• Domingo, 10 de dezembro de 2017
Scot Consultoria

A agropecuária e o aquecimento global


Quinta-feira, 30 de novembro de 2017 - 13h10

-A +A

por William Marchió

Médico veterinário pela UNESP – campus de Jaboticabal, especialização em produção animal pela UFLA e atual Diretor Executivo na Rede de Fomento à Integração Lavoura Pecuária Floresta (ILPF - Embrapa).


Foto: Scot Consultoria


As atividades agropecuárias ao mesmo tempo que estão sendo afetadas pelas mudanças climáticas, são emissoras de gases de efeito estufa. Estamos altamente vulneráveis pois somos totalmente dependentes de fatores climáticos, como temperatura, pluviosidade, umidade do solo e radiação solar. 


As mudanças climáticas podem afetar diretamente nossa produção agropecuária, isso é fato: pelo aumento da produção devido ao efeito fertilizador de carbono através de maiores concentrações de CO2 atmosférico, pela alteração da intensidade de colheita devido a uma mudança no número de graus-dia de crescimento, ou modificando a ocorrência e a severidade de pragas e doenças (Shaw, 1997), entre outros efeitos. 


Estudos baseados em modelos de circulação geral (GCM) têm mostrado que a produtividade de várias culturas tende a diminuir em algumas regiões do globo e aumentar em outras, de tal forma que a produção em áreas tropicais e subtropicais, principalmente na África subsaariana devido as grandes áreas de clima árido e semiárido e sua dependência de agricultura, tende a ser mais afetada em relação às regiões temperadas (Jones et al., 1997, CGIAR,1998).


Como a nossa agropecuária colabora para este aumento dos gases de efeito estufa:


Ao mesmo tempo em que se constitui em uma atividade potencialmente influenciável pela mudança do clima, a agricultura também contribui para o efeito estufa com emissões de gases como o metano (CH4), dióxido de carbono (CO2), monóxido de carbono (CO), óxido nitroso (N2O) e óxidos de nitrogênio (NOx). 


Estima-se que 20% do incremento anual do forçamento radiativo¹ global é atribuído ao setor agrícola considerando-se o efeito dos gases metano, óxido nitroso e gás carbônico (baseado em IPCC, 1996a), excluída a fração correspondente às mudanças do uso da terra relacionadas a atividades agrícolas (15%). O metano e o óxido nitroso são os principais gases emitidos pelo setor agropecuário, contribuindo com 15% e 6%, respectivamente, para o forçamento radiativo global (Cotton & Pielke, 1995).


As fontes agrícolas de gases de efeito estufa são o cultivo de arroz irrigado por inundação, a pecuária, dejetos animais, o uso agrícola dos solos e a queima de resíduos agrícolas. O cultivo de arroz irrigado por inundação, a pecuária doméstica e seus dejetos, assim como a queima de resíduos agrícolas promovem a liberação de metano (CH4) na atmosfera. Estima-se que cerca de 55% das emissões antrópicas de metano provêm da agricultura e pecuária juntas (IPCC, 1995).


Os solos agrícolas, pelo uso de fertilizantes nitrogenados, fixação biológica de nitrogênio, adição de dejetos animais, incorporação de resíduos culturais, entre outros fatores, são responsáveis por significantes emissões de óxido nitroso (N2O).  A queima de resíduos agrícolas nos campos libera, além do metano (CH4), óxido nitroso (N2O), óxidos de nitrogênio (NOx) e monóxido de carbono (CO). 


Em 2015 o Observatório do Clima (OC) lançou a terceira versão da Plataforma SEEG (Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa) que disponibiliza o resultado das estimativas de emissões de GEE (Gases de Efeito Estufa) brasileiras, baseada na metodologia utilizada no Inventário Brasileiro de Emissões e Remoções Antrópicas de Gases de Efeito Estufa e nas diretrizes do IPCC [o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, órgão científico sob os cuidados das Nações Unidas (ONU)].


Essas estimativas apresentam as emissões de GEE, calculadas em nível estadual, para o período entre 1970 a 2014 para cinco setores da economia: Agropecuária, Energia, Mudança de uso do solo, Indústria e Resíduos. Essa abordagem possibilita visualizar a contribuição de cada um desses setores nas emissões de GEE brasileiras, suas tendências históricas e regionais e assim, pode orientar a elaboração e revisão de políticas públicas e planos setoriais específicos.


Os resultados dessa terceira versão da Plataforma SEEG mostram que o Brasil emitiu cerca de 1,5 bilhão de toneladas (1500 Mt) de CO2e em 2014, do qual apenas o setor da agropecuária contribuiu diretamente com cerca de 30% (423 MtCO2 e) (SEEG, 2014). 


As emissões causadas diretamente pela agropecuária especificamente, se referem a: produção animal e vegetal, uso de fertilizantes nitrogenados na agricultura, disposição de dejetos animais, decomposição de resíduos culturais e cultivo de organossolos. 


Entretanto, a agricultura chega a ser responsável por quase 60% das emissões brasileiras quando as emissões relacionadas indiretamente com a produção agropecuária são contabilizadas, sendo elas: emissões provenientes do desmatamento dos ecossistemas naturais para expansão agrícola, do uso de combustíveis fósseis na agricultura e do tratamento de efluentes industriais (SEEG, 2014). 


Por outro lado, a agropecuária brasileira apresenta grande potencial em reduzir suas emissões de GEE através de inúmeras opções de práticas de mitigação principalmente aquelas relacionadas ao aumento da eficiência de uso das pastagens no Brasil. Contudo, para que as tecnologias de mitigação e aumento do sequestro de carbono cheguem ao produtor é necessário que políticas públicas promovam a implementação dessas práticas em larga escala, conciliando a conservação dos recursos naturais ao aumento da eficiência da produção agrícola para suprir a demanda global por alimentos.


Figura 1: Emissões de CO e por subsetor da agropecuária brasileira (SEEG 2016)
Fonte: elaborado pelo autor


Este gráfico demonstra a distribuição das emissões de GEE na agropecuária brasileira, tendo a pecuária como responsável por 57% destas emissões.


Principais atividades geradoras de metano (CH4)


Figura 2: Distribuição percentual das responsabilidades de emissão de GEE (Embrapa)
Fonte:  elaborado pelo autor


Figura 3: Distribuição percentual das responsabilidades de emissão de Óxido Nitroso (Embrapa)
Fonte: elaborado pelo autor


Apesar de estes dados demonstrarem claramente a importante parcela de “culpa” da agropecuária nestas emissões, alguns fatores devemos considerar para fazermos uma análise global destes números.


A Embrapa lançou um folhetinho informativo em parceria com a Associação do Novilho Precoce do MS com algumas colocações práticas para o entendimento destas emissões.


Ao compararmos a emissão de um boi adulto em pasto, em um ano ele produz aproximadamente 1,7 toneladas de CO2 equivalente (pois o que ele emite é Metano e não CO2) o que equivale a emissão de um carro que rode 13 km por dia por um ano. Por fim este animal é transformado em alimento e o carro irá para um ferro velho gerar ainda mais emissões, sem contar que raramente carros irão rodar somente esta quantia de quilômetros ao dia.


Figura 4: Comparativo de emissões de GEE entre um boi e um carro (adaptado Embrapa)Fonte: elaborado pelo autor


Outro aspecto que não se leva em conta nas análises são os processos produtivos agropecuários, que quando realizados com vistas a sistemas sustentáveis, estas emissões são totalmente compensadas pelo sequestro e fixação ocorridos quando temos pastagens de boa qualidade e florestas cultivadas, assim como agricultura com plantio direto e rotação de cultivos, enfim conseguimos até  ter balanço negativo de emissões onde a fixação e sequestro superam as emissões, como é o caso de Sistemas Integrados de Produção Agropecuária que conseguem produzir muito e compensar todas as suas emissões e ainda gerar crédito, enfim a intensificação sustentável da nossa agropecuária tropical.


As mesmas análises devem ser levadas em conta quando ouvimos os alardes de que a pegada hídrica da agricultura irrigada é grande responsável pelo consumo de água, isso não é verdade pois a água consumida pela irrigação retorna à terra e aos rios sem sofrer alteração, sem estar poluída como a maioria da quantidade de água que se utiliza nas cidades e indústrias que retornam à natureza em grande parte imprópria para utilização humana, poluindo rios, lagos e mares onde são despejadas.


E aí, será que nossos consumidores brasileiros sabem disso? E os estrangeiros que compram boa parte de nossa produção, sabem que no Brasil é possível termos uma agropecuária tropical altamente sustentável?


Tive a oportunidade de participar agora entre os dias 12 a 18 de novembro de 2017 da Conferência Mundial sobre as mudanças climáticas, organizada pela ONU em Bonn na Alemanha a COP 23.


A conclusão que tive é que nossa interlocução com o público estrangeiro é insipiente. Quando falamos de Brasil lá fora o mundo só enxerga uma grande selva Amazônica e que os brasileiros estão fazendo de tudo para acabar com ela. E que a nossa agropecuária é a grande responsável pelo desmatamento da Amazônia.


Por mais que nos esforçamos institucionalmente para reverter estes ataques, muitas das vezes infundados, não conseguimos êxito.


Temos que nos expor mais, temos que nos atirar em várias formas de propagação de que nossa agropecuária tropical é limpa e pode crescer através destes modelos sustentáveis de produção, que não temos necessidade de desmatamento e que nossa produtividade pode avançar e preservar ao mesmo tempo, que nossa evolução tecnológica em agricultura tropical nos proporciona um enorme “efeito poupa terra”.


Somos muito bons para falar para os nossos pares, dentro do nosso grupo AGRO, porém para nos comunicarmos com o público urbano, somos um fiasco. Só em 2017 que vimos uma rede de TV falar em agro é POP, agro é TEC, agro é TUDO...  A meu ver estas ações deveriam estar presentes em nosso dia a dia, estas ações de marketing deveriam ser parte do dia a dia de nossas associações de classe, cooperativas, indústrias, entre outros organismos, nosso agro deverá ocupar a mente e a fala rotineira de nossa população urbana de modo a nos defenderem destes ataques, afinal nossa vocação de país é a agropecuária.


Existem várias oportunidades de investimento em Mecanismos de Desenvolvimento Limpo (MDL), existem fundos de investimentos internacionais que aportam recursos para estas ações em todo o mundo. Necessitamos buscar o acesso a estas ações de maneira organizada, de forma a otimizar a difusão de tecnologia em projetos agropecuários sustentáveis, sabemos como fazer, temos produtores dispostos a implementá-las. E principalmente, esta disposição de nossos produtores à implementação destes programas é devido ao fato de que estas ações sustentáveis são também rentáveis. Em nossa realidade a utilização destes modelos integrados de produção agropecuária mostram rentabilidade, com crescente melhoria de resultados técnicos coem função da evolução de sua utilização na propriedade. Além disso, são adequados do ponto de vista social. Estudos da Embrapa mostram que os ambientes ao redor destas propriedades conseguem se beneficiar da maior geração de emprego e renda promovido por estas empresas rurais.


Ações coordenadas podem nos levar a grandes avanços, porém há necessidade de aprimorarmos nossas ações de comunicação. Os resultados de sustentabilidade de nossa agropecuária tropical são muito superiores, temos 65% de nosso território em vegetação nativa preservada, a maior parte disso está dentro das propriedades rurais e bancadas pelos nossos produtores, isso não existe em países temperados. Enfim, só precisamos fazer com que todos saibam. E a partir daí valorizarmos nossos sistemas de produção agropecuários como promotores da sustentabilidade mundial e com isso termos garantia de mercados compradores destes créditos em nível internacional.


1. (Forçamento radiativo ou forçagem radiativa é uma perturbação do equilíbrio da energia incidente e da energia emergente do planeta Terra. É medida por watts/M²/período)


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