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Scot Consultoria

Ter vaca velha é dar sopa pro azar!


Segunda-feira, 25 de outubro de 2021 - 12h00

Médico veterinário pela Universidade de São Paulo, com mestrado em Patologia Clínica pela Universidade Federal de Minas Gerais e doutorado em Parasitologia pela Universidade de São Paulo. É professor titular do departamento de clínica médica pela FMVZ-USP


Foto: Scot Consultoria

 


Artigo originalmente publicado na revista DBO de outubro de 2021.


Os dois recentes casos “atípicos” de vaca louca, chamada cientificamente de encefalopatia espongiforme bovina (EEB), fazem parte dos cinco, até agora, notificados pelo MAPA, que só ocorreram em vacas velhas (11 a 17 anos) e de corte. Na EEB atípica existe mutação espontânea de uma proteína do organismo, chamada de príon, que modifica sua estrutura química e leva as células nervosas a multiplicá-la sem parar, matando o animal.


A EEB tradicional, que dizimou milhares de bovinos na terra do Big Ben, atingiu boiadas acima de três anos e se originou a partir da ingestão desses príons alterados, presentes em farinha de carne e de ossos. Você irá se espantar, mas pra’quelas bandas, permitia-se fazer essa farinha com bovinos recém-mortos ou semimortos, coletados por um tipo de agente funerário bovino. Tudo começou com um animal que tinha EEB atípica e virou ração. Com o aumento do número de casos, cujos bois também viraram farinha, a doença tomou proporção alarmante. Dez anos mais tarde, o problema atingiu uma centena de seres humanos que consumiram cérebro, medula e baço contaminados, presentes em alguns subprodutos cárneos.


Lição não aprendida

Toda ação desencadeia uma reação. Um único caso atípico, no Brasil, em 2019, levou muitos importadores e frigoríficos a pararem temporariamente as compras, o que gerou queda de 4% na arroba. A inadvertência de alguns pecuaristas, e quiçá de alguns frigoríficos, de comercializar vacas muito velhas trouxe um prejuízo para toda a cadeia pecuária. O problema é que a lição não foi aprendida, pois outra com EEB atípica foi detectada no mesmo frigorífico de Nova Canaã do Norte (MT) em 2021. Uma lástima!


Já escrevi em minha coluna sobre o risco de se ter e comercializar vacas velhas. Nem sempre a sanidade de um rebanho anda na mesma direção do melhoramento animal. Há muito, os melhoristas “vendem o peixe” de seleção de vacas para longevidade. Essa seleção é sedutora para o pecuarista, que, assim, pode gastar menos com a renovação de seu plantel e de quebra vender novilhas para abate. Aparentemente, só sai no lucro, mas nem sempre é assim. Examinando vacas de boas propriedades encontrei reses com até 18 anos de idade, já com os dentes caducos. Uma pergunta que não quer calar é: “Por que elas ainda estavam no rebanho?” Enquadrei as respostas fornecidas pelos pecuaristas em duas categorias: uma emocional (essa vaca já me deu bons bezerros) e outra aparentemente técnica (essa linhagem me foi vendida como a que tem alta longevidade).


Vaca velha produz menos

Vamos aos fatos. Muitas pesquisas foram feitas com vacas de corte no Brasil, com semelhantes resultados. Iniciemos a avaliação das vacas por seus produtos, ou seja, suas crias. Se colocarmos num gráfico o peso médio dos bezerros ao nascimento e a idade da vaca, teremos uma figura parecida com um gancho voltado para cima. As novilhas e fêmeas até o segundo gestação parem bezerros mais leves, atingindo peso máximo no quarto/quinto partos e caindo a partir daí. Bezerros nascidos com peso adequado (machos: 29-34 kg; fêmeas: 27-31 kg) morrem menos do que a bezerrada mais leve ou excessivamente pesada. Assim, a mortalidade de bezerros triplica em novilhas e duplica em vacas com mais de 10 anos, em relação às fêmeas com idades intermediárias.


O peso à desmama se comporta semelhantemente ao peso no nascimento. O bezerro das fêmeas até o segundo parto é desmamado mais leve, atingindo o alto da montanha em vacas com sete/oito anos de idade e descendo a ladeira a partir daí. “Elementar meu caro Watson”, como dizia Sherlock Holmes. Existe uma enorme relação entre esse peso e a produção de leite da fêmea. Novilhas produzem bem menos leite do que vacas de segunda/terceira crias, chegando ao pico na quinta/sexta lactações e declinando em vacas com 10 anos ou mais.


A qualidade do leite (teor de proteína) e a persistência de sua produção, no decorrer da lactação, também minguam aos poucos em fêmeas velhuscas, comparativamente a fêmeas em seu esplendor. A idade também interfere na fertilidade da vacada. Um trabalho com reprodutoras Nelore comparou a taxa de prenhez numa estação de monta, em fêmeas com o mesmo escore corporal (EC=3). A novilhada ficou na casa dos 65 %; vacas com 6 a 8 anos, atingiram pujantes 85% e vacas acima de 10 anos retornaram ao patamar das novilhas.


Mais risco de doenças

Felizmente, a produtividade da pecuária de corte melhorou a partir de 1990. Mas, temos muito que evoluir. Mire-se no exemplo das melhores propriedades leiteiras. Em décadas passadas, as vacas eram ordenhadas até a 10ª lactação, cuja produção láctea é 40 % inferior à da 4ª lactação. Porém, agora visando a máxima eficiência, as fazendas “top” descartam todas as fêmeas no final 4ª lactação. A decisão deles é corretíssima! Por que não seguimos o exemplo? Um estudo brazuca, num grande rebanho de cria, recria e engorda, identificou as maiores mortalidades anuais em relação à idade. As duas mais afetadas foram a bezerrada até a desmama (9%) e as vacas acima de 10 anos (6%).


O envelhecimento aumenta muito o risco de surgimento de doenças, quer sejam elas infecciosas, tumorais ou degenerativas. Comecemos com a EEB atípica. O número de casos descritos no mundo é pequeno (43 no total: cinco em animais de 4 a 8 anos; 12, em bovinos de 9 a 11 anos, e 26 com 12 anos ou mais), pois muitos países omitem ou nem fazem testes em massa. No maior levantamento feito até agora, na terra da Torre Eiffel, com 7,1 milhões de bovinos adultos (3,6 milhões com oito anos ou mais) estimou-se que ocorram 0,76 e 3,6 casos para cada milhão de bovinos com até ou mais de oito anos, respectivamente. Imagine se essa estimativa fosse feita acima de 11 anos. A maioria desses animais morrem caídos e tristonhos na fazenda, porém alguns poucos chegam aos matadouros.


No Brasil, temos, por baixo, 8 milhões de vacas ou touros de corte com 12 ou mais anos, ou seja, uns 4,6 % da população bovina. Como dito no começo do artigo, todas as vacas com EEB achadas no Brasil eram velhinhas “para dar com pau”. Por que elas foram parar nos frigoríficos, colocando em risco a pecuária? Vacas com mais de 10 anos têm uma menor produção e persistência de anticorpos quando vacinadas (vide a 3ª dose da vacina contra COVID em pessoas com mais de 60 anos), além de terem seus mecanismos de defesa menos “engraxados”. Elas passam a ser vítimas de doenças crônicas, como a tuberculose. Falando no diabo, dados de dois grandes frigoríficos mineiros identificaram que a frequência de tuberculose chega a triplicar em vacas velhas em relação a boiadinha nova.


Sugestão é antecipar descarte

Os cânceres atingem pra valer as vacas velhas. Eis os mais importantes: câncer da bexiga, que faz a vaca urinar sangue, câncer da garganta, que dificulta o pastoreio (ambos causados pela ingestão prolongada e contínua de samambaia) e leucose, que é um tipo de leucemia causado por um vírus. Um estudo gaúcho, com 45 anos de duração, constatou que 62% dos tumores da garganta, 40% dos da bexiga e 28% dos do sangue foram achados em vacas com mais de oito anos. No matadouro esses animais vão para a graxaria e viram “sabão”. Um prejuízo!


Dentre as doenças degenerativas, destacam-se os problemas nas juntas, em especial da bacia e das pernas traseiras. Bovinos acima de oito anos vão perdendo aos poucos a cartilagem, que protegem a extremidade dos ossos nessas juntas, provocando desgaste no local ou a formação extra de osso (veja fotos), gerando dor e fazendo com que os animais andem e comam menos. Triste né!


Figura 1. Cabeça de fêmur normal, recoberta de cartilagem, e o de uma vaca velha, já com perda dessa cartilagem.



Fonte: Leon Prozesky


Figura 2. Ossos da articulação do joelho com formação extra de osso, que causa dor e dificuldade de locomoção. Mais um motivo para se descartar animais com mais de 10 anos.



Fonte: Prof. José Diomedes Barbosa


Poder-se-ia falar muito mais dos efeitos negativos do envelhecimento bovino, mas frente ao exposto, eu aproveito para fazer duas sugestões para o MAPA e as secretarias de Defesa Animal: que as guias de vacinação e de GTA, contenham no item idade (atualmente, só animais com mais de 36 meses) as categorias de três a oito anos e mais de 8 anos. E que só sejam abatidos bovinos com até 11 anos de idade (com dois anos de carência, a partir da regulamentação), evitando-se assim grandemente o risco de EEB atípica e sobressaltos no seu bolso. Sem coragem e planejamento não avançaremos. Com a palavra, agora, as autoridades!



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