• Quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026
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Diferimento de pastagens – Estratégia básica para garantir disponibilidade de forragem para a estação da seca

Estar no período de chuvas não impede de se planejar para a estação em que estas estiverem ausentes.


Foto: Freepik

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Dia 21 de junho chegará à estação de inverno de 2026 no Hemisfério Sul e se você trabalha em regiões onde essa estação coincide com a estação da seca penso que o conteúdo desse artigo é do seu interesse. Sob as condições climáticas dessa estação a disponibilidade e a qualidade da forragem cairão gradativamente ao longo dela.

Mas hoje, nesse momento que estou escrevendo esse texto, ainda é 18 de fevereiro de 2026, portanto, quase quatro meses para chegar à estação de inverno. Não está muito distante? O período de chuvas ainda não chegou ao seu fim. Então por que se preocupar agora com a seca? De fato, eu afirmo que para a maioria das estratégias de conservação e transferência de forragem para a estação da seca, já está tarde. Entretanto, uma das estratégias para garantir pelo menos disponibilidade de forragem em um planejamento alimentar em sistemas de pastoris ainda está em tempo — é o diferimento de pastagens.

O diferimento, ou o protelamento da pastagem, é um método de pastoreio que consiste no descanso de uma parte da área de pastagens da propriedade antes do término do período chuvoso, com o objetivo de acumular e transferir a forragem que será consumida no período da seca. Este método é conhecido no meio pecuário como “a veda do pasto”, ou a “pastagem vedada” e a forragem acumulada como “feno em pé”.

Pode ser usado de forma combinada com outros métodos de pastoreio, tais como lotação contínua, lotação alternada e lotação rotativa, mas normalmente é usado em sistemas de baixa e média intensificação da produção.

O diferimento da pastagem em uma fazenda deve iniciar entre 60 e 120 dias antes de o fator climático, que determina a diminuição ou a paralisação do crescimento da pastagem, se estabelecer na região. Na maioria das regiões pecuárias do Brasil, aquele fator é o déficit hídrico causado pela diminuição e posterior interrupção das chuvas.

Outro parâmetro importante para determinar quando deve ser o início do diferimento das pastagens é o balanço entre quantidade de forragem que se deseja acumular e o seu valor nutritivo. Quanto mais cedo for feito o diferimento, em relação ao término das chuvas, maior será a quantidade de forragem acumulada, mas menor será o seu valor nutritivo, e vice-versa.

Pensando nas diferentes categorias animais de um rebanho, o diferimento entre 60 e 90 dias antes do seu pastejo seria mais indicado para animais jovens em crescimento, que exigem forragem com maior concentração de nutrientes e digestibilidade mais alta, enquanto que o diferimento entre 90 e 120 dias antes do seu uso seria mais para animais adultos que entrarem na seca com boa condição corporal, que precisam de maior quantidade de forragem, mas conseguem aproveitar melhor forragem de menor valor nutritivo.

Além da queda acentuada no valor nutritivo da forragem proveniente de pastagem diferida, as perdas de forragem por tombamento de plantas também são altas, já que a altura da planta fica maior e a estrutura desta muda para uma maior relação caule/folha com maior peso, condição que aumenta ainda mais as perdas de forragem.

As melhores espécies forrageiras para o diferimento da pastagem já pesquisadas, em ordem decrescente são: a Brachiaria decumbens, os cultivares de Brachiaria brizantha (Marandu, Paiaguás, Piatã), as gramas do gênero Cynodon (por exemplo, Tifton). Estas espécies forrageiras apresentam algumas características morfológicas e fisiológicas que favorece o seu uso em método de pastoreio diferido: maior proporção de folhas em relação a talos, talos finos (as Braquiárias e o Cynodon) e florescimento tardio (no caso do Braquiarão) ou não florescem (algumas variedades de Cynodon spp.).

No mês escolhido para o diferimento e nas pastagens que serão diferidas, deixar um lote de animais fazer um pastejo mais intenso com o objetivo de eliminar a forragem velha e morta que se acumulou na pastagem desde o início do período chuvoso. Forrageiras do gênero Cynodon devem ter sua altura rebaixada para 10 a 15 cm; a B. decumbens para 15 a 20 cm; o capim Braquiarão para 20 a 25 cm. Fazer o pastejo mais intenso com animais adultos que estiverem com boa condição corporal.

Em algumas situações é recomendada a aplicação de nitrogênio (50,0 kg a 100,0 kg de N/ha) e enxofre naquelas pastagens, logo após o rebaixamento do pasto e a saída dos animais. Estes nutrientes contribuirão para aumentar a longevidade das folhas, ou seja, fazer as folhas permanecerem verdes por mais tempo na seca, para prolongar o tempo de rebrota, mesmo na seca, aumentar a proporção de folhas e melhorar o valor nutritivo da forragem.

O planejamento do diferimento deve ser feito com o objetivo de acumular entre 3,0/t e 4,0/t de matéria seca/ha (MS/ha). Não se recomenda acumular mais massa de forragem para que a planta não fique muito alta e mais pesada – com maior proporção de talos –, condições estas que contribuem para o aumento das perdas de forragem por acamamento (tombamento de plantas) e para a redução do valor nutricional da forragem (redução na relação folha/caule, empobrecimento da composição química, aumento da deposição de fibra e redução na digestibilidade).

Em termos de proporção da área da propriedade que deve ser diferida, vai depender muito da taxa de lotação que se trabalha no período chuvoso e a taxa de lotação programada para o período da seca. É importante, dentro de um planejamento alimentar de uma propriedade, programar os descartes e vendas de animais ao mesmo tempo em que se faz o diferimento das pastagens, basicamente no período de transição chuva/seca.

Normalmente, para sistemas extensivos e semi-intensivos, o diferimento de 20,0% a 40,0% da área de pastagens da propriedade é recomendado.

A oferta de forragem é um parâmetro calculado com base em kg de matéria seca para cada 100,0 kg de peso corporal dos animais. O controle da oferta de forragem pelo manejador da pastagem possibilita aos animais maiores ou menor nível de seletividade da forragem disponível.

Como o valor nutritivo da forragem diferida não é alto recomenda-se que a oferta de forragem (kg de MS/100,0 kg de peso corporal) seja alta para permitir que o bovino exerça a seletividade das partes mais ricas da planta, que são as folhas, mesmo que secas, durante o ato de pastejo.

Em pastagens diferidas com alta oferta de forragem bovinos Nelore e cruzados conseguiram selecionar forragem com mais de 10,0% de proteína bruta, e mais de 60,0% de nutrientes digestíveis totais (NDT) a partir de forragem disponível, cuja composição tinha de 4,5% a 5,0% de proteína bruta e 45,0% de NDT.

O ideal é ofertar pelo menos quatro vezes a quantidade que o bovino consome, ou seja, 8,0 kg de MS/100,0 kg de peso corporal, se admitirmos que o consumo de forragem de qualidades baixa a média, será de 2,0 kg de MS/100,0 kg de peso corporal. Existe uma interação entre disponibilidade de forragem e taxa de lotação sobre o ganho de peso por bovino e por área.

Em um experimento com taxa de lotação de 1,4 UA/ha durante a seca, houve ganho de peso por bovino e por área, enquanto com 1,8 UA/ha houve perda de peso por bovino, com consequente perda por área. Uma pequena diferença de 0,4 UA/ha fez a disponibilidade de forragem cair de 3,200 kg de MS/ha para 2,400 kg de MS/ha no início da seca e reduzir o resíduo pós-pastejo de 1,400 kg para 1,000 kg de MS/ha, no final da seca. A menor disponibilidade de forragem resultou em menor oferta de forragem, com consequente redução na capacidade do bovino selecionar uma dieta de maior valor nutritivo.

A forragem que se acumula em pastagens diferidas tem seu valor nutritivo reduzido e desse modo, mesmo tendo alta disponibilidade de forragem é preciso suplementar os bovinos com os nutrientes deficientes na forragem.

No período da seca, o nível de proteína bruta está abaixo daqueles 7,0% mínimos exigidos para a manutenção do peso de bovinos e no período de transição seca-água este nível só é possível para manter o peso corporal. Desse modo, se for desejado ganho de peso é preciso suplementar os animais com suplementos ricos em proteína degradada no rúmen, tais como suplementos que usam ureia e farelos proteicos. Mas a suplementação bovina em pasto será tema de outros artigos.

Adilson de Paula Almeida Aguiar

Zootecnista, professor em cursos de pós-graduação nas Faculdades REHAGRO, na Faculdade de Gestão e Inovação (FGI) e nas Faculdades Associadas de Uberaba (FAZU); Consultor Associado da CONSUPEC - Consultoria e Planejamento Pecuário Ltda; Investidor nas atividades de pecuária de corte e de leite.

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