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Scot Consultoria

Entre um agrônomo, um veterinário e um zootecnista, continue escolhendo seu preferido


Terça-feira, 16 de fevereiro de 2016 - 09h09

Engenheiro agrônomo, formado pela Escola Superior de Agricultura Luiz Queiroz, da Universidade de São Paulo, com mestrado e doutorado pela mesma universidade. É pesquisador da Embrapa Pecuária Sudeste e especialista em nutrição animal com enfoque nos seguintes temas: exigência e eficiência na produção animal, qualidade de produtos animais e soluções tecnológicas para produção sustentável.


Texto em resposta às críticas ao texto do "Entre um agrônomo, um veterinário e um zootecnista, escolha sempre o que você achar o melhor".



No Congresso, segue a tramitação da PL 1016/15, que foi alvo de texto de minha autoria publicado neste espaço em dezembro. Assunto que mexe com a profissão de zootecnistas, veterinários e agrônomos, não havia possibilidade dele ser recebido placidamente, sendo alvo de inúmeros comentários que variaram desde apenas lamentar eu não ter compreendido o âmago do projeto de lei até chamar o texto de irresponsável. De toda a forma, tirando a média ponderada do conjunto dos comentários negativos, ficou a grata surpresa de ter havido mais elegância e respeito pela opinão do próximo do que ira. Além disso, considero que os mais contundentes foram mais por uma interpretação viesada do que estava escrito do que propriamente pelo "valor de face" expresso no texto. Como uma segunda chance de tirar mal entendidos, fui entrevistado por mim mesmo. O meu "eu" cidadão entrevistou o meu "eu" agrônomo de forma que este segundo respondesse aos comentários e questões levantadas pelos leitores. Ambos, esperam que essa iniciativa incomum ajude esclarecer a questão. Vamos à entrevista:


Eu-Cidadão (EC): Em primeiro lugar, gostaria de agradecer essa oportunidade em entrevistá-lo aqui em casa. Seu texto de dezembro gerou muita discussão. Quanto dessa discussão você acredita que possa ser devido a você ter falhado em passar a mensagem que desejava por incompetência literária?


Eu-agrônomo (EA): Puxa! Você é bem direto! Gosto disso! Antes de qualquer coisa, eu que agradeço a oportunidade de dar esclarecimentos sobre o texto. Ao analisar os comentários negativos, percebi que deixei, sim, algumas pontas soltas, não no sentido de algo que me arrependa de ter levantado no texto, mas porque deram margem a outras interpretações. Enfim, acho que há um tanto de "incompetência literária" como você disse!


EC: Você poderia dar algum exemplo desta "ponta solta"?


EA: Sim. Eu comentei uma mudança pela qual ainda estamos passando, e que ainda estamos longe de estar adaptados, que é a internet como fonte de informação e formação profissional. Em um dos comentários ao texto, isso foi interpretado como se eu estivesse colocando a formação tradicional acadêmica como algo irrelevante no contexto. Longe disso! Ela é relevante, sim! O que acredito é o seguinte: Se o indivíduo tem uma boa formação básica correlata ao que pretende se especializar, em várias situações ele pode ficar tão bom, ou até melhor, quanto alguém que teve formação específica. 


EC: Creio que, com esse explicação você ainda mantém as "ponta soltas"! Você seria capaz de exemplificar?


EA: Ótima ideia! Digamos que um bioquímico, com uma boa base em biologia e sistema digestivo, se encante por nutrição animal e faça vários cursos disponíveis na Internet sobre nutrição de cachorro. Dependendo do empenho pessoal, capacidade individual e da qualidade dos cursos que fizer, pode ser tão ou mais competente que qualquer outro profissional para essa tarefa. Impedi-lo de atuar profissionalmente pode ser apenas a perda de um grande profissional.


EC: Mas isso não seria uma exceção? Aliás, estou vendo aqui nos meus apontamentos que uma das críticas mais contundentes foi exatamente dizer que o texto era incoerente pois baseava-se em exceções?


EA: De todas as críticas, essa que eu achei, exatamente, a mais injusta, mas isso você me pergunta em seguida, logo depois de eu explicar se o exemplo é exceção ou não, Ok? Pois bem, no texto comento sobre o "deslocado favorito" e que todo mundo tem o seu. Esses "deslocados favoritos" são "regra" ou "exceção"? São os dois! Ou seja, a maioria das pessoas atua na área em que se forma, o que faz o "deslocado favorito", exceção. Ao mesmo tempo, por todo mundo poder citar pelo menos uma pessoa que conheça que atua em área diferente da que cursou, é regra. Agora, o mais importante não é isso! O mais importante é que, mesmo sendo exceção, pode fazer uma enorme diferença, como foi bem exemplificado no texto pelo caso do Bill Gates e Steve Jobs que, caso fossem proibidos de trabalhar por não serem formados, não teríamos a Microsoft e a Apple!


EC: Atendendo seu pedido: Por que você achou injusta a crítica que o texto era incoerente pois, baseava-se em exceções?


EA: Obrigado por perguntar! Acho injusto porque, ao contrário de exceções, o texto se baseia em algumas premissas que são regras. Tentei deixar essas premissas claras desde o início e as reitero a seguir: 1) Restrições sempre cobram seu preço e, por isso, devem ser minimizadas, mantendo apenas aquelas indispensáveis, 2) Mérito é um requisito mais importante do que formação e 3) Permitir que o contratante exerça seu direito de escolher o profissional de sua preferência é um saudável exercício de liberdade e de responsabilidade.


EC: O exercício da liberdade é auto-explicativo, mas você poderia explicar onde entra a responsabilidade?


EA: A responsabilidade é porque, seja quem for que estiver escolhendo, ele tem que ter a clareza que sua escolha irá impactar onde este profissional estiver atuando e que as ações do profissional podem ter consequências, não só para ele, mas para a sociedade. Em primeiro lugar, deve-se respeitar a legislação em vigor e, portanto, a atuação tem que se limtar as restrições legais. Havendo algum erro que traga prejuízo a terceiros, os órgãos de controle e a justiça está aí para isso mesmo e que paguem pelos seus atos os envolvidos.


EC: Então você concorda com a legislação vigente?


EA: Creio que, concordar ou não, é menos relevante, pois leis são para serem cumpridas, ponto final. A impressão que tenho, todavia, é que elas regulam em excesso.


EC: E por isso que você é contra o PL 1016 / 2015?


EA: Sim, a crítica a este PL é por achá-lo desnecessário e, mais do que isso, indesejável por: 1) criar uma restrição desnecessária, 2) ir contra o mérito e 3) retirar do contratante a liberdade da escolha. Enfim, ir contra as três premissas básicas que defendo.


EC: Mas você foi acusado de não ter entendido o PL?


EA: E pode ser mesmo que eu não tenha entendido. O Prof. Márcio Ladeira, inclusive, fez um texto defendendo que a lei não irá, de forma alguma, limitar a atuação de agrônomos e veterinários e que seria simplesmente para que o título de zootecnista não fosse usado por profissionias formados naquelas áreas. Todavia, no site da Associação Brasileira de Zootecnistas (http://abz.org.br/blog/novo-parecer-sobre-pl-101615-privilegia-veterinarios-e-agronomos/), aparece a seguinte afirmação da sua presidente, Célia Carrer segundo a qual o parecer da relatora seria equivocado principalmente porque o substitutivo proposto continuaria, nas palavras dela, "dando garantias de atuação como zootecnistas aos agrônomos e veterinários, ponto principal que o PL 1016/15 pretendia alterar".


EC: Então você discorda do Prof. Márcio?


EA: Na verdade, o Prof. Márcio Ladeira fez uma defesa muito elegante do PL 1016 em busca de defender sua classe. Não só respeito a opinião dele, como vi que parece que concordamos que as restrições de forma geral levantadas pelas associações de classes, de forma geral, são excessivas. Um ponto que acabou ficando central no seu texto, contudo, foi a questão dos concursos públicos, nos quais os zootecnistas teriam a desvantagem de ter a concorrência de agrônomos e veterinários, uma vez que teriam o direito às vagas deste por conta de terem reconhecido o título de zootecnista pela lei em vigor.


EC: ...e isto é injusto, não?


EA: Veja bem, o que eu acredito é que os interessados em fazer a contratação deveriam poder fazer o concurso da maneira que melhor, ao seu julgamento, atendesse aos interesses públicos, limitando a contratação do profissional apenas no que fosse absolutamente necessário em função das particularidades de seu exercício. Os gestores públicos deveriam ser soberanos em contratar, exercendo a mesma liberdade dos gestores privados, e, naturalmente, encarando as responsabilidades dos seus atos. Enfim, o que parece mais injusto para mim é que os órgãos públicos tenham que fazer a seleção de maneira diferente do que a iniciativa privada possa fazer.


EC: Certo, certo...entendi...aquelas três premissas básicas valem para toda contratação, seja privada ou pública.


EA:  Exatamente! E pelo que sei, os órgãos de classe se empenham em interferir nos concursos públicos defendendo seus afiliados. Isso não me parece bom, salvo, se essa interferência tenha como alvo o bem coletivo. Assim, exemplificando, se o gestor público for contratar um biólogo para fazer atendimento médico num posto de saúde, é legítimo e desejável que o o Conselho de Medicina interfira. Nesse caso, essa ação não beneficia exclusivamente o afiliado, mas toda a comunidade que teria um profissional sem as devidas qualificações a atendê-la. Sendo uma função em que haja sobreposição de vários profissionais, deixem que todos participem do concurso e que o melhor seja selecionado.


EC: Houve mais alguma crítica que você não concordou e gostaria de comentar?


EA: Das que eu vi, tem mais uma, sim. Um dos leitores fez menção a que meu título implicaria em que tanto faria escolher um dos três. "Então, tanto faz..." reclamou o leitor. Isso foi uma grosseira má interpretação do que o texto defende, pois é exatamente o contrário de "tanto faz" quando a gente pretende escolher o melhor. É que o melhor pode ter qualquer uma dessas formações, se para o que ele estiver sendo contratado não houver restrições específicas. Não havendo limites legais para a atuação, tanto faz que o melhor tenha a inicial da sua profissão com A, V ou Z! É assim que temos mais chance de fazer um país melhor!


EC: Gostaria de fazer algum comentário final?


EA: Sem dúvida, uma vez mais, agradecer a oportunidade de poder esclarecer alguns pontos do texto, o que considero importante. Por fim, que sei como muitas vezes o Zootecnista é injustamente limitado em seu campo de atuação pelos Conselhos de Agronomia e Veterinária. Para esses pontos, sugiro aos colegas Zootecnistas que os coloquem a prova do interesse público, pois quando eles não são o foco principal, escancaram sua ilegitimidade e são indefensáveis. Para os que ficarem retidas nesse filtro, seja de onde for, tem meu apoio para que sejam desregulamentadas.



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