Palestras pré-evento do VII Encontro de Pecuária Intensiva com Foco em Cria destacaram a importância de integrar nutrição, manejo, pastagens e reprodução para melhorar os indicadores da atividade.
Foto: Bela Magrela
Em 23 de setembro, aconteceu o pré-evento do VII Encontro de Pecuária Intensiva com Foco em Cria que foi realizado em Piracicaba -SP no dia 2 de outubro na ESALQ/USP.
O evento abordou diferentes aspectos relacionados à eficiência dos sistemas de produção, como o bem-estar e o manejo de bezerros, a condição nutricional das matrizes, o planejamento das pastagens e a eficiência reprodutiva.
A primeira palestra foi conduzida pela Fernanda Macitelli Benez, mestre em zootecnia, doutora na área de comportamento e bem-estar animal e professora adjunta da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), campus Sinop, onde abordou que o bem-estar animal deve ser entendido como o estado físico e mental do bovino em relação às condições em que vive.
Segundo ela, o conceito está fundamentado em cinco domínios: nutrição, saúde, ambiente, comportamento e estado mental.
No sistema de cria, esses fatores estão relacionados ao desempenho e à sobrevivência dos bezerros.
Dados apresentados do projeto Cada Bezerro Importa da BE.Animal, indicam que o Brasil possui aproximadamente 57,0 milhões de matrizes, com fertilidade média de 68,0% e natalidade de 85,0%, resultando em cerca de 33,0 milhões de nascimentos anuais. A mortalidade de bezerros representa uma perda expressiva para a pecuária brasileira.
A melhoria desses indicadores passa pelo atendimento aos diferentes aspectos que compõem o bem-estar animal, como a nutrição da matriz que influencia no desenvolvimento do bezerro.
A condição corporal da vaca ao parto exerce influência sobre a imunidade do bezerro. Conforme os dados apresentados, vacas com Escore de Condição Corporal (ECC) inferior a 2,5 podem produzir colostro de qualidade inferior, comprometendo a transferência de imunoglobulinas (tabela 1).
Tabela 1.
Efeito do escore de condição corporal ao parto sobre o tempo gasto do nascimento até o bezerro se levantar (minutos) e sobre a concentração plasmática de IG (mg/ml) após 24 h de consumo do colostro.
| Item | Escore de Condição Corporal | |||
|---|---|---|---|---|
| 2,0 | 2,5 | 3,0 | 3,5 | |
| Tempo gasto do nascimento até o bezerro se levantar (minutos) | 59,9 | 53,6 | 43,3 | 35,0 |
| Concentração plasmática de IG (mg/ml) após 24 h de consumo do colostro | 2191,9 | 2351,0 | 2445,4 | 2653,0 |
Fonte: Adaptado de SELK, G. E., 1998.
A nutrição materna também está relacionada ao desenvolvimento fetal e à habilidade materna. O colostro, por sua vez, exerce papel importante na saúde do recém-nascido.
Entre os dados apresentados, bezerros que não recebem colostro apresentaram maior ocorrência de diarreia e pneumonia e maior mortalidade quando comparados aos bezerros que receberam o alimento adequadamente.
Outro ponto destacado foi a cura do umbigo. A utilização de iodo a 10,0% por dez segundos foi apresentada como uma prática importante para reduzir problemas sanitários.
Segundo os dados apresentados, a mortalidade caiu de 18,0% para 7,0% quando o procedimento foi realizado adequadamente. O manejo incorreto do umbigo pode favorecer infecções sistêmicas, artrite séptica e encefalite.
O comportamento da vaca e as condições às quais ela é submetida também deve ter atenção. Durante a palestra, foram apresentados dados que relacionam o manejo inadequado durante a gestação a maiores perdas fetais.
O estresse térmico durante a gestação também pode afetar o desenvolvimento fetal, e consequentemente, ter reflexos sobre a resposta imune do bezerro.
O segundo palestrante foi o engenheiro agrônomo José Renato Silva Gonçalves, administrador da Fazenda Figueira, localizada em Londrina (PR), e responsável pela condução da criação de bovinos, manejo das pastagens, produção de alimentos volumosos suplementares e planejamento.
O Brasil possui 159,7 milhões de hectares de pastagens e um rebanho de 195,5 milhões de cabeças, resultando em uma taxa de ocupação de 1,22 cabeça por hectare (ABIEC, 2026). Segundo dados da Embrapa, aproximadamente 60,0% das áreas de pastagem encontram-se com algum grau de degradação, parte dela num nível intermediário, devido ao manejo inadequado.
Nesse contexto, o planejamento deve considerar a sazonalidade da produção de forragem e as exigências nutricionais das matrizes ao longo do ciclo reprodutivo.
A estratégia apresentada propõe alinhar os principais eventos da estação reprodutiva à produção de forragem. Nesse planejamento, os nascimentos devem ocorrer no início do período chuvoso, quando as pastagens retomam o crescimento e apresentam melhor valor nutritivo. A estação reprodutiva deve coincidir com o período de maior produção de forragem, enquanto a desmama ocorre ao final da estação produtiva.
Esse alinhamento pode reduzir a perda de condição corporal após o parto, melhorar a taxa de concepção e diminuir a necessidade de suplementação.
Dados de uma propriedade apresentados durante a palestra mostraram taxa de concepção de 66,0% na primeira inseminação e de 91,0% ao final da estação reprodutiva, mantendo o escore de condição corporal próximo de 3,0.
Outro ponto abordado foi a necessidade de avaliar a produtividade do sistema de forma conjunta. Na cria, dois indicadores são fundamentais para a fórmula da produtividade na pecuária de corte em pastejo (kg/ha/ano): lotação, medida em cabeças por hectare, e desempenho individual, relacionado ao ganho de peso e à taxa de desmame.
Um exemplo apresentado durante a palestra comparou duas propriedades. Na primeira, uma taxa de desmame de 60,0%, com bezerros de 170 kg e lotação de uma cabeça por hectare, resultaria em 102,0 kg de bezerro por hectare.
Na segunda, apesar da taxa de desmame de 80,0% e do peso de 200 kg, a lotação de apenas 0,5 cabeça por hectare resultaria em 80 kg de bezerro por hectare.
O exemplo demonstra que a análise de apenas um indicador pode levar a uma interpretação equivocada da produtividade. O desempenho individual deve ser avaliado em conjunto com a capacidade de produção por área.
A adoção da precocidade sexual também foi abordada. Segundo o conteúdo apresentado, sistemas que trabalham com fêmeas precoces exigem atenção especial à genética, à nutrição e a gestação.
A antecipação da idade ao primeiro parto pode aumentar a eficiência reprodutiva, mas exige controle dos fatores que podem elevar a ocorrência de partos distócicos, ou também conhecida como “parto difícil” e, consequentemente, a mortalidade, além de apresentar a possibilidade de ter um colostro de menos qualidade, dependendo dos limites nutricionais e de manejo.
Por isso, fatores como nutrição, genética, sanidade, ambiente, comportamento, manejo e pastagens não devem ser avaliados de forma isolada. A melhoria de um único indicador não necessariamente representa maior eficiência quando outros fatores são limitantes.
A intensificação dos sistemas de cria deve partir da identificação dos principais fatores limitantes de cada propriedade, utilizando indicadores zootécnicos para acompanhar os resultados e orientar as decisões de manejo.
Referências:
SELK, G. E. Management factors that affect the development of passive immunity in the newborn calf. Beef Cattle Handbook, BCH-2240, 1998. Disponível em: https://www.iowabeefcenter.org/bch/PassiveImmunityMgt.pdf. Acesso em: 28 set. 2026.
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DAS INDÚSTRIAS EXPORTADORAS DE CARNES (ABIEC). Beef Report 2026: novo patamar da pecuária brasileira. Brasília, 2026. Disponível em: https://abiec.com.br/beef-report-2026-revela-novo-patamar-da-pecuaria-brasileira/. Acesso em: 28 set. 2026.
EMPRESA BRASILEIRA DE PESQUISA AGROPECUÁRIA (EMBRAPA). Recuperação de pastagens degradadas. Brasília, 2026. Disponível em: https://www.embrapa.br/recuperacao-de-pastagens-degradadas. Acesso em: 28 set. 2026.
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