Hong Kong faz parte da China do ponto de vista político, mas seu papel no comércio internacional de alimentos é singular.
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Artigo originalmente publicado no Broadcast Agro.
A ex - cidade estado, Hong Kong, opera como um território aduaneiro, sanitário e tarifário independente, com regras próprias de importação, alfândega e habilitação de fornecedores. Essa condição confere a ela uma função estratégica para o abastecimento chinês, especialmente no mercado de proteínas animais.
Na prática, Hong Kong é uma espécie de válvula de segurança do sistema de importação da China. Quando Pequim impõe restrições sanitárias, suspensões de plantas frigoríficas ou medidas comerciais contra determinados países — muitas vezes associadas a tensões diplomáticas —, o fluxo direto para a China continental pode ser interrompido ou reduzido.
Nesses momentos, Hong Kong permite que o produto continue entrando no ecossistema chinês por uma rota paralela, porém legal. Ao aceitar uma gama mais ampla de plantas e protocolos sanitários do que a China continental, Hong Kong absorve volumes relevantes de carne bovina, suína e de aves.
Parte desse produto é consumida localmente, e uma parcela expressiva é estocada, redirecionada e reexportada para a China por meio de traders, importadores e canais alfandegários regulares, quando as condições de mercado e de liberação sanitária se tornam favoráveis.
O licenciamento de importadores, habilitação de plantas frigoríficas, regras sanitárias, tarifas e até mesmo procedimentos alfandegários, são realizados pela Centre for Food Safety (CFS) e pela Hong Kong Customs, e não pela General Administration of Customs of China (GACC) como é na China continental. O que pode, por exemplo habilitar um frigorífico para China e não para Hong Kong, ou vice-versa.
Esse mecanismo oferece à China três vantagens. Primeiro, preserva o abastecimento interno mesmo em períodos de atrito político ou sanitário. Segundo, reduz a exposição diplomática, pois permite continuar comprando de um país sem registrar oficialmente uma importação direta. Terceiro, cria uma ferramenta de gestão de preços e estoques, já que Hong Kong, como porto franco, permite armazenagem e arbitragem de volumes em função da demanda chinesa.
Do ponto de vista estatístico, isso gera uma distorção relevante.
As exportações brasileiras destinadas a Hong Kong aparecem como vendas a um mercado separado, enquanto uma parcela substancial, entre 30,0% e 60,0% desse volume, acaba, na prática, sendo consumida pela China continental.
Assim, Hong Kong não deve ser interpretado apenas como um mercado final, mas como um componente estrutural da cadeia de suprimento chinesa. Uma espécie de hub logístico.
Quando a China precisa pressionar um país, ela pode reduzir compras diretas, mas ainda assim manter a entrada via Hong Kong. Garantindo a aparência política de cada uma das situações, mesmo que, em alguns casos, com volumes adquiridos menores ou repassados em escalas alongadas.
Em síntese, Hong Kong é um amortecedor logístico, sanitário e político da China no comércio internacional de alimentos. Em momentos de normalidade, complementa o fluxo direto; em momentos de tensão, é uma válvula de entrada para garantir que o consumo chinês não sofra rupturas.
Engenheiro agrônomo, formado pela FCAV/Unesp, Jaboticabal/SP. Atua na área de ciências agrárias, análises e consultoria de mercados agropecuários. Analista de mercado, com elaboração e realização de análises setoriais e pesquisas nos mercados do boi, carne e mercados internacionais, com enfoque para commodities agrícolas. Técnico da pesquisa-expedicionária “Confina Brasil” e coordenador da equipe de mídias sociais da Scot Consultoria
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