobre; 
(viii) no Peru, inundações levaram ao fechamento de Machu Picchu para turistas. 
Com seus efeitos começando em junho deste ano e com previsão para perdurar até pelo menos abril/maio de 2027, infelizmente, ainda podemos ter muitas situações similares espalhadas pelas regiões de risco.

Para o Brasil, a figura 2, indica: Chuvas em grandes volumes para a região Sul e seca para a região Centro-Oeste e Norte, ambas começando já em setembro, e indo até fevereiro de 2027, no caso da região Sul, e até maio de 2027 para a região Norte.

Há também seca prevista para a região Nordeste entre março e maio de 2027. O padrão previsto para as regiões Sul e Centro-Oeste/Norte já deram as caras, tendo ocorrido inundações e fortes ventanias nos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná e atraso do plantio, e incêndios no Mato Grosso e Tocantins, bem como problemas de navegação em rios do Amazonas.

Enquanto escrevo este artigo, a maior parte do Brasil passa por uma onda de calor em que cidades mais ao Norte do país enfrentam temperaturas superiores a 40º C.

Figura 2.
El Niño 2026-27: onde são esperados os maiores impactos. Locais com sombreamento com confiança científica a partir da literatura de grandes eventos passados (1982–83, 1997–98, 2015–16, 2023–24). Eles mostram onde há igual ou maior do que 80,0% de chance baseado em que 13 modelos de previsão sazonal que tenham concordado (NMME + C3S, início em Set de 2026); tanto as regiões como o alcance das previsões são apenas indicativas.imagem
Fonte: Berkeley Earth August Update.

O que podemos fazer?

As informações claramente mostram que se trata, sim, de uma situação bastante preocupante: se um ciclo usual do fenômeno já causa tantos danos, o que pode ser esperado de um fenômeno cuja força bate, com folga, o recorde anterior? Considerando o cenário exposto até aqui, na minha opinião, a imprensa tem sido até comedida na maior parte das vezes. Por outro lado, percebo que algumas pessoas têm deixado se levar por um viés de confirmação que se trataria de algo menor do que, de fato, é! É a busca por um conforto perigoso.

O primeiro ponto para enfrentar qualquer desafio é ter o máximo de informações a partir de fontes confiáveis. Confiáveis são aquelas fontes que resistem à prova do tempo e, assim, não é muito difícil identificá-las. Uma vez identificadas, a vantagem é exatamente estar lidando com fatos, para que as ações façam sentido. No caso do clima, fatos, muitas vezes, são informadas probabilidades. Probabilidades acima de 66,0% indicam que há chance de dois acontecimentos previstos a cada três ocorrências, ou seja, é uma boa nota de corte genérica.

Esse ciclo começou a ser anunciado em abril deste ano e, já em junho, com a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA) dos EUA informando a estimativa de 80,0% de probabilidade de ocorrência de um evento "muito forte". No mesmo relatório, a previsão que as condições da ENSO persistiram pelo menos até abril de 2027. Em retrospectiva, quem já começou a tomar ações para enfrentar os desafios desde esse mês, está em vantagem. Ainda assim, sempre é tempo de tentar fazer algo que possa nos deixar um pouco mais preparados para o futuro.

Para manter-se atualizado, temos algumas opções públicas de informações, como o Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), referência pública oficial do governo federal com boletins diários e alertas de eventos severos (geadas, secas, tempestades), além de dados históricos do clima.

O INMET tem o SIDASGRO, um site que especificamente tem o “objetivo de apoiar o setor agrícola nos processos de tomada de decisão”. Outra opção específica para agrometeorologia é o Agritempo (Embrapa / Unicamp) que conforme sua página comenta, pode ser usado por “produtores rurais para serem informados sobre estiagem agrícola, precipitação acumulada, épocas de realização de tratamentos fitossanitários, necessidade de irrigação, condições de manejo do solo e de aplicação de defensivos agrícolas”, pontuando no final “informações que permitem reduzir custos e aumentar produtividade”.

Uma crítica à estas opções é que nem sempre a informação encontrada neles é palatável para leigos. Para preencher isso, pode-se complementar as informações delas com a imprensa especializada e até mesmo canais de redes sociais (que passem pelo teste do tempo).

Algumas sugestões de ações de adaptação e mitigação dos riscos climáticos

No início de setembro, a Embrapa disponibilizou uma nota técnica com o título “El Niño 2026/2027 - 163 Medidas para a Gestão de Riscos Climáticos na Agropecuária Brasileira” em que, após contextualização sobre clima e a ENSO, lista medidas para enfrentar os riscos climáticos na agropecuária.

Baseada nela e em experiências passadas, seguem algumas sugestões de ações que ainda possam fazer alguma diferença.

Para locais com previsão de seca

Aumentar a disponibilidade de pasto: 
Uma das formas de fazer isso é adubando, caso ainda haja chance de aproveitar uma fase com fatores de crescimento e os custos com insumos e operação compensem. Se essa não for uma opção, pode-se dar mais disponibilidade de forragem por cabeça ao reduzir a lotação das pastagens, cuja maneira mais direta é vendendo animais. Porém há opções diferentes, como fazer a terminação intensiva dos animais a pasto (TIP), situação em que praticamente todo consumo dos animais é de concentrado (economizando o pasto). Com esta técnica, num curto espaço de tempo, os animais mais pesados são retirados da pastagem, aliviando sua lotação. Há também como conciliar a venda de animais ao exercer uma pressão maior de seleção no rebanho de cria, ao fazer o descarte antecipado das piores matrizes para que, a maior disponibilidade de pastagem para as vacas remanescentes, permitam que elas mantenham a condição corporal para garantir uma melhor taxa de concepção. Mesmo porque, se as vacas perderem muita condição corporal, provavelmente não irão emprenhar. No final das contas, na opção de descarte antecipado, mesmo com menos vacas, pode-se ter uma safra maior de bezerros.

Aumentar a disponibilidade de forragem conservada: 
Para locais que tenham previsão de seca, mas que ainda tenham alguma chuva nesse início da previsão, pode-se considerar fazer silagem de capim, para amenizar a falta de pastagem quando a seca chegar. Esse pode ser o caso de fazendas do Centro-Oeste e da região Norte, para as quais há uma previsão de seca começando agora e que pode durar até maio de 2027.  Especialmente se for dessa maneira emergencial é bem capaz que a fazenda não tenha o maquinário para fazer a silagem, o que pode ser resolvido com a contratação de empresas que prestam esse serviço. Mesmo que sua microrregião escape das previsões de seca, ter essa reserva de forragem segue sendo um ponto positivo. Ela pode ser usada, por exemplo, em um “sequestro” de animais de recria em confinamento no retorno das águas, deixando os pastos em descanso na volta das águas que resultará em uma melhor rebrota e desenvolvimento das pastagens, ajudando um melhor desempenho dos animais e a manutenção das pastagens.

Aumentar os estoques de concentrado: 
Manter estoques de concentrado maiores do que o necessário pode ter duas grandes desvantagens: (i) o custo financeiro de carregar o estoque e (ii) as perdas de estocagem, incluindo não só de peso, mas também de qualidade. Na chance de ter um período de seca mais forte a frente, elas podem deixar de ser tão relevantes. O motivo é que esse estoque maior pode ser uma estratégia de se antecipar a alta demanda que ocorre quando há uma seca prolongada e todos precisam do recurso ao mesmo tempo com consequente disparada nos preços.   

Uso do confinamento: 
O confinamento é uma estratégia boa para terminação e, como já sugerido, para aliviar os pastos para qualquer outra categoria, na opção que se convencionou chamar sequestro. Se o produtor não tem o confinamento, ele pode contratar o serviço de um boitel.

Aumentar a capacidade de armazenamento de água: 
A falta de água em uma fazenda de pecuária é um dos piores pesadelos e, portanto, é crítico ter uma boa reserva de água. Nesse cenário de risco de seca, pode ser interessante fazer o investimento para ter mais água na propriedade, seja com a abertura de um novo poço, seja pela compra de reservatórios de água.

Para locais com probabilidade de fogo

É importante tomar ações coordenadas que reduzam a quantidade de biomassa em locais de maior risco de entrada de fogo, como os pastos limítrofes às estradas. Isso vale também para áreas próximas a florestas. Uma opção é usar essas áreas para a produção de volumosos conservados, que na época da seca, estarão com menos biomassa. Isso, junto com o feitio e manutenção de aceiros (faixa de terra mantida limpa de vegetação ao redor de áreas de cultivo, pastagens ou florestas) aumentam a chance de conseguir controlar o fogo. Ainda nessa linha de culturas interessantes para serem usadas nessas áreas mais expostas, outra boa opção é a cana-de-açúcar, pois ela pode ser ensilada, inclusive depois do fogo, se feito em até três dias após o ocorrido.

Por fim, uma iniciativa que já existe com bons resultados é a reunião de produtores vizinhos que forma uma brigada de incêndio solitária que pode ser mobilizada para qualquer um atingido, permitindo uma ação mais forte contra o fogo. Além da força, a rapidez de ação é fundamental para o controle do fogo e, com mais olhos atentos aos sinais no entorno, esse monitoramento também é amplificado. Ainda para aumentar a chance de sucesso da iniciativa, contar com um sistema de comunicação rápida, treinamento no combate ao fogo e equipamentos adequados faz bastante diferença.

Para locais com probabilidade de excesso de chuva

O pior risco são as enchentes. Retirar animais em tempo hábil das áreas de risco é a medida que deve estar já bem planejada para que ela ocorra rapidamente. Isso, junto com conseguir informações sobre o nível do rio que está com chance de transbordar sua calha podem reduzir a perda de animais.

Outro problema é a erosão e, para isso, manter o solo coberto é a opção número um. Há mais opções de ações como feitio de terraços, caixas de sedimentação e bacias de contenção (nas estradas) e outras práticas conservacionistas.

Para qualquer situação

Ajustar as culturas ou cultivares, bem como consórcios, que tenham maior tolerância à seca ou excesso de água: até mesmo antes de ver essa questão, deve-se ver se, mesmo para situações normais, a época do plantio é adequada para a cultura, o que pode ser consultado no Zarc Plantio Certo. Para saber da tolerância no caso das pastagens, um aplicativo que traz informações e pode ser usado é o Pasto Certo, da Embrapa, que pode ser baixado nas lojas de aplicativos. O uso de consórcio gramínea-leguminosa dá mais resiliência contra a seca e, apesar de ser difícil nesse momento estabelecer esse consórcio, havendo chance, pode compensar.

Por fim, um texto recente de “Carta Grãos e Agricultura - Sorgo como alternativa ao risco do El Niño” da Scot Consultoria, tem um bom exemplo da substituição do milho pelo sorgo quando há previsões de maior risco de seca. Uma frase do texto define bem como essa alternativa já faz parte da rotina de muitos produtores: “O último El Niño forte já havia dado uma amostra: em 2023/24, a área de sorgo em Mato Grosso saltou 45,3%, enquanto a de milho safrinha no estado recuou 5,2%.”

Considerações Finais

O que iremos enfrentar nos próximos tempos é um evento realmente preocupante e que não deve ser minimizado, mas enfrentado da melhor forma possível. As melhores escolhas de enfrentamento são possíveis apenas com planejamento baseado nas melhores informações disponíveis. Por se tratar de um fenômeno climático isso inclui conviver com decisões tomadas com base em probabilidades. Isso é um complicador que não deve ser um fator para não decidir e as escolhas devem ser feitas com a consciência que, em retrospectiva, parecerão erradas. Não se deve perder de vista que a decisão foi correta no tempo, mas algo que pode fazer parte do planejamento é dar prioridades para estratégias que possam ter outros efeitos positivos no sistema, como no exemplo de ter sempre opção de alimento suplementar na fazenda, mesmo que se tornem desnecessárias para o que foram planejadas. Outro ponto recorrente é que devemos cada vez mais nos preparar mais para extremos climáticos, independente da severidade deste ciclo.

Todavia, talvez a reflexão mais importante desse desafio é o fato dele poder ser considerado um “Cartão Postal” do futuro, como defendem alguns cientistas. Isso, pois os +1,7º C previstos para 2027 darão uma ideia do que nos aguarda quando esse limite estiver definitivamente ultrapassado (como média) daqui alguns anos. Hoje, perto de ultrapassar os +1,5º C, já temos motivos de sobra para agir coletivamente contra o aquecimento global antropogênico e, esses 0,2º C a mais, podem deixar mais claro como cada décimo conta para reduzir perdas, dor e sofrimento. Como um dos setores em melhor chance de contribuir, não devemos perder oportunidades de estar do lado da “solução” e, desta posição, cobrar os setores e países a quem pertencem, atual e historicamente, a grande maior parte dessa conta.

Por fim, respondendo à pergunta do título, creio que seria todo aquele que tem boas informações sobre o evento. São elas, contudo, as pessoas que mais podem administrar esse sentimento negativo, transformando-o em ação e reduzindo os prejuízos. De quem eu realmente tenho medo é de quem não tem medo!

Fontes consultadas:

The largest on record by a ‘mind-blowing margin’ —what to expect from the next El Niño. Nature Vol 656, 6 de Agosto de 2026.

What super El Niño means for global weather patterns. Nature Vol 657, 24 de Setembro de 2026.

Berkeley Earth, July 2026 Temperature Upate - https://berkeleyearth.org/july-2026-temperature-update/

Berkeley Earth, July 2026 Temperature Upate - https://berkeleyearth.org/august-2026-temperature-update/

Gestão de Riscos Climáticos e o El Niño - Vídeo #103 – AgroMaisAção. https://www.youtube.com/watch?v=Lo6u25AND6Q&t=1874s . Podcast da Exagro com participação de Sergio Raposo de Medeiros. Moderação: Mário

El Niño na pecuária: impactos e estratégias para enfrentar os desafios climáticos. Podcast da Instituto Akorde com participação de Alexandre Pedroso, Patrícia Menezes dos Santos, Jéssica Iaketests Brito e Mateus Biasotti Ferrari. (a gravação iria ser disponibilizada)

Sergio Raposo de Medeiros

Engenheiro agrônomo, formado pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, da Universidade de São Paulo, com mestrado e doutorado pela mesma universidade. É pesquisador da Embrapa Pecuária Sudeste e especialista em nutrição animal com enfoque nos seguintes temas: exigência e eficiência na produção animal, qualidade de produtos animais e soluções tecnológicas para produção sustentável. É membro do Conselho Científico Agro Sustentável (CCAS).

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