A agropecuária brasileira dispõe de diversas opções para aumentar o carbono orgânico no solo, muitas delas de fácil adoção e altamente benéficas do ponto de vista produtivo.
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Neste espaço, no mês passado, relatei um importante trabalho brasileiro mostrando o potencial que temos nos solos dos nossos biomas como dreno de carbono (C). No próprio trabalho há exemplos de ações para aumentar o carbono orgânico do solo (COS), mas elas são apenas mencionadas e relacionadas com os resultados. O objetivo desta vez aqui é tentar elaborar um pouco mais as opções da nossa agropecuária que ajudam a aumentar COS, sendo a maior parte delas de relativa simples adoção e muito positivas do ponto de vista produtivo.
A maneira mais direta de aumentar o COS é a adubação orgânica. Em uma fazenda de pecuária de corte, o aproveitamento dos dejetos de um confinamento seria por excelência a melhor escolha, pela vantagem da circularidade. Afinal, o dejeto como adubo melhora a produção de alimento na fazenda que, consumido, tem uma parte retornando como dejeto, recomeçando o ciclo. Não faz sentido decidir fazer um confinamento com dejetos em mente. Em vez disso, a cabeça deve estar cheia de planos para a estruturação de um confinamento a ser usado como ferramenta estratégica para alavancar o sistema de produção da fazenda (redução da lotação das pastagens, redução do ciclo de engorda dos bovinos, produção de carcaças de melhor qualidade etc.). Os dejetos vêm como uma excelente vantagem adicional. Era comum, há muitos anos, comentarem que o valor do dejeto produzido em um confinamento seria suficiente para pagar seus custos com mão-de-obra. Na verdade, cada caso deve ser analisado individualmente, mas os dejetos têm se valorizado frente aos custos dos adubos químicos, e o reconhecimento que os benefícios ao sistema produtivo vão muito além de só substituírem os nutrientes da adubação química.
Assim, apesar de em geral a avaliação do valor do dejeto ser analisado pela equivalência dos seus teores de nitrogênio, fósforo e potássio em relação a usar adubação química com esses elementos, essa conta subestima muito as vantagens físicas da adubação orgânica e toda a contribuição com demais macro elementos e micro elementos minerais. O ideal, contudo, é que seja feito o processo de compostagem que aumenta a quantidade, estabiliza o material e, no processo, devido ao calor gerado na fermentação pode fazer um serviço de redução de problemas sanitários e de disseminação de pragas.
Para quem não tem confinamento é possível comprar adubo orgânico e uma das melhores opções é a cama de frango por ela poder estar, de certa forma, “pronta para uso”. Ela é interessante por ter concentrações maiores de nutrientes (em especial N) e manter as vantagens físicas de outras fontes de dejetos animais. Um alerta é que, como um dos ingredientes de ração de frango são farinhas de carne e ossos de bovinos – cujo consumo é proibido por conta do risco de ter o agente causal do “Mal da Vaca Louca” (Encefalopatia Espongiforme Bovina) –, ao se adubar o pasto deve-se mantê-lo livre de animais por 40 dias. Fazer esse vazio sanitário é uma recomendação expressa do Ministério da Agricultura. A adubação com cama de frango, então, pode ser feita em “dobradinha” para quem usa a estratégia do resgate (ou sequestro) de bovinos para resguardar as pastagens na entrada no retorno das chuvas. Nesse caso, o vazio sanitário coincidiria com o período de poupar o pasto, permitindo melhor rebrota. Exceto por um uso de quantidades muito grandes de cama de frango, que possam abafar a forragem, essa adubação deve ser mais um ponto positivo, ajudando a melhorar a rebrota.
Os sistemas de produção integrados entraram definitivamente na fazenda de pecuária de corte. São muitas as vantagens que levam à sua crescente adoção, como melhor aproveitamento da mão-de-obra e diversificação econômica, mas o aumento de produção da lavoura após a pecuária e da pecuária após a lavoura são os mais determinantes por afetar diretamente o resultado econômico. O aumento da produção agrícola está muito ligado às vantagens trazidas pela forragem ao solo. A pecuária, por seu lado, aproveita a adubação residual para um acúmulo de forragem de melhor qualidade que fica disponível quando os pastos têm baixo crescimento e a massa disponível é de tecidos velhos, lignificados, com baixo valor nutritivo. O “pasto safrinha”, depois da lavoura, permite desempenhos a pasto próximos ao das águas em plena seca.
Quando colocamos a lupa no que está acontecendo para que os sistemas integrados estejam sendo tão largamente adotados, fica evidente que há uma forte relação com o aumento de COS e seus benefícios: são os sistemas radiculares vigorosos das gramíneas forrageiras que permitem essa mágica. Isso não só por seu crescimento intenso e vigoroso, mas por ter a configuração fasciculada, em cabeleira, com “fios” copiosos e finos, que moldam a estrutura do solo em agregados menores e mais estáveis. Essa configuração ajuda também a criar caminhos para a água penetrar mais facilmente no solo. A água, encontrando um ambiente rico em COS, que têm maior capacidade de retenção hídrica, mantém-se no solo, favorecendo um balanço hídrico mais favorável e mais resiliente à perda de umidade quando há redução da chuva.
Há, inclusive, uma sugestão de pesquisadores da área de integração que seria mais interessante fazer modelos de integração em que o uso da área tivesse mais vezes repetidas de pastagem (2 a 3 anos) para potencializar os benefícios desse aumento de COS. Na prática, todavia, por questões econômicas, é mais usual a pastagem durar menos do que um ano no sistema.
Seja como for, um ponto importante é sempre usar a alternativa do plantio direto na palha. Aqui, o objetivo principal é evitar a perda de COS, pois um desafio no uso dessa via como fonte de sequestro de C é, exatamente, a facilidade com que a matéria orgânica (MO) pode ser oxidada e voltar à atmosfera como gás carbônico (CO2). Assim, deve-se sempre pensar em termos de manter o balanço para a fixação de C, usando opções que ajudem a incorporar C no solo e evitando perturbações (como o plantio tradicional) que se associam às perdas muito maiores de C.
Os cultivares de gramíneas tropicais disponíveis no Brasil tem grande potencial de produção de biomassa. O que nossos olhos veem é a parte aérea, mas não há como se ter alta produção sem um sistema radicular correspondente, ou seja, se a produção de forragem é alta, o sistema radicular tem que ser grande, também.
Se o manejo adotado respeitar as limitações quanto à altura de saída de cada cultivar, poderemos esperar a cada ciclo de rebaixamento e novo crescimento, o mesmo ocorrendo com relação às raízes: um ciclo de morte e renascimento destas que determina o acúmulo de COS e todos os efeitos positivos relacionados a isso e já mencionados acima (melhor agregação do solo, maior infiltração e retenção de água).
Em pastagens, a maneira mais simples de aumentar o COS é favorecendo um maior desenvolvimento das raízes pelo aumento do crescimento da parte aérea. É de se esperar, portanto, que colocar os animais no pasto no valor de altura máxima recomendada para a forragem e sair com uma altura maior do que a mínima, fazendo um pastejo menos severo, possa resultar na manutenção de um sistema radicular maior. Usar esta estratégia, portanto, representaria usar lotações mais leves, todavia essa menor produção no espaço é – pelo menos parcialmente – compensada por um ganho de peso individual maior, ou seja, chegamos com o lote mais pesado (o ganho ocorre na dimensão do tempo). A ideia, portanto, é conciliar maior desempenho com um aumento de COS.
O que faltou comentar é a importância do COS como agente de manutenção da fertilidade do solo, especialmente pela capacidade da matriz orgânica em reter os minerais, uma outra grande vantagem em aumentá-lo. Uma das características mais importantes do solo em relação à sua fertilidade é a capacidade de troca catiônica (CTC), que pode ser explicada com uma analogia em que solos com alta CTC teriam mais pontos de engate para reter minerais e deixá-los à disposição para serem absorvidos pelas raízes das plantas. O solo, mesmo sem MO, tem essa capacidade em função da sua composição e, neste particular, os solos argilosos têm um poder de reter minerais muito melhor do que os arenosos. Por isso que solos argilosos são mais ricos em nutrientes, e isso também a necessidade de se particionar mais as adubações em solos arenosos. Nos nossos solos tropicais, descobriu-se, contudo, que a CTC depende muito mais da MO do que da parte física: a estratégia do pastejo mais leniente, portanto, ao aumentar o COS, melhora também o potencial de fertilidade do solo.
O consórcio gramínea-leguminosa pode ajudar muito a aumentar COS por duas características interessantes: (i) a complementariedade dos sistemas radiculares das gramíneas e leguminosas e (ii) a capacidade da leguminosa estabelecer parceria com bactérias fixadoras de nitrogênio, promovendo a fixação biológica de nitrogênio (FBN).
No caso da primeira, apesar da gramínea eventualmente chegar a colocar raízes em profundidades medidas em alguns metros, a maior parte da sua exploração se concentra nas partes superiores, em centímetros (20-30 cm). A leguminosa, por sua vez, tem a raiz pivotante, sendo capaz de explorar nutrientes e água em maiores profundidades.
Já no caso da FBN, esse aporte de N reduz a relação Carbono: Nitrogênio, o que é mais favorável à ação da biota do solo para mineralizar os nutrientes, ou seja, deixar na forma inorgânica como são absorvidas pela planta (exemplo: N como amônia ou nitrato). Ao mesmo tempo, a relação C:N mais baixa melhora a atividade enzimática da microbiota do solo, com benefícios de esta mobilizar fósforo do solo, ajudando a nutrição da planta. Essas vantagens explicam a sinergia que faz com que a produção de biomassa no consórcio gramínea-leguminosa seja maior do que a produção solteira da mesma gramínea e mesma leguminosa (de 25,0% até 130,0%).
A maior biomassa, por sua vez, ajuda a melhorar o desempenho dos animais e a lotação. A parte não aproveitada no pastejo, por sua vez, vai senescer, formar uma camada de material morto sobre o solo (liteira) e, pela ação da microbiota do solo, ser incorporada como matéria orgânica do solo, aumentando o COS. Deixamos de fora aqui outras vantagens deste consórcio, como maior resiliência à seca e a possibilidade de prescindir de suplementos proteínas neste período.
Os bioinsumos estão sendo cada vez mais usados na agropecuária brasileira e podem ser grandes aliados para uma produção mais eficiente.
O Azospirillum brasilense é o microrganismo mais utilizado em pastagens no Brasil e, apesar de ele promover a FBN, o forte dele mesmo é aumentar muito o desenvolvimento das raízes, pelo aumento da produção de fitormônios da classe das auxinas. Um produto desenvolvido pela Embrapa, em parceria com uma empresa privada, usa o Azospirillum brasilense em parceria com outra bactéria, a Pseudomonas fluorescens, o que ajuda na solubilização de fósforo preso ao solo, com resultados muito positivos, conforme a lista abaixo:
• redução de custo com adubos;
• maiores produções agrícolas;
• mais biomassa de pastagem;
• melhora valor nutritivo pastagem.
Esses bioinsumos promovem maior produção de biomassa e ocorre o mesmo que foi descrito no item anterior para o uso do consórcio gramínea-leguminosa para aumentar a matéria orgânica do solo. Todavia, no caso dos bioinsumos que aumentam as raízes, há ainda mais aumento de COS e em maiores profundidades.
Todas as opções aqui destacadas podem ser incorporadas nos sistemas produtivos de pecuária no Brasil. O aumento na adoção delas pode ajudar bastante na sustentabilidade da produção agropecuária, uma vez que elas combinam uma maior eficiência de produção, que pode ajudar na questão de ser economicamente viável, com um maior sequestro de C, o que é ambientalmente desejável como forma de reduzir o balanço de emissão do setor. Essa contribuição ao meio ambiente é muito mais importante por ajudar a resolver um problema que ameaça a estabilidade do clima e, portanto, da própria existência da agropecuária, do que deixar o setor com uma imagem melhor para a sociedade.
Engenheiro agrônomo, formado pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, da Universidade de São Paulo, com mestrado e doutorado pela mesma universidade. É pesquisador da Embrapa Pecuária Sudeste e especialista em nutrição animal com enfoque nos seguintes temas: exigência e eficiência na produção animal, qualidade de produtos animais e soluções tecnológicas para produção sustentável. É membro do Conselho Científico Agro Sustentável (CCAS).
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