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Segunda-feira, 27 de agosto de 2018 - 05h45

por Sergio Raposo de Medeiros

Engenheiro agrônomo, formado pela Escola Superior de Agricultura Luiz Queiroz, da Universidade de São Paulo, com mestrado e doutorado pela mesma universidade. É pesquisador da Embrapa Pecuária Sudeste e especialista em nutrição animal com enfoque nos seguintes temas: exigência e eficiência na produção animal, qualidade de produtos animais e soluções tecnológicas para produção sustentável.


Foto: DSM


No nosso meio rural, especialmente entre quem está diretamente ligado ao dia a dia da produção, há ainda muita gente que prefere acreditar nos negacionistas das mudanças climáticas do que seguir a bússola da ciência.


Hoje, todas as principais universidades e instituições científicas que trabalham na produção animal tem robustas linhas de pesquisa sobre o tema. No caso das pesquisas no Brasil, inclusive com várias boas notícias.


Os negacionistas vão raleando, à medida que fica cada vez mais insustentável negar os efeitos das mudanças climáticas. Aqui vale a pena esclarecer que, para os cientistas sérios envolvidos com o tema, não é qualquer ocorrência que é classificada como inequivocamente relacionado às mudanças. Por exemplo, o quase colapso da represa de Cantareira em São Paulo em 2014-2015 não o foi, mas as secas recorrentes na Amazônia, que ocorreram à mesma época, sim. São usados critérios rigorosos para fazer essa triagem.


Os negacionistas, ao contrário, se apegam a qualquer evidência que lhes ofereça algum respiro e negam todas as evidências que os contrariem. Por exemplo, os registros de temperatura terrestres testemunham que o mundo vem aquecendo rapidamente nas últimas décadas, mas há dados de satélites que mostrariam uma parada de aquecimento por alguns anos, fato que faz os negacionistas se apegarem a essa informação com unhas e dentes.   


Para entender essa questão é interessante fazer uma analogia: Digamos que você, caro leitor, estivesse doente de cama e dois médicos estivessem o atendendo. O primeiro mediu sua temperatura com um termómetro convencional sob sua axila e você estaria com 42ºC, confirmando sua febre e receitando um antitérmico. O segundo, mede de longe com um termômetro a laser e o display mostra 36ºC. Ele diz que você está bem e manda sair da cama. Detalhando sua situação, você estaria com o rosto bem avermelhado, a testa porejada e sentindo calafrios. Se você tivesse que optar apenas por um dos médicos, por qual você optaria?


Logicamente a opção deve ser pelo que usou o termômetro convencional, simplesmente porque o quadro geral mostra que você estaria com febre e, assim, a medida com o laser OBVIAMENTE está subestimada.


Isso é o mesmo que ocorre com as medidas de satélite que mostram temperaturas menores do que os de superfície e que teria havido uma pausa entre 1998 e 2014. Ocorre que o declínio das geleiras, o aumento do vapor de água, o aumento do aquecimento do oceano, florescimento antecipado de muitas plantas e muitas outras evidências mostram que só uma das opções faz sentido.


Na linha de seguir a ciência, trabalhos de simulação realizados no Brasil indicam que secas mais intensas e mais longas são uma tendência para várias regiões onde temos pecuária. À medida que dados reais vão sendo analisados, tem havido concordância com as simulações, ou seja, já devemos estar enfrentando mudanças climáticas.


Em função desse cenário futuro, que parece cada vez mais presente, esse texto pretende fazer breves reflexões sobre as principais opções que usamos para o enfrentamento do período seco e como elas terão também que ser mais usadas e adaptadas para vencermos mais esse possível desafio do agravamento da estiagem. Escolhemos seis:


1) Vedação (ou diferimento) de pastagens:  


Uma técnica já bastante adotada é a vedação do acesso aos animais de áreas de pastagem nas águas de maneira a usar o material assim acumulado alguns meses depois. Quando fazemos isso, estamos trocando qualidade por quantidade: se essa forragem fosse usada nas águas, aproveitaríamos seu maior valor nutricional. Ao deixá-la acumular e envelhecer, o valor nutricional cai bastante, mas, pelo menos, teremos massa de forragem para oferecer aos animais na seca.


Ao usarmos áreas de pastagens vedadas apenas com a suplementação mineralizada, o mais comum é que haja perda de peso, mas com outras modalidades de suplementações (sal com ureia, proteinado, semiconfinamento, etc.) mantemos os animais ganhando peso ou, no mínimo, sem perder.


No contexto de aumento da intensidade e duração da seca, todavia, a vedação fica em cheque. O que ocorre é que, ao longo da seca, não há crescimento da forragem e, assim, ao longo do seu uso, a parte nobre, a folha, é consumida, cada vez preponderando mais a haste na massa remanescente, cujo valor nutritivo é bem inferior.


A alternativa é se preocupar cada vez mais em produzir melhor na época das águas, para aumentar o acúmulo, bem como usar lotações menores na seca. Lotações menores na seca podem ser trabalhadas tanto pelo aumento de área destinada à vedação, como por manter menos animais na fazenda para passar a seca. Provavelmente, combinar ambas estratégias seja a melhor opção. Qualquer ambição maior que isso, faz-se necessário a inclusão de outras estratégias.


Um aspecto muito importante na escolha das áreas a serem vedadas é que as cultivares de Brachiarias (Marandu, BRS Piatã e BRS Paiaguás) são mais indicadas que as cultivares de Panicum (Tanzânia, Mombaça) ou Pennisetum (Capim elefante, Capiaçu), por manterem melhor valor nutritivo ao longo do tempo.


Duas cultivares de Panicum mais precoces, lançadas mais recentemente pela Embrapa, têm levantado interesse para se investigar como se comportariam na vedação: a BRS Tamani, de menor porte, e a BRS Quênia, de porte médio. Como estes Panicuns florescem mais cedo do que os demais, entre fim de fevereiro e início de março, há a possibilidade de produção de folhas entre março e abril quando ainda se tem umidade e temperatura, disponibilizando assim uma forragem de melhor qualidade para a entrada da seca, algo ainda para ser conferido experimentalmente.


2) Volumosos suplementares:  


Cada fazenda poder contar sempre com alguma fonte de volumoso suplementar é altamente desejável, pois funcionam como um seguro para situações inesperadas de falta de forragem que, além de secas prolongadas aqui tratadas, podem ser causadas por outros sinistros, como fogo e geada. Aliás, tanto um quanto outro, também podem ser exacerbados pelas mudanças climáticas. O fogo, em função de que a seca mais intensa favorece sua ocorrência. A geada, apesar da tendência geral de redução na sua frequência, pode ocorrer de maneira mais aguda em determinada região ou ocorrer em regiões menos usuais, pois uma das características das mudanças climáticas é o aumento da ocorrência de eventos extremos, ou seja, não usuais. Um bom exemplo disso, foram recordes de frio no hemisfério norte no final do ano passado, pois a massa de ar frio ficou presa nas latitudes maiores por conta de um bloqueio à sua dispersão habitual.


Seja por secas mais intensas e prolongadas, seja por risco de fogo ou geada, cada vez será mais importante se preocupar em ter essa reserva estratégica. Entre as opções para uso como capineira, destaca-se a cana-de-açúcar, por ser cultura perene, menos exigente em manejo, alta produção potencial por área e, especialmente, não só não ter perda no seu valor nutritivo, mas poder até aumentar ao longo da seca. O corte diário e a necessidade de ceifadoras robustas para darem conta do recado são dois inconvenientes, havendo até quem prefira ensilar a cana. A opção de ensilar cana tem seus próprios desafios: é imprescindível o uso de aditivos para evitar a fermentação alcoólica que leva a problemas de conservação e consumo (sem contar o risco de bois de ressaca...). 


A fenação é outra opção para se obter volumoso suplementar para a seca. Em tese, é a alternativa de conservação que mais mantém a qualidade do material original. O problema é conseguir fazer isso no nosso Brasil tropical, com as frequentes chuvas de verão que, literalmente, lavam os nutrientes da forragem quando enleirada no campo após o corte. Não bastasse essa perda, quando ele está suficientemente seco para se conservar, ou seja, quando em cada 1.000 g de feno há apenas algo em torno de 140 g de água (14% de umidade), ele fica armazenado no ambiente chuvoso do verão e acaba absorvendo um tanto da umidade do ar ao seu redor. Nas partes mais externas do fardo, essa umidade extra absorvida acaba voltando ao ambiente, mas nas partes mais internas do fardo, nem sempre. Esse aumento de umidade pode ser suficiente para permitir algum crescimento microbiano. Por isso, não raro, ao abrirmos um fardo de feno percebe-se haver bolor. Na melhor das hipóteses, temos perda de qualidade. Na pior, produtos tóxicos produzidos por fungos (micotoxinas) que podem prejudicar o ganho e, até colocar a vida dos animais em risco. Por fim, no meu rol de implicâncias à fenação, sua oferta aos animais costuma ser mais problemática, inclusive do ponto de vista de ser mais difícil fazer uma dieta completa homogênea, pois o feno é muito seco e acaba segregando na mistura. Em que pese toda essa negatividade, há pessoas satisfeitas com o uso de feno. Isso será tanto mais verdade quanto: (1) mais se evitar as chuvas de verão; (2) melhor forem as condições de armazenagem e (3) dos equipamentos disponíveis para realizar a produção do feno e a alimentação dos animais.  


A ensilagem é outra técnica usual de conservação de forragem bem eficaz, baseada na fermentação da massa ensilada, cuja produção de ácidos orgânicos, faz o ambiente ácido o suficiente para evitar que haja crescimento microbiano que, se ocorresse, iria degradar o material. Por envolver uma série de operações, a ensilagem é uma técnica cara. Por esse motivo, quanto maior o valor nutritivo do material sendo ensilado, mais temos condições que esse custo seja diluído por unidade de energia ou proteína, por exemplo. Nesse sentido, uma das melhores opções é fazer a silagem de milho ou de outro cereal. Pelo mesmo motivo, é altamente desaconselhável fazer silagem de um pasto passado, ou seja, ele seria barato por ser um aproveitamento, mas, na verdade, fica muito caro por quilograma de energia. Esse raciocínio vale também para a fenação, isto é, não compensa fenar um material passado.


Seja qual for a opção de volumoso suplementar, a ideia seria tê-lo sempre disponível ao longo do tempo, em uma quantidade suficiente para manter os animais sem perder peso por dois ou três meses. No caso dos volumosos conservados, não seria problema “pular” o ano que não fosse necessário seu uso, mas mais do que isso aumenta a preocupação com a perda de qualidade. No caso da cana, pular um ano pode trazer outros problemas (acamamento, por exemplo). Assim, pode ser interessante achar alternativas para usar o estoque antigo e renová-lo. Entre elas: (1) suplementar em alguns pastos na época de rebrota para ajudar a recuperação dos mesmos; (2) fazer um confinamento apenas com volumoso, por exemplo, de fêmeas em reprodução para ajudar-lhes a recuperar a condição corporal; (3) comercializar os volumosos suplementares.


3) Leguminosas:  


Além de haver poucas opções de leguminosas no Brasil, seu uso é bem menor do que seria desejável. No contexto de mudanças climáticas, o seu potencial de uso só aumenta, pois, as leguminosas têm várias características muito desejáveis, das quais se destaca inserir quantidades consideráveis de nitrogênio no sistema. Além disso, elas apresentam maior resistência à seca do que as gramíneas e desempenhariam melhor em ambientes com maior temperatura e concentração de gás carbônico (CO2), algo que está previsto aumentar ainda mais no futuro.  


Um dos motivos que esperamos que as leguminosas teriam vantagem em um ambiente com maior concentração de CO2 é porque elas têm a fisiologia chamada “C3”, enquanto as gramíneas tropicais costumam ser “C4”. A vantagem fica bem ilustrada pelos dados da tabela 1, na qual a resposta de plantas C3 e C4 à maior concentração de CO2 são comparadas e fica nítido como a resposta para as primeiras é maior.


Tabela 1.
Porcentagem de mudanças de plantas C3 e C4 em função do aumento de CO2 atmosférico
Fonte: Adaptado de Braga e Ramos (2017). Dados originais de Wand et al. (1999)


A grande dificuldade no manejo das leguminosas é mantê-las em consórcio, pois normalmente acabam por serem abafadas pelas gramíneas e reduzindo sua participação em pouco tempo, isto é, em alguns poucos anos. Menos frequentemente, pode ocorrer o oposto, isto é, a leguminosa dominar a gramínea, o que é ainda menos desejável. Assim, o grande desafio é fazer o manejo de carga variável (aumentar ou reduzir o número de unidades animais por hectare) de maneira manter o consórcio equilibrado.


Um aspecto interessante é que essa dificuldade é universal, mas pelos benefícios da leguminosa ao sistema, considerando apenas a não necessidade de suplementação proteica na seca e o “input” de Nitrogênio no solo, ainda que só por um ou dois anos, já pode ser suficiente para compensar o investimento no plantio, especialmente se considerarmos as outras vantagens nos cenários previstos em função das mudanças climáticas.


4) Integração Lavoura-Pecuária:


A Integração Lavoura-Pecuária aparece neste contexto, pois uma das grandes vantagens para o pecuarista é a pastagem que vem depois da colheita da cultura agrícola. Assim, exatamente na entrada da seca, há um pasto de excelente qualidade para ser usado na seca. É evidente que, à semelhança do pasto diferido, não se deve esperar novos crescimentos de forragem neste pasto no período seco, mas a grande vantagem é ter grande quantidade de forragem de alto valor nutritivo. Isso permite que essa pastagem seja a primeira a ser usada, permitindo que os pastos vedados com suplementação estratégica possam ser usados mais para o final do período da seca, o que ajuda a esticar esse estoque “em pé” de volumoso, de maneira bem interessante, ou seja, com os animais ganhando peso durante toda seca.


5) Suplementação com concentrados:  


Essa tem sido a solução mais comumente utilizada nos momentos de aperto de disponibilidade de forragem, pois é bastante fácil de ser colocada em prática. Todavia, como de costume, a conveniência custa caro. As alternativas de suplementação, como uso de proteinado e o semiconfinamento convencional, dependem muito de haver massa de pastagem, o que acaba logo na seca. Sem massa de forragem, até para apenas manter o peso dos animais, é necessária grande quantidade de concentrado. Além disso, ele é usado com baixa eficiência. Ao se colocar pequenas quantidades em pastos rapados, a eficiência de uso fica ainda mais comprometida.


A suplementação com altas quantidades de concentrado só é viável por períodos mais curtos de tempo, como no caso do “confinamento em pastagem” quando quase todo o consumo do animal vem do concentrado e, portanto, exige-se muito pouco da pastagem.


Eventualmente, pode ser vantagem pegar apenas alguns animais mais pesados e direcionar a maior parte do concentrado a eles, em vez de dar quantidades menores para todo o rebanho. Direcionando o concentrado para os mais pesados e terminados, eles podem ser logo abatidos, liberando espaço para os animais mais leves que ficaram.


Seja na tomada de decisão citada acima, ou em qualquer outra situação, é muito importante fazer uma análise de benefício: custo para tentar antecipar até em que nível vale à pena suplementar. Todavia, como estamos discutindo o agravamento do período de seca, outra previsão que podemos fazer é o aumento de preço para os concentrados, tanto porque a produção deles pode ser também afetada pela seca, como pelo fato da própria questão de prolongamento da seca ser um fator de aumento de demanda por concentrados e, portanto, encarecê-los.


6) Confinamento:


No Brasil, uma das grandes vantagens de confinar animais é, exatamente, a possibilidade de aliviar a lotação das pastagens. O uso da estrutura dessa atividade concentra-se na época da seca. Na hipótese de secas mais prolongadas a vantagem seria aproveitar a estrutura em seguida ao final do confinamento e colocar alguma categoria que não fosse normalmente confinada, como no exemplo das fêmeas em reprodução citado no item sobre volumosos suplementares. Em situações mais críticas, ele pode ser usado para colocar o máximo de animais, com a oferta de alimento unicamente para garantir a mantença dos animais, sendo que uma das vantagens deles estarem confinados é que por restringir o gasto de energia com movimentação e pastejo, reduz-se a demanda energética e, portanto, menos alimento será necessário para manter o peso.


Essas são algumas opções para tentarmos antecipar algo em termos de estratégias para secas mais prolongadas e intensas. Haveria muitas outras, como a adubação química e orgânica, irrigação e, até economia com uso de água para dessedentação dos bovinos que deverão ser abordadas futuramente.


E se na sua região, mesmo que previstas, secas mais intensas e prolongadas não ocorram? Sem problemas, pois estar mais preparado para secas mais longas e intensas significa ter resultados melhores nas secas usuais. De maneira interessante, a crise das mudanças climáticas, também nesse caso, é uma questão de relação ganha-ganha para a pecuária.


Para quem quiser informações mais detalhadas sobre esse assunto recomendados esse artigo citado no texto:


BRAGA, G.J.; RAMOS, A.K.B. Alternativas para adaptação dos sistemas de produção animal em pastagens às mudanças climáticas: planejamento da alimentação do rebanho. In: 28º Simpósio de Manejo de Pastagens: As mudanças climáticas e as pastagens: desafios e oportunidades. Editor: Carlos Guilherme Pedreira. Piracicaba, FEALQ, 2017.


Agradecimento: Agradeço ao colega pesquisador Dr. Mateus Figueiredo Santos pela revisão do texto e informações sobre as cultivares BRS Tamani e BRS Quênia




O Encontro dos Encontros está chegando e acontece de 30/9 a 4/10 em Ribeirão Preto - SP. Todos os eventos – Encontro de Criadores, Adubação de Pastagens e Pecuária Leiteira – envolverão temas relevantes à pecuária sob a visão de grandes líderes do mercado. Para saber mais, acesse o site www.encontros.scotconsultoria.com.br ou ligue para (17) 3343-5111.


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