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Mulheres corajosas: pecuaristas que estão na atividade há décadas!


Quinta-feira, 9 de maio de 2019 - 15h00

por Mariane Crespolini

Graduada em Gestão Ambiental pela ESALQ/USP, mestre e doutoranda em desenvolvimento econômico pela Unicamp. Pecuarista em Mato Grosso. Pesquisadora, consultora e palestrante em temas relacionados à economia.


Foto: Mariane Crespolini


Será que, como eu, você tem a impressão que a moda da vez é a “Agro Mulher” “Mulher do Agro”, “Mulheres da Pecuária”? Eu acho estes movimentos superpositivos e faço parte de alguns grupos, inclusive. Mas eu sempre reflito sobre a coragem de mulheres, que como minha mãe¹, estão há mais tempo na atividade, quando não tinha todo este movimento e apoio.


Como será que foi para essas mulheres que estão há anos na atividade entrarem em um setor onde a maior parte dos proprietários e funcionários eram homens? O que essas mulheres têm a nos ensinar? No início deste mês, fiz uma palestra para o Núcleo Feminino da Pecuária Goiana (NFPGO) e encontrei a resposta desta pergunta!


Sobre o encontro e o Núcleo Feminino da Pecuária Goiana – Como que o grupo começou? Nas palavras de Janaína Flor, liderança do NFPGO, “O núcleo surgiu em uma primeira reunião, onde eu e algumas produtoras observamos que nós éramos ‘muitas’, mas nós não nos conhecíamos. Começamos então a fazer um trabalho de formiguinha, convidando a vizinha, ou a amiga da amiga que tinha propriedade e que não sabia que existia mais mulheres na atividade”.


O trabalho de formiguinha que começou em outubro de 2016 é hoje um grupo de 205 mulheres. A troca de informações acontece diariamente no Whats App e, uma vez por mês, elas se reúnem presencialmente. E foi assim, indo fazer uma palestra no encontro mensal, que eu as conheci!


O desenho deste encontro mensal ocorreu porque, nas palavras de Janaína, “A mulher tem muita dificuldade de ter informação técnica. Ela se sente isolada, dentro de um universo ainda muito masculino. Então uma vez por mês o Núcleo se reúne para falar tecnicamente sobre um assunto específico. Já falamos sobre pastagem, calendário nutricional e sanitário, tecnologia, e mercado, entre muitos outros assuntos”.


Os depoimentos e a história da Claudinha


Além do assunto técnico, o encontro é emocionante pois as mulheres contam as suas histórias, desafios e superações. No encontro que participei, pude ouvir o depoimento da Cláudia Rocha Do Val. Uma história que merece e deve ser compartilhada pelos quatro cantos.


A Claudinha, como é conhecida, sofreu um acidente de carro há 20 anos atrás. Neste acidente, seu marido veio a falecer e ela ficou paraplégica. Sobreviveu por Deus. E, após se recuperar do acidente, com duas filhas, uma de dois anos e outra de cinco, assumiu a fazenda! Ela, de cadeira de rodas, ia (e continua indo) para o curral. Você pode imaginar o que foi isso há 20 anos atrás?


Eu fico imaginando quantos “por que você não vende a fazenda” a Claudinha não ouviu na vida. Nas palavras dela “o maior agravante era eu não conhecer nada sobre pecuária, nada sobre agronegócio. Eu sempre fui muito urbana, trabalhei como bancária. Então, eu estava muito distante dessa realidade. Além disso, não podia andar em um cavalo”. E como veio a superação? De acordo com ela, foi com muita determinação, com muita força e também com o apoio e auxílio de “todos os lados”. Foi isso que fez com que ela ultrapassasse as barreiras.


Quando questionada sobre a resistência às mulheres no campo, Claudinha tem uma opinião diferenciada. Para ela, como os atuais funcionários crescendo vendo suas mães também como profissionais, eles têm uma mentalidade diferente do que era há 20 anos atrás. Para ela, já existe muito respeito no campo, e que a conquista do espaço tem sido resultado da liderança e competência que as mulheres estão construindo, e não pela questão de gênero.


E do ponto de vista de produtividade? Claudinha assumiu uma fazenda que terminava o gado a pasto com mais de quatro anos. Hoje, sua propriedade de sistema de Ciclo Completo termina o gado com menos de três anos, em confinamento. Indicadores de produtividade super elevados.


Outras histórias que me tocaram

Seria impossível eu contar aqui, em poucas palavras, e reproduzir com a emoção que senti o relato de outras mulheres. Mas, alguns fatos me chamaram a atenção.


Algumas mulheres do grupo, já estão com o processo de sucessão ocorrendo e não encontram resistência dos seus familiares. Entre todas as históricas que ouvi, todas as que querem continuar na atividade tem um relato positivo da infância no campo. Falei um pouco sobre isso neste texto.  


Porém, ainda é grande o número de mulheres que enfrenta resistência. Algo que me chamou a atenção e que refletimos juntas foi a questão das “mães machistas”. Mães que não querem que as filhas fiquem no agro. Acho que isto daria uma tese de doutorado em psicologia, porém, além dos aspectos desafiadores e da resistência, é importante ponderar que talvez, muitas dessas mães têm na verdade medo que as filhas sofram o que elas sofreram por serem mulheres.


Afinal, então, o que estas mulheres têm a nos ensinar?
O encontro com o NFPGO, me mostrou que, mulheres que estão na atividade há décadas, conquistaram seu sucesso por competência e especialmente por coragem – o que fez me lembrar muito os livros do Tejon². Com certeza, não é fácil. Ainda existe muita resistência, mas com coragem a mulher tem conquistado seu espaço.


Além da coragem –
A coragem é fundamental, mas há outros fatores envolvidos no sucesso da mulher do agro. Um deles é a união, a troca de experiência e inspiração com outras mulheres – é o trabalho que o NFPGO tem desenvolvido. Certamente, quando eu enfrentar uma dificuldade, vou lembrar da Claudinha e tê-la como exemplo.


Outro fator é o apoio das pessoas da família, dos profissionais que trabalham junto e também de empresas parceiras. Neste sentido, gostaria de agradecer à DSM, detentora da marca Tortuga, por proporcionar o meu encontro com o NFPGO. A empresa também tem um programa muito legal e diferenciado de apoio à diversidade de gênero. Cada vez que participo de um encontro promovido por eles, encontro uma nova mulher sendo contratada, inclusive para funções de campo, como na área de assistência técnica ao produtor. Ainda são poucas, mas com participação crescente mês após mês!



¹ Em meados dos anos 90, e por muitos anos a frente, minha mãe tocou sozinha toda a nossa produção rural – enquanto isso, meu pai trabalhava fora. Passava o dia sozinha na propriedade, sempre motivada a trabalhar para estudar meus irmãos e eu.


² Muito conhecido no Agro e com um currículo brilhante, José Luiz Tejon Megido tem vários livros superinteressantes. Eu adoro “guerreiros não nascem prontos”, onde ele, também pela sua história de vida, afirma que temos que ter coragem para enfrentar a vida e os desafios.


 


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