Bovinos estressados comem menos, adoecem mais e se machucam com frequência. No confinamento, condições de ambiência, manejo e estrutura influenciam o desempenho.
Foto: Bela Magrela
Bem-estar animal significa oferecer condições para que o bovino tenha o princípio das cinco liberdades atendidas: estar livre de fome e sede, de desconforto, de dor, doenças e lesões, de medo e estresse, além de ter liberdade para expressar seu comportamento natural.
Essas condições estão ligadas à capacidade do animal consumir a dieta, manter-se saudável e transformar alimento em ganho de peso.
Por isso, aspectos aparentemente simples da rotina fazem diferença. Formar lotes homogêneos, por exemplo, reduz a competição entre os bovinos e favorece o consumo, o ganho de peso e a uniformidade do lote.
Visando acompanhar e levantar indicadores da pecuária, identificando práticas, desafios e oportunidades nos confinamentos brasileiros, o Confina Brasil, pesquisa expedicionária da Scot Consultoria, avaliou em 2025 184 propriedades em 15 estados, proporcionando uma visão ampla sobre os indicadores relacionados ao bem-estar animal.
Tabela 1.
Indicadores relacionados ao bem-estar animal mapeados pelo Confina Brasil, em 2025.
| Indicador relacionado ao bem-estar em propriedade | Resultado observado |
|---|---|
| Baias parcialmente sombreadas | 18,2% |
| Com cobertura total | 7,7% |
| Treinamento em bem-estar animal | 73,4% |
| Uso de alguma estratégia de controle de poeira | 56,3% |
| Limpeza dos bebedouros ao menos 3 vezes/semana | 73,1% |
| Confinamentos com sistema de drenagem dos currais | 86,2% |
| Currais exclusivamente antiestresse | 32,0% |
| Com curral convencional e antiestresse | 8,6% |
Fonte: Confina Brasil / Elaborado por Scot Consultoria
Os resultados mostram diferentes níveis de adoção entre as práticas avaliadas.
Enquanto 86,2% dos confinamentos contavam com sistemas de drenagem e 73,4% realizavam treinamento em bem-estar animal, o sombreamento estava presente em uma parcela menor das estruturas avaliadas, o que mostra que há espaço para melhorias.
Outro índice levantado foi a taxa de lotação. Quando excessiva, pode dificultar o acesso ao cocho e ao bebedouro, comprometer o conforto térmico e aumentar o risco de doenças.
Segundo dados da expedição Confina Brasil, a média de espaço nos currais das propriedades paulistas foi de 15,1m²/bovino na seca e 19,9m² nas águas, aumento de 31,8% no espaço disponível na estação chuvosa. A média geral de todos os estados foi de 14,3 m²/bovino na seca e 20,1 m² nas águas.
O maior espaço contribui para reduzir lama, compactação e umidade excessiva. Lama profunda dificulta a locomoção e o acesso ao alimento, além de elevar o gasto energético de mantença. Já o sombreamento é uma ferramenta para evitar o estresse térmico, contribuindo para o conforto e o desempenho. Água limpa e disponível influencia o consumo de matéria seca, a eficiência alimentar, a regulação térmica e a saúde.
O emprego dessas práticas melhora o desempenho e a eficiência no confinamento.
Nas propriedades visitads, em São Paulo, o ganho médio diário foi de 1,6kg por cabeça/dia, com um consumo médio de matéria seca de 10,7kg por dia e uma conversão alimentar de 6,7. Atingindo um rendimento médio de carcaça de 55,6%.
Tabela 2.
Peso (kg) e idade (meses) de entrada e saída de bovinos machos no confinamento em 2025, em São Paulo.
| Parâmetro | Idade entrada (meses) | Peso de entrada (kg) | Idade saída (meses) | Peso de saída (kg) |
|---|---|---|---|---|
| Mínimo | 13,0 | 325,0 | 21,0 | 510,0 |
| Média | 21,7 | 362,7 | 26,1 | 562,8 |
| Mediana | 22,0 | 360,0 | 25,5 | 557,0 |
| Máximo | 28,0 | 405,0 | 36,0 | 630,0 |
Fonte: Confina Brasil / Elaborado por Scot Consultoria
Estudo realizado por pesquisadores da UNESP, em Jaboticabal, publicado em janeiro de 2023 na revista Frontiers in Veterinary Science, mostra que a sombra em confinamentos melhora o conforto térmico e o desempenho dos bovinos.
O estudo avaliou 800 bovinos, predominantemente Nelore, distribuídos igualmente entre currais com e sem acesso à sombra. Nos currais sombreados, os bovinos apresentaram ganho médio diário de 1,7kg, frente a 1,6kg nos bovinos sem sombra, aumento de 5,9%. A conversão alimentar também melhorou, passando de 7,2 para 6,8, uma melhora de aproximadamente 4,5%.
O desempenho resultou em maior peso de carcaça quente. Os bovinos com acesso à sombra apresentaram média de 326,5kg, contra 318,0kg nos animais sem sombra, diferença de 8,5kg por bovino. Ou seja, para cada quatro bovinos, esse ganho de peso significa uma arroba a mais para o produtor.
Esse incremento se deu apenas com um dos itens do bem-estar animal. Quando associados, o desempenho no confinamento tende a ser ainda maior.
Um bovino com água limpa, acesso fácil ao cocho, espaço adequado, ambiente seco, conforto térmico, boa sanidade e manejo tranquilo tem melhores condições para expressar seu potencial produtivo.
Em um sistema no qual cada dia de cocho e cada quilo de matéria seca têm custo, reduzir fatores que desviam energia do ganho de peso é parte da gestão. Assim, cuidar do bem-estar do rebanho é cuidar do desempenho do confinamento.
Referências:
MAIA, A. S. C. et al. Economically sustainable shade design for feedlot cattle. Frontiers in Veterinary Science, v. 10, 1110671, 2023. DOI: 10.3389/fvets.2023.1110671. Disponível em: https://www.frontiersin.org/journals/veterinary-science/articles/10.3389/fvets.2023.1110671/full
SCOT CONSULTORIA. Benchmarking Confina Brasil 2025. Bebedouro: Scot Consultoria, nov. 2025. Disponível em: https://materiais.scotconsultoria.com.br/confina-brasil-benchmarking-2025
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