A BM&F (Bolsa de Mercadorias & Futuros) é a bolsa onde são negociados todos os contratos futuros das principais commodities brasileiras: boi, milho, soja, etanol, café, etc. Para cada produto existe uma especificação e uma praça de referência para os preços.
PRAÇA BALIZADORA
No caso do boi gordo, a região de referência é o Estado de São Paulo. Os contratos futuros do boi gordo, que não são liquidados através da reversão da posição tomada (recomprando os contratos vendidos, ou vice-versa), serão automaticamente liquidados no último dia útil do mês do contrato, através do Índice Esalq/BM&F.
O Índice Esalq/BM&F é obtido pelo Cepea através da ponderação dos negócios realizados entre frigoríficos e pecuaristas no Estado de São Paulo. Como o preço se refere a São Paulo, muitos pecuaristas crêem que apenas aqueles que possuem propriedades no Estado conseguem utilizar o mercado futuro de forma eficiente, pois somente assim estariam sujeitos às mesmas variações de preços que influenciam o mercado futuro.
Entretanto, São Paulo é praça balizadora para o restante do País, com exceção dos Estados mais ao Sul, como Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Ou seja, quando o boi sobe em São Paulo é um indicativo que as forças de mercado atuantes no Estado estejam ocorrendo também em outras regiões, e o boi sobe por lá também.
DIFERENÇA DE BASE
Existe, porém, uma diferença entre o preço do boi gordo de São Paulo e dos outros Estados, chamada de diferença de base. Como essa diferença é variável, pecuaristas de outros Estados podem enxergar isso como um fator que aumente os riscos na hora de negociar na BM&F.
Exemplo: o boi gordo de São Paulo está cotado hoje (1/08) em R$64,00/@, enquanto em Marabá/PA vale R$50,00/@, ou seja, diferença de R$14,00/@. Como o Brasil é um país continente, o mercado, por conta de diversos fatores, entre eles o clima, pode se comportar de maneira diferente em cada praça.
No dia primeiro de agosto de 2006, a diferença entre essas duas praças era de R$16,00/@, e no ano anterior de R$10,50/@. Fica claro que a diferença entre as praças não é constante. Ainda assim, quem tem boi em Marabá/PA pode negociar na BM&F?
QUEM PODE NEGOCIAR NA BM&F?
A partir da base de dados da Scot Consultoria, resultado do levantamento de mercado realizado na maior parte do País por um período superior a 10 anos , e utilizando um programa de estatística, foi possível correlacionar as variações das cotações do boi gordo entre as praças.
A partir dessa análise, feita em relação ao preço de Barretos/SP conclui-se com bases científicas que as regiões onde a correlação é alta (acima de 0,7) os preços oscilam de maneira semelhante à variação observada em São Paulo, em azul na figura 1.

Correlações médias (0,5 a 0,7) indicam que há um risco maior embutido nessa negociação (em verde), e correlações baixas (abaixo de 0,5), em laranja, sinalizam que não é uma boa idéia para os produtores dessas praças operarem na BM&F.
Pela figura 1 é possível concluir que os pecuaristas de quase todo o País podem operar na BM&F, exceção para os localizados no Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Sul da Bahia. Para as regiões Norte de Minas Gerais, Oeste do Maranhão e Oeste da Bahia (em cinza), a base de dados é menor por conta do levantamento mais recente. Dessa forma, não se pode afirmar nada.
Voltando ao exemplo, aquele pecuarista de Marabá/PA, onde o preço do boi gordo tem correlação de 0,881 (alta) em relação ao boi gordo de São Paulo, pode negociar seus animais a futuro, seja através da compra ou venda de contratos ou do mercado de opções.
SAFRA X ENTRESSAFRA
A análise foi feita com a série histórica completa, ou seja, com a variação dos preços observada entre janeiro e dezembro de todos os anos. Mas se considerarmos apenas os períodos de entressafra, compreendida entre junho e novembro (variável por conta das chuvas), os resultados são praticamente os mesmos.
Em períodos de pouca oferta de boi gordo, as indústrias buscam animais cada vez mais longe para preencher as escalas de abate. Os frigoríficos, muitas vezes, mantêm seus preços inalterados em São Paulo e vão até o Pará comprar gado. Esse, entre outros fatores, resulta em uma diferença menor de preços entre as praças durante a entressafra, em comparação à safra.
Como meio de aumentar a segurança de negociar na BM&F, ou diminuir o risco, o pecuarista deve considerar uma diferença entre o preço da sua região e o boi de São Paulo um pouco maior do que a histórica. Assim, se a diferença crescer, existe uma margem de segurança.
CONCLUSÃO
O número de pecuaristas utilizando a BM&F para hedge de preços está crescendo vertiginosamente, seja através de negociações direto com a corretora, seja junto aos frigoríficos, através do mercado a termo.
O mercado de opções é outra modalidade que ganha liquidez a cada ano, e trata-se de uma alternativa interessante ao mercado a termo.
Desde que fique claro que a ferramenta “mercado futuro” está acessível às principais regiões pecuárias, espera-se que aumente o número de pecuaristas utilizando a proteção de preços.
Com o maior número de negócios, aumenta-se a liquidez dos mesmos, ou seja, fica mais fácil “entrar e sair” do mercado, criando uma maior facilidade para os atuantes.
Forma-se um círculo vicioso benéfico ao mercado.
<< Notícia Anterior
Próxima Notícia >>