• Quarta-feira, 22 de julho de 2026
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Reforma de pastagens pode elevar a produção e melhorar a margem da pecuária

A reforma de pastagens busca recuperar a capacidade da área de produzir forragem, sustentar mais animais e gerar receita. O investimento só faz sentido quando o ganho em arrobas por hectare compensa o custo de formação, manutenção e capital.


Foto por: Bela Magrela

Foto por: Bela Magrela

A reforma de pastagens busca recuperar a capacidade da área de produzir forragem, sustentar mais animais e gerar receita. O investimento só faz sentido quando o ganho em arrobas por hectare compensa o custo de formação, manutenção e capital.

Nem toda área fraca exige reforma completa. Pastos com cobertura vegetal preservada e boa população de plantas podem responder a ajuste de lotação, adubação, descanso e controle de invasoras. A reforma é indicada quando há solo exposto, falhas severas, erosão, compactação, invasoras persistentes ou baixa resposta ao manejo.

A diferença é econômica. A recuperação costuma exigir menos capital e menos tempo. A reforma pede correção do solo, preparo da área, sementes, adubação, cercas, água e um período de menor uso da pastagem.

Mais produção por hectare precisa virar margem. Um estudo da Embrapa Acre comparou uma unidade com pastagens biodiversas e manejo mais intensivo a uma fazenda modal de pecuária de corte, em Rio Branco. A unidade de referência produziu 12,1 arrobas por hectare ao ano, ante cerca de 7,7 arrobas na fazenda modal. O ganho foi de 57,0%.

A receita bruta da unidade mais intensiva chegou a R$2.893,30 por hectare. Na fazenda modal, foi de R$2.279,29. O lucro líquido atingiu R$230,84 por hectare, contra R$152,14 no sistema de menor produtividade.

O custeio anual, porém, foi maior na unidade intensiva: R$1.215,68 por hectare, ante R$862,27. A diferença estava na eficiência. O gasto com alimentação e suplementação caiu para R$22,54 por arroba produzida, enquanto a fazenda modal gastou R$53,54.

Os valores mostram que custo menor por hectare não significa maior resultado. A conta deve considerar produção, custo por arroba, receita, margem e capacidade de manter a fertilidade do solo.

Os dados foram calculados a preços de 2022. Eles não servem como orçamento pronto para outras regiões, mas mostram que a reforma pode elevar a margem quando vem acompanhada de manejo e controle de custos.

Manejo sustenta o investimento. A experiência do programa ABC Corte, da Embrapa, reforça esse ponto. Entre 2017 e 2024, o programa acompanhou 117 unidades de referência em Tocantins, Pará e Mato Grosso.

No início, as propriedades tinham produtividade média de 115,2 quilos de peso vivo por hectare ao ano. A lotação média era de 1,6 unidade animal por hectare. Havia pouca divisão de piquetes, baixa suplementação e falta de correção regular do solo.

A intervenção reuniu correção da fertilidade, aplicação média de 156,37 quilos de nitrogênio por hectare ao ano, divisão média dos módulos em oito piquetes, instalação de bebedouros, sombreamento e treinamento das equipes. A lotação média foi ajustada para 3,88 unidades animais por hectare.

Em 2024, a produtividade média alcançou 978,22 quilos de peso vivo por hectare ao ano. A margem bruta chegou a R$2.666,40 por hectare, com relação benefício-custo de 8,07.

O programa também estimou que cada hectare intensificado com sucesso reduziu a pressão sobre outros 4,04 hectares. O dado indica maior produção na mesma área, sem necessidade de abrir novas pastagens.

Esses números não devem ser tratados como resultado automático. As fazendas receberam acompanhamento técnico e adotaram mudanças no solo, no pasto, na infraestrutura e no manejo dos animais.

Reforma pode abrir espaço para novas receitas. A reforma também pode servir de base para sistemas integrados. Em estudo realizado no Cerrado, a integração lavoura-pecuária-floresta produziu 243,30 quilos de carne por hectare ao ano, além de 2.646 quilos de soja e 27,37 metros cúbicos de madeira por hectare ao ano.

Na pecuária extensiva usada como comparação, a produção foi de 188,85 quilos de carne por hectare ao ano. A diferença mostra que a reforma pode deixar de ser apenas um gasto de recuperação e passar a integrar uma estratégia de diversificação da renda.

Esse modelo exige escala, máquinas, mercado, gestão e planejamento. Não é adequado para toda propriedade. Em muitas fazendas, a melhor decisão será recuperar ou reformar o pasto para aumentar a produção de carne, sem incluir lavoura ou árvores.

Crédito e prazo de retorno entram na conta. O financiamento pode definir a viabilidade do projeto. Em um estudo sobre recuperação de dois hectares no Cerrado, com pecuária e baru, uma linha de crédito com juros de 6,0% ao ano, carência de oito anos e prazo total de 12 anos gerou resultado projetado de R$97,5 mil em 20 anos.

No mesmo projeto, o retorno total do capital ocorreu apenas no 17º ano. O exemplo mostra que carência e prazo de pagamento precisam acompanhar o tempo necessário para a área começar a gerar caixa. A reforma exige planejamento. O orçamento deve incluir análise e correção do solo, sementes, fertilizantes, máquinas, mão de obra, cercas, cochos, bebedouros, manutenção da fertilidade e perda temporária de produção durante a formação do pasto.

Antes da intervenção, a fazenda deve registrar sua situação atual. Lotação, produção por hectare, custo por arroba, gasto com suplementação e margem por hectare formam a linha de base para avaliar o resultado.

A reforma de pastagens não se resume a plantar capim. Ela reconstrói a capacidade produtiva da terra. Quando há diagnóstico correto, investimento compatível e manejo contínuo, a área pode produzir mais forragem, mais arrobas e melhor margem.

Gustavo Duprat

Engenheiro agrônomo, formado pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (ESALQ – USP), em Piracicaba/SP, com período de graduação no programa de intercâmbio BEPE - FAPESP na University of Minnesota (UMN), Estados Unidos, e formação complementar no VII Special Program on Tropical Biobased Production Systems, promovido pela ESALQ/USP. Atua como analista de mercado na equipe de inteligência de mercado da Scot Consultoria, no monitoramento e elaboração de análises setoriais sobre os mercados interno e externo de proteínas de origem animal (boi gordo, frango, ovos, suínos) e seus coprodutos, além dos mercados internos e externos de diferentes culturas agrícolas (amendoim, milho, soja, algodão, trigo, café, etc.), coprodutos e insumos agrícolas. Atua também na elaboração e produção de informativos e artigos técnicos para a Scot Consultoria.

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