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Scot Consultoria

A nata do leite


Terça-feira, 12 de janeiro de 2016 - 11h14

Sabe um daqueles dias mágicos, de pleno estado de felicidade e que você não quer que acabe? Pois um desses dias aconteceu na sexta-feira, 02 de outubro de 2015, quando participei de um dia de campo na Fazenda Nata da Serra, no município de Serra Negra, SP, encerrando com "chave de ouro" um evento de pecuária leiteira, promovido pela Scot Consultoria.


Seu proprietário, Ricardo José Schiavinato, pratica uma forma muito interessante de agropecuária orgânica de alto rendimento, produzindo eucalipto, café, olerícolas como tomate e berinjela, frutíferas como morango, sendo o leite, porém, sua atividade principal respondendo atualmente por 60% do faturamento anual da propriedade deixando muito agropecuarista convencional de boca aberta.


Mas nem sempre foi assim. Em sua apresentação, Ricardo fez um breve relato de sua trajetória profissional desde o curso de agronomia, passando pelo comando assumido de uma propriedade de quase 100 ha, recém-comprada por seu pai no início da década de 1990, onde aplicou os conhecimentos adquiridos na condução de várias culturas agrícolas. Logo comprou umas vacas leiteiras para fornecimento do leite às famílias de seus empregados. Porém, com o passar do tempo, o leite ganhou volume e com investimentos na aquisição de animais, a produção leiteira girava em torno de 1.000 litros por dia. O problema é que a inflação na época corroía os resultados econômicos da atividade leiteira que apresentava baixos índices de desempenho e levava consigo as outras atividades agrícolas.


Para tentar não perder tanto dinheiro, resolveu processar o leite na propriedade produzindo o famoso "barriga mole", leite pasteurizado de saquinho, que era vendido no comércio da região. Aí mesmo é que as coisas não foram bem e os resultados cada vez mais desanimadores o obrigaram a se desfazer de parte de seus bens para honrar dívidas, que pareciam não ter fim. Chegando ao fundo do poço e totalmente frustrado sob o ponto de vista profissional, pensou em se desfazer da propriedade, mas seu pai interveio e lhe deu todo o suporte financeiro e emocional que precisava até que as coisas melhorassem. Porém, Ricardo não via outra saída senão fechar as portas, até que se interessou e resolveu trabalhar com agricultura orgânica, a fim de explorar esse mercado diferenciado de produção, aproveitando a proximidade da cidade de São Paulo, um potencial centro consumidor.


Iniciou a empreitada orgânica com muito sucesso em relação aos produtos agrícolas como tomate, berinjela, abobrinha dentre outros, com elevadas produtividades e uma qualidade de encher os olhos. No entanto, quanto ao leite, as coisas patinavam e não iam bem. Faltava informação de como conduzir um rebanho leiteiro de forma orgânica de maneira a obter resultados zootécnicos e financeiros satisfatórios. O rebanho de bom potencial genético composto por vacas da raça Holandesa variedade Vermelha e Branca mantido em pastos degradados, manejados de forma extensiva, suplementando-se a alimentação dos animais ao longo do ano com capim-elefante pica-do misturado à cevada e água resultando num "sopão" era o atestado de falência da atividade que levou a morte a maioria de suas vacas e grande parcela de suas crias. A atitude desesperada de mudar o rebanho para vacas mais "resistentes" ou "rústicas" não surtiu o efeito desejado, visto que sua produção caiu para 200 litros diários.


Inconformado com os baixos resultados da pecuária leiteira e sabendo que não é por ser orgânico que precisa ser ineficiente sob o ponto de vista agronômico, zootécnico e econômico, conheceu o programa Balde Cheio em 2007 e viu ali uma ponte entre suas necessidades e futuras realizações.


Ricardo foi pessoalmente à Embrapa Pecuária Sudeste em São Carlos, SP, e propôs uma parceria. Ao contrário do que esperam aqueles que pensam existir um abismo entre as duas formas de se produzir leite, a coordenação do Balde Cheio entendeu que à sua frente estava um empreendedor e não um "ecochato" ou "biodesagradável", que além de produzir, queria ganhar dinheiro com leite. Topado o desafio, dias depois visitava a Fazenda Nata da Serra, o agrônomo André Luiz Monteiro Novo.


Após a visita, André e Ricardo fizeram uma avaliação e constataram que se a agricultura ali praticada era de qualidade, a pecuária leiteira era sofrível e que se ele aceitasse, transformariam sua fazenda na primeira "sala de aula orgânica" do Balde Cheio no País, onde produtor e pesquisadores, seriam alunos, já que muito teria de ser aprendido e adaptado ao mundo orgânico.


Estavam conscientes de que os conceitos básicos para se ter uma produção leiteira eficiente zootecnicamente rentável economicamente e correta ambientalmente devem ser os mesmos a serem aplicados em qualquer sistema de produção leiteira, ou seja, alicerçado na fertilidade do solo, na produção e manejo intensivo das gramíneas forrageiras tropicais, na otimização dos índices zootécnicos do rebanho, na escrituração e no gerenciamento profissional da empresa.


Regras do jogo explicadas e aceitas por ambas as partes, o trabalho foi iniciado. Foram aprendendo e adotando as práticas possíveis no universo orgânico, percebendo grande afinidade com o que já se praticava no Balde Cheio, como adubação com compostos orgânicos, controle biológico de pragas com fungos, irrigação outorgada, respeito aos animais e às legislações ambientais, utilização de madeira plástica, entre outros, o que facilitou a obtenção dos primeiros resultados.

Assim, a antiga capineira de capim elefante virou o primeiro módulo de pastejo, sendo dividida em 35 piquetes de 450 m2 cada um. Com os expressivos resultados veio a motivação de mais módulos de pastejo com os capins mombaça e braquiarão e as gramas estrela, tifton e jiggs, todos irrigados, permitindo alojar o rebanho numa pequena gleba de terra, com farta disponibilidade de comida.Algumas dúvidas surgiram como, por exemplo, fazer as adubações nitrogenadas após o pastejo sem o uso dos adubos químicos, proibidos nos cultivos orgânicos. Além do uso de 40 toneladas de compostos orgânicos aplicados por hectare por ano, divididas em duas aplicações, que, no entanto, apresenta baixa concentração de nitrogênio (algo ao redor de 2% na matéria seca), o proprietário sugeriu, e foi acatado, que ao invés de se utilizar a lotação de 10 vacas por hectare, fossem postas apenas 7 vacas na mesma área, deixando uma sobra proposital de 30% do que foi produzido, que por possuir estreita relação Carbono: Nitrogênio, sofreria uma rápida decomposição após a roçada quando da retirada dos animais do piquete, fornecendo nitrogênio para a própria planta numa versão de "auto adubação verde". Isso criou um banco permanente de nitrogênio no sistema solo-planta, deixando o capim com um verde intenso, como se tivesse recebido adubação nitrogenada com ureia. O monitoramento da fertilidade do solo via análises anuais confirma os elevados índices obtidos.


A umidade é garantida por um criterioso projeto de irrigação, que além de aplicar água, também auxilia na aplicação de fungos e dejetos do curral e do laticínio, via fertirrigação, proporcionando às gramíneas forrageiras produções dignas dos bons projetos convencionais. No inverno as pastagens são sobressemeadas com Aveia Preta e Azevém, gramíneas de clima temperado que otimizam a produção no período, sendo o rebanho suplementado nessa época com cana-de-açúcar e, mais recentemente, com silagem de milho já que não é barato corrigir as deficiências proteicas da cana-de-açúcar somente com farelos como o de soja ou de algodão, que assim como os demais concentrados utilizados em suplementação ao pasto, precisam também ser oriundos de fonte orgânica de produção, elevando muito seu custo de aquisição. Todas as etapas de plantio realizadas na fazenda de novos módulos de pastejo, cana-de-açúcar ou milho para ensilagem, são precedidas de adubação verde com a leguminosa crotalária juncea, de elevado potencial produtivo, que incorporada ao solo fornece à futura lavoura, até 200 kg/ha de nitrogênio.


O rebanho é outro ponto interessante. No início era formado por animais com baixa aptidão leiteira. Dois a três anos após a adequação da alimentação o rebanho começou a passar por enorme transformação sendo atualmente formado por vacas cruzadas entre as raças Holandesa variedade Preta e Branca, Jersey e Sueca Vermelha mantendo o vigor híbrido por mais gerações.


Está em processo de avaliação o cruzamento com uma quarta raça europeia especializada na produção leiteira, a fim de manter a heterose (vigor híbrido) em patamares acima de 90% e se obter animais de porte mediano, adaptados ao pastoreio, dóceis, de elevada fertilidade e diferenciado teor de sólidos do leite, ou seja, o gado "Vira Latas", que muito contribui para o rendimento dos produtos lácteos orgânicos fabricados na propriedade como queijos, iogurtes, ricota, manteiga dentre outros. Tratado com respeito e paciência pela equipe de empregados, esse gado não apresenta qualquer sinal de estresse, o que confere maior resistência às doenças, que são tratadas, ou preferencialmente prevenidas com uso da homeopatia e vacinações.


Esses fatores reunidos conferem elevados índices zootécnicos e uma produção diária atual de 1.400 litros, que numa área explorada de 25 ha proporcionam uma produtividade acima de 20.000 litros de leite/ha/ ano, dez vezes mais que a produtividade encontrada no início do trabalho em 2007, quando o volume de leite médio era de 250 litros diários e a área explorada pelo rebanho alcançava 45 ha. Produtividades como a atualmente obtida na Fazenda Nata da Serra conseguem ser obtidas em algumas propriedades de leite convencional na Nova Zelândia e nos Estados Unidos, importantes produtores e exportadores mundiais de lácteos. Essa produtividade da fazenda, no entanto, não significa que se tenha atingido o limite, até porque o máximo é o que menos se sabe em se tratando de potencial de sistemas de produção leiteira baseados no uso intensivo de pastagens de gramíneas forrageiras tropicais.


O Custo Operacional Efetivo (COE) da Nata da Serra nos últimos 12 meses (setembro de 2014 a agosto de 2015) foi de R$1,03/litro e seu leite é vendido ao laticínio ao preço praticado no mercado dos orgânicos a R$1,57/litro, deixando uma margem bruta de R$0,54/litro.


Ao final desse dia estávamos todos realizados por encontrar um produtor com tamanho nível de absorção e aplicação disciplinada dos conceitos adotados pelo programa, cujos resultados falam por si, e que além dos índices econômicos, quer também deixar um legado de agricultura sustentável a seus filhos e netos. Além disso, é gratificante participar de um programa que, acima de tudo, interessa-se pelas pessoas e não pelos números, que entende que as pessoas é que precisam ser recuperadas em sua capacidade de acreditar em si mesmas. Um programa que não se deixa levar pela acomodação e se lança explorando mais uma vez a fronteira do conhecimento, ensinando que aprender deve ser um exercício diário de quem quer estar em permanente estado de evolução, sem preconceitos ou pré-julgamentos daquilo que não se sabe, mas antes aprendendo e praticando, para somente após tirar as devidas conclusões, me fazendo lembrar o educador Paulo Freire, que dizia: "É fundamental diminuir a distância entre o que se diz e o que se faz, de tal forma que num dado momento a tua fala seja a tua prática".


Fonte: Jornal Veneza. Lúcio Cunha. Ano XVIII, Edição 291, novembro de 2015 - www.veneza.coop.br



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