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Scot Consultoria

Capins infestantes da pastagem - parte I


Terça-feira, 14 de maio de 2019 - 05h55

por Adilson de Paula Almeida Aguiar

Zootecnista, professor de Forragicultura e Nutrição Animal no curso de Agronomia e de Forragicultura e de Pastagens e Plantas Forrageiras no curso de Zootecnia das Faculdades Associadas de Uberaba (FAZU); Consultor Associado da CONSUPEC - Consultoria e Planejamento Pecuário Ltda; investidor nas atividades de pecuária de corte e de leite.


Foto: Scot Consultoria


Existem várias gramíneas ou capins infestantes de pastagens no Brasil, mas os que têm trazido maiores prejuízos à pecuária são os capins annoni (Eragrostis plana), o barba-de-paca, ou BM, ou capeta, ou cortisia, ou de Luca, ou mourão (Sporobolus indicus) e o capivara, ou cabeçudo, ou navalha, navalhão, ou taripuco, ou tiriricão  (Paspalum virgatum). 


Além destes que atualmente são os que mais preocupam os produtores, ainda tem os capins rabo-de-burro, ou bezerra, ou peba, ou vassoura (Andropogon bicornis) e o amargoso (Digitaria insularis). 


Destes dois últimos, o capim-amargoso tem apresentado nos últimos anos um potencial muito grande de disseminação pelas pastagens do país e se tornado um sério problema no futuro como são hoje os capins capeta e o navalha. 


Nos campos sulinos, principalmente no Bioma Pampa, no Rio Grande do Sul, predomina o capim-annoni (Região Sul); enquanto o capim-navalha é mais encontrado nos Biomas Amazônico (norte da Região Centro Oeste e na Região Norte) e Mata Atlântica (parte leste das Regiões Nordeste e Sudeste), e o capim-capeta é encontrado nos Biomas Amazônico (norte da Região Centro Oeste e na Região Norte), Cerrado (Regiões Centro-Oeste, oeste da região Nordeste, Sudeste etc), Mata Atlântica (parte leste das Regiões Nordeste e Sudeste) e Pantanal (no Mato Grosso e no Mato Grosso do Sul).


As áreas de pastagens mais infestadas atualmente pelos capins invasores são a faixa litorânea da Região Nordeste (Bioma Mata Atlântica), o vale do Araguaia nos Estados de Goiás, Mato Grosso e Tocantins; e toda a Região Norte.


Eu digo que quase nada é novo na pecuária, nem as soluções e nem os problemas. Eu tive que começar a estudar e a pesquisar sobre estes capins invasores em 1997, primeiro na região pastoril de Itapetinga, leste da Bahia, região de Bioma Mata Atlântica. Lá já tinham pastagens infestadas pelos capins, capeta, conhecido lá por BM, e o navalha, conhecido lá por cabeçudo e tiriricão. Ainda em 1997, em Curionópolis, na região sul do Pará, em Bioma Amazônico, eu encontrei estes capins infestando pastagens. Quando comecei a estudar estas plantas encontrei experimentos avaliando herbicidas para o controle do capim-capeta na década de 70 em Minas Gerais, e do capim-navalha desde a década de 80, na Austrália e Cuba, e de 90, na África e no Brasil.


Na Austrália existe um programa nacional de manejo integrado do capim-capeta suportado pelo governo (empresas de pesquisas, universidades) em parceria com a iniciativa privada (associações de produtores).


No país, esta planta infestante é classificada numa classe de alto risco e alto prejuízo econômico e social para o país (Classe 2. Em algumas regiões já estava nas classes 3 e 4), já que em 2007 tinha um potencial de infestar 30% da área de pastagens da Austrália, que possuía à época a maior área de pastagens do mundo.


Naquele ano, 450 mil hectares apenas nos Estados de Queensland e New South Wales, já estavam infestados por este capim, com potencial de infestar 60% do território do Estado de Queensland. Ao iniciar a infestação em uma propriedade o produtor é obrigado a avisar aos órgãos do governo. Então um especialista vai até a fazenda para identificar e classificar se de fato é o capim-capeta. E se for orientar o seu manejo e controle. 


Então, a infestação de pastagens por estes capins infestantes não é um problema particular da pecuária brasileira. No gênero do capim-navalha, Paspalum sp, existem 400 espécies espalhadas pelas regiões tropicais e subtropicais do mundo, sendo que no Brasil já foram catalogadas 220 espécies, enquanto no gênero do capim-capeta, Sporobolus sp, tem mais de 160 espécies espalhadas pelo mundo, tanto em regiões tropicais e subtropicais, mas também nas temperadas, sendo que no Brasil já foram catalogadas 28 espécies. A espécie Sporobolus indicus é nativa da Índia e no Brasil chegaram duas variedades, a indicus e a pyramidalis. Esta espécie é encontrada infestando margens das rodovias, terrenos baldios, parques, áreas nativas, agrícolas e de pastagens pelo mundo afora. Já a espécie Paspalum vigartum é nativa das Américas Central e do Sul.


Como a maioria das plantas infestantes que têm alta capacidade de colonização de áreas agrícolas e de pastagens, os capins infestantes aqui tratados apresentam as seguintes características:


- São ecotipos (nativas ou naturais) ou naturalizadas (não são nativas, são exóticas, como o capim-capeta, mas se adaptam muito bem à uma nova região que possui condições ambientais semelhantes àquelas da sua região de origem). Ou seja, se adaptam muito bem às condições restritivas do ambiente (clima, solo). O capim-capeta é muito tolerante à seca. O capim-navalha adapta-se muito bem a solos mal drenados, enquanto o capim-capeta adapta-se bem a solos compactados e ressecados, rasos, com pedregosidade e cascalho. Ambos se adaptam bem a solos de baixa fertilidade. São tolerantes a estresse bióticos (pragas e doenças) e ao fogo;


- Florescem, frutificam e produzem sementes ao longo de todo o ano ou ao longo de quase todo o ano;


- Produzem grandes quantidades de sementes. Por exemplo, uma planta adulta de capim-navalha produz entre 8 mil a 15 mil sementes por ano, enquanto uma planta adulta de capim-capeta produz entre 45 mil a 200 mil sementes por ano;


- As sementes têm uma longevidade muito grande. Para as sementes destes dois capins infestantes foi encontrada mais de 75% de viabilidade das sementes mesmo 10 a 11 anos após a sua produção. Por isso o banco de sementes de capim-capeta pode atingir 20 mil sementes por metro quadrado.


- As sementes lançadas ao solo em um ano não germinam uniformemente. São várias gerações de novas plantas provenientes da germinação de sementes ao longo de muitos anos, o que dificulta grandemente o seu controle; 


- As sementes por serem muito leves são facilmente dispersadas pelo vento, pelas águas das chuvas, nos pelos e cascos dos animais. No caso das sementes do capim-navalha estas são consumidas pelos animais e dispersadas pelas suas fezes. Ainda são dispersas nos pneus, rodas, lataria, radiador, e etc. de máquinas e veículos, em engrenagens e discos de implementos e máquinas; nas roupas e calçados de quem passa pelas pastagens infestadas. As sementes do capim-capeta são envolvidas por uma muscilagem, que é um composto pegajoso, viscoso que em presença de umidade (orvalho e água de chuvas) adere a tudo onde elas caem e se fixam, facilitando a sua dispersão;


- São pouco aceitas ou nem são aceitas pelos herbívoros. O capim-navalha ainda é aceito no estádio vegetativo, após sua roçada ou queima, enquanto o capim-capeta praticamente não é consumido pelos animais. Possuem valor nutritivo muito baixo, porque são pobres em nutrientes (na forragem de capim capeta foi encontrado teores de proteína bruta de 5,5 e 4,0% nos estádios, vegetativo e de florescimento, respectivamente), e muito fibrosos, portanto, de baixa digestibilidade.  Então crescem livremente e completam seu ciclo de vida florescendo e frutificando;


Eu considero que no Brasil tem havido negligência em relação ao potencial de prejuízo destes capins invasores por parte dos vários elos da cadeia da pecuária: pesquisa, ensino, indústria de herbicidas, técnicos e principalmente os produtores.


Não conheço um levantamento que quantifique a área infestada por estes capins infestantes, em hectares ou em porcentual. Também não conheço uma metodologia especifica para quantificar o nível de dano causado pela infestação da pastagem por plantas infestantes gramíneas, ou capins. De fato, todo o conhecimento que se tem acumulado no Brasil sobre área infestada, nível de dano, etc., está baseado no manejo e controle de plantas infestantes de folhas largas (latifoliadas).


Independentemente do tipo de planta infestante em sequência ocorre: diminuição na produção de forragem > diminuição na capacidade de suporte > diminuição da qualidade da forragem > diminuição do desempenho animal > diminuição na produtividade por hectare > redução na receita. Se a planta infestante for tóxica ainda traz o prejuízo pela intoxicação e morte de animais, mas os capins invasores dos quais estamos tratando nesta matéria não são tóxicos, ainda bem.


Em nível baixo de infestação a redução na produção de forragem pode alcançar 30%; em nível médio entre 30 e 55%, em nível alto entre 55 e 70% e em nível muito alto pode alcançar redução de até 100%.


Ao mesmo tempo ocorre aumento nos custos de produção na tentativa de controlar as plantas infestantes e desvalorização da propriedade.


Na segunda parte deste artigo tratarei dos métodos para seu manejo e controle – aguardem.







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