Na pecuária, adotar boas práticas é apenas parte do caminho para transformar o manejo em evidências mensuráveis, que permitem avaliar resultados ambientais e orientar decisões econômicas.
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O desafio para produtores, empresas e financiadores não é apenas identificar boas práticas, mas saber quais evidências permitem demonstrar o que elas efetivamente produzem no território.
A sustentabilidade ganhou espaço definitivo na agenda da pecuária. Produtores incorporaram novas práticas de manejo, empresas passaram a estabelecer critérios para fornecedores, instituições financeiras ampliaram suas análises socioambientais e a tecnologia aumentou muito a capacidade de observar o que acontece dentro das propriedades rurais.
Esse avanço trouxe também um desafio. Termos como pecuária sustentável, regenerativa, de baixo carbono, extensiva ou integrada descrevem sistemas, estratégias ou intenções, mas não demonstram automaticamente o resultado alcançado.
Entre adotar determinada prática e comprovar que ela mantém ou melhora uma condição ambiental existe uma diferença importante, especialmente quando essa informação passa a influenciar decisões econômicas.
Para quem produz, essa distinção ajuda a avaliar se o manejo está funcionando. Para quem compra, financia ou assume riscos ligados à atividade, ela interfere na qualidade da informação disponível.
Sustentabilidade deixa, então, de ser apenas uma característica declarada do sistema produtivo e passa a depender também da capacidade de demonstrar o que ocorre na área ao longo do tempo.
Essa mudança parece conceitual, mas tem consequências bastante práticas. O nome do sistema diz menos que o manejo.
Na pecuária, os efeitos ambientais não dependem somente da existência ou ausência de animais. Intensidade e duração do pastejo, disponibilidade de forragem, características da vegetação, condições do solo, regime hídrico, histórico de utilização da área e outras variáveis modificam a resposta do sistema.
Por isso, propriedades inseridas na mesma categoria produtiva podem apresentar condições muito distintas. A expressão “pecuária extensiva”, por exemplo, informa algo sobre a forma de produção, mas ainda diz pouco sobre pressão de pastejo, estrutura da vegetação ou trajetória ambiental de determinada área.
Os estudos que venho desenvolvendo sobre uso pastoril em Reservas Legais do Pantanal e do Pampa tornam essa distinção especialmente visível.
No Pantanal sul-mato-grossense, a legislação admite o pastoreio extensivo em determinadas Reservas Legais da planície, condicionado à manutenção de atributos ecológicos e existência de pastagem nativa.
A pesquisa sobre a operacionalização dessas regras encontrou instrumentos capazes de observar partes importantes do processo, incluindo informações sobre vegetação, pastagens, fogo e manejo. Entretanto, não foi localizado um procedimento integrado diretamente destinado a demonstrar todas as condições previstas para esse uso.
A diferença é relevante, pois uma atividade pode estar juridicamente admitida e submetida a requisitos administrativos sem que isso signifique, automaticamente, que todos os seus resultados ecológicos estejam sendo medidos. Conformidade e desempenho ambiental podem se relacionar, mas não são sinônimos.
O mesmo raciocínio aparece no Pampa sob outro contexto ecológico. A pecuária sobre campos nativos pode integrar a dinâmica desses ambientes, enquanto diferentes intensidades e formas de manejo produzem respostas distintas.
O levantamento realizado para Reservas Legais do bioma mostrou que variáveis relacionadas ao sobrepastejo, ajuste de carga, diferimento, estrutura da vegetação, não conversão e espécies invasoras possuem maior correspondência com aspectos passíveis de observação.
Também indicou que tanto o pastejo severo quanto a exclusão prolongada podem produzir alterações, afastando soluções baseadas em um único padrão de manejo aplicável a todas as situações.
Pantanal e Pampa não oferecem uma regra geral para a pecuária brasileira, nem poderiam fazê-lo. São sistemas ecológicos distintos. Os dois casos, contudo, ajudam a visualizar o mesmo problema de gestão: conhecer a prática adotada é necessário, mas nem sempre suficiente para conhecer o resultado.
Uma maneira útil de organizar as informações é distinguir aquilo que demonstra enquadramento e conformidade, aquilo que descreve a pressão do manejo, aquilo que informa a condição ambiental e, finalmente, aquilo que revela a trajetória da área.
No primeiro grupo estão cadastros, documentos, limites territoriais, autorizações e outros elementos relacionados à regularidade da propriedade e da atividade. São dados essenciais para segurança jurídica, diligência e diversos processos econômicos, mas seu objetivo principal não é medir a condição ecológica do território.
Em seguida aparecem os dados de manejo. Taxa de lotação, períodos de uso e descanso, ajuste de carga, intervenções sobre a vegetação e outras informações ajudam a descrever o que está sendo feito e qual pressão está sendo aplicada ao sistema produtivo.
Há, depois, a condição observável. Dependendo da questão analisada, podem interessar cobertura e estrutura da vegetação, solo exposto, biomassa, espécies invasoras, qualidade da água, biodiversidade ou outros atributos. Nenhum deles, isoladamente, representa necessariamente a sustentabilidade do sistema inteiro. Cada indicador responde melhor a determinadas perguntas e pior a outras.
A quarta camada é particularmente importante para decisões de gestão porque acrescenta tempo à análise. Em vez de observar somente como uma área se encontra hoje, torna-se possível acompanhar se determinada condição permanece estável, melhora ou se deteriora.
O desenvolvimento recente das tecnologias de monitoramento amplia essa possibilidade. O MapBiomas, por exemplo, disponibiliza atualmente uma série de condição de vigor das pastagens brasileiras entre 2000 e 2025 e um produto de transição que permite identificar áreas com estabilidade, aumento ou redução do vigor vegetativo. O método utiliza séries temporais de sensoriamento remoto e classifica as pastagens em níveis de vigor.
Esse tipo de informação não deve ser interpretado como um certificado de sustentabilidade. Vigor vegetativo não mede, sozinho, biodiversidade, conservação do solo, carbono, água ou todos os efeitos de determinado manejo.
Sua utilidade está em demonstrar como a tecnologia passou a permitir que uma característica relevante seja acompanhada ao longo do tempo e não apenas observada em uma fotografia isolada.
Uma área com boa cobertura vegetal hoje pode ter permanecido estável durante anos, pode estar em processo de recuperação ou pode estar iniciando uma trajetória de perda. O estado atual é o mesmo ponto de partida visual, mas os três históricos contam histórias diferentes para quem administra a propriedade ou avalia risco.
A ampliação da capacidade de monitoramento pode criar a impressão de que o caminho seria medir tudo. Para a atividade produtiva, dificilmente essa será a solução mais eficiente.
Produzir informação tem custo. Imagens precisam ser processadas e interpretadas, dados de campo precisam ser coletados, sistemas demandam atualização e algumas variáveis exigem conhecimento técnico especializado. Quanto maior a exigência de comprovação, maior pode ser o custo associado à sua produção e verificação.
Um produtor interessado em ajustar manejo precisa de informação capaz de orientar a operação. Uma empresa que avalia fornecedores pode necessitar de outra combinação de dados. Um financiador preocupado com regularidade e risco trabalha sob critérios diferentes. Um programa que pretenda remunerar algum resultado ambiental terá exigências próprias de mensuração e verificação. Isso explica por que diferentes evidências não devem ser tratadas como equivalentes.
O Cadastro Ambiental Rural cumpre determinada função. A carga animal informa uma característica do manejo. Uma série de cobertura vegetal descreve outra dimensão. Um levantamento de biodiversidade acrescenta informação diferente. Cada dado ganha valor quando existe correspondência entre aquilo que ele consegue demonstrar e a decisão que será tomada com base nele.
A discussão sobre sustentabilidade aplicada à pecuária fica mais objetiva quando essa correspondência é especificada. Em vez de procurar um selo conceitual para classificar um sistema inteiro, passa-se a trabalhar com funções ambientais, práticas de manejo, indicadores e limites de interpretação.
Essa transformação já começa a aparecer em algumas relações econômicas, embora seja necessário cuidado para não confundir exigência ambiental com remuneração ambiental.
No crédito rural, por exemplo, o Manual de Crédito Rural possui regras específicas sobre impedimentos sociais, ambientais e climáticos. Entre outros aspectos, a regulamentação utiliza informações territoriais e ambientais para definir situações com restrição de acesso ao financiamento.
Alterações regulatórias recentes continuam aprimorando essa estrutura, inclusive quanto à possibilidade de verificações territoriais.
Isso não permite concluir que uma propriedade com melhor desempenho ambiental receba, por consequência, juros menores ou condições financeiras superiores. São relações distintas.
A evidência disponível demonstra com mais segurança que determinados atributos ambientais já participam de decisões de crédito, especialmente como critérios de elegibilidade e risco, e não que exista remuneração universal pelo melhor desempenho.
Conservar pode gerar valor de diversas formas, mas esse valor nem sempre aparece como prêmio de preço. Pode estar relacionado ao acesso a determinada operação, à manutenção de um comprador, à redução de alguma incerteza, à gestão interna da propriedade ou, em alguns modelos, à remuneração específica por um resultado ambiental.
É justamente aí que a discussão deixa de ser somente ambiental e passa a ser econômica. Se produzir evidência custa dinheiro, interessa saber quem precisa dela, quem confia nela, quem arca com sua verificação e qual decisão se torna diferente depois que essa informação existe.
Para a pecuária, sistemas produtivos precisam ser avaliados pelo que fazem e pelos resultados que conseguem demonstrar, começa no manejo, passa pela evidência e chega à decisão, somente depois é possível saber se aquela informação produz valor econômico, para quem o produz e sob quais condições.
Antes de discutir quanto vale conservar, portanto, é preciso melhorar nossa capacidade de demonstrar o que está sendo conservado e o que o manejo realmente está produzindo.
Pedro Puttini, autor do artigo, foi aprovado para participar do Nuffield Global Agribusiness Program 2027, aberto para apoio financeiro de empresas e interessados no projeto.
A pesquisa “Conservação e Produção em Terras Privadas: modelos de negócio e experiências internacionais para gerar valor integrando conservação e produção” pretende ampliar a investigação iniciada no Brasil por meio de um benchmark internacional sobre experiências que integrem conservação, produção e modelos de negócio, dando uso econômico para as áreas de reserva legal no Brasil.
Empresas e instituições interessadas em conhecer a pesquisa, compartilhar experiências ou conversar sobre formas de apoio ao projeto podem entrar em contato pelo e-mail pedroputtini.br@gmail.com
Informações sobre o programa estão disponíveis no site oficial da Nuffield International Farming Scholars, em https://www.nuffield.com.br/, e nas redes sociais da Nuffield Brasil: LinkedIn — https://www.linkedin.com/company/nuffield-brasil/home/ — e Instagram — https://www.instagram.com/nuffieldbrasil/.
Advogado (OAB/MS 16.518, OAB/SC 57.644), Consultor e Professor em Direito Agrário e Ambiental. Doutor em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Socioambiental pela Universidade do Estado de Santa Catarina (2025), Mestre em Desenvolvimento Local (2019) e Graduado em Direito (2008), ambos pela Universidade Católica Dom Bosco. É comentarista de Direito Agrário para o Canal Rural. Organizador e coautor de livros em direito agrário, ambiental e aplicado ao agronegócio. É membro fundador da União Brasileira da Advocacia Ambiental (UBAA) e membro das comissões ativo de comissões de Direito Ambiental e Direito Agrário da OAB desde 2013, tendo exercido a função de Presidente da Comissão de Assuntos Agrários e Agronegócio da OAB/MS (2013/2015).
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