Última rota do ano, da pesquisa-expedicionária da Scot Consultoria, mostrou a força dos coprodutos regionais, o avanço da genética e a integração entre lavoura, pecuária e indústria nos estados de Goiás, Mato Grosso do Sul, Paraná e São Paulo.
Foto: Scot Consultoria
Há sete anos, o Confina Brasil faz da estrada de asfalto e de terra o seu laboratório. A pesquisa-expedicionária da Scot Consultoria percorre as principais praças produtoras do país para mapear, porteira adentro, como a pecuária intensiva se organiza, produz e evolui. Desde a primeira edição, foram mais de 700 propriedades visitadas e coletados dados de aproximadamente 15 milhões de cabeças em 17 estados.
A pesquisa funciona como uma via de mão dupla. Durante as visitas, os produtores compartilham suas práticas, soluções e estratégias de produção, enquanto a equipe do Confina Brasil apresenta experiências e iniciativas bem-sucedidas observadas em outras regiões do país. Essa troca se estende ao Benchmarking Confina Brasil, que reúne os dados levantados em campo e oferece aos produtores um panorama técnico do setor, contribuindo para a avaliação de suas práticas e a tomada de decisões dentro da porteira.
Em 2026, a quarta rota percorreu diferentes regiões de produção pecuária, passando por Rio Verde, Santa Helena de Goiás e Jandira, em Goiás, pelo trecho entre Chapadão do Sul, Três Lagoas e Bataguassu, em Mato Grosso do Sul, e seguindo pelo Noroeste do Paraná até o Noroeste paulista.

No Sudoeste goiano, a expedição encontrou um modelo de pecuária que caminha lado a lado com a agricultura, pautado na lógica tática de aproximar o boi das grandes áreas produtoras do grão. O estado destaca-se por uma convergência tecnológica completa que abrange nutrição de precisão, sustentabilidade no manejo de dejetos, refinamento genético e gestão de risco baseada em dados.
Na nutrição, o grande protagonista foi o sorgo. Impulsionado pela posição de Goiás como o maior produtor nacional do grão, o insumo esteve presente em 50,0% das propriedades visitadas, sendo utilizado tanto na forma moída seca (40,0%) quanto em sistemas de grão reidratado (10,0%). O grão consolida-se como uma alternativa energética de altíssima eficiência, suportado em propriedades de ponta por processos de transporte, moagem e dosagem 100,0% automatizados.

Foto: Scot Consultoria
O aproveitamento sustentável de resíduos atingiu o ápice no estado. Entre os produtores visitados que realizam a coleta de dejetos nos currais, a taxa de reaproveitamento foi de 100,0%. Destacaram-se grandes projetos de compostagem com previsão de produzir cerca de 25 mil toneladas anuais de composto orgânico, criando operações autossuficientes em adubação que comercializam o excedente para a agricultura regional e transformam o que seria um passivo ambiental em fonte direta de receita.
No campo do melhoramento genético, a rota registrou o uso estratégico do cruzamento tricross com Charolês sobre fêmeas F1 Angus x Nelore. A técnica combina a rusticidade do Nelore, a precocidade do Angus e o ganho de peso do Charolês. Os bezerros passam por desmama precoce e entram direto no confinamento para expressar seu potencial genético, gerando carcaças pesadas e garantindo altas bonificações. Além disso, a desmama antecipada elimina o dreno energético da amamentação, preserva o escore corporal da matriz e permite que a vaca F1 Angus seja terminada para o abate após o primeiro parto, elevando a eficiência global do rebanho.

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Por fim, a tecnologia de gestão atua como a espinha dorsal das operações goianas. O levantamento mapeou o uso de protocolos rigorosos de recepção e descanso dos lotes antes da adaptação nutricional, a utilização de softwares que analisam o histórico zootécnico para projetar o ponto ótimo de abate com a maior precisão possível e a grande adesão a mecanismos de trava de preços no mercado futuro, garantindo a proteção das margens operacionais frente às oscilações da arroba.

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O estado do Mato Grosso do Sul destaca-se por uma pecuária de alta escala e desempenho. A região visitada mantém uma história consolidada na pecuária de cria, sustentada pela produção de bezerros de alta qualidade e pelo investimento contínuo em melhoramento genético. O estado também é referência nacional em programas de identificação individual e rastreabilidade, com apoio direto da Associação Sul-Mato-Grossense de Produtores de Novilho Precoce.
Nesse contexto, o confinamento atua como uma ferramenta estratégica de suporte ao sistema produtivo. As propriedades utilizam o cocho para diferentes finalidades, como a terminação de machos, o preparo de novilhas para antecipar a entrada na estação de monta, a recria intensiva e o sequestro dos bovinos durante o período seco para proteger a capacidade de suporte das pastagens.
A qualidade da reposição confirma a reputação do estado na produção do melhor bezerro do Brasil. O trabalho de seleção genética de longo prazo viabiliza a terminação de animais superprecoces, que chegam ao abate mais jovens, com maior eficiência de conversão alimentar e alto rendimento de carcaça.

Foto: Scot Consultoria
A rota também identificou inovações em nutrição e sustentabilidade. O uso do milheto é um destaque por ser a fonte principal de grão nas dietas de algumas propriedades. Embora exija rigor operacional e regulagem específica na moagem, o milheto oferece valor energético equivalente ao do milho e maior teor de proteína bruta. A troca reduz, para as condições dessas propriedades específicas, o custo da matéria seca e colabora na proteção da margem financeira da operação.

Foto: Scot Consultoria
Além disso, os sistemas de Integração Pecuária-Floresta (IPF) encontraram terreno fértil no Leste do estado devido ao avanço da indústria de celulose na região. O modelo supera os desafios tradicionais de manejo ao garantir mercado comprador para a madeira, enquanto proporciona sombra, reduz o estresse térmico do rebanho e eleva o ganho de peso.
Na gestão, o estado exibe um modelo altamente profissionalizado. A automação na distribuição do trato alcança 71,4% das propriedades visitadas, superando a média nacional de 53,2%. As operações também utilizam controle visual dos processos internos e ferramentas de proteção de preços no mercado futuro, garantindo controle rigoroso de custos e reduzindo os riscos da atividade.

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No Noroeste do Paraná, a pecuária intensiva se desenvolve em um ambiente de solos arenosos, integrado à citricultura, ao cultivo de mandioca e de cana-de-açúcar. Nesses sistemas, os coprodutos das indústrias regionais entram na alimentação dos bovinos. Essa estratégia diversifica a dieta do rebanho e reduz os custos com nutrição.
O cooperativismo aparece como a base da produção no estado. O modelo facilita o acesso de pequenos e médios produtores aos insumos e abre canais para a venda de carnes de qualidade. As indústrias e cooperativas pagam bonificações aos pecuaristas que entregam bovinos com bom acabamento de gordura na carcaça.

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Nas propriedades visitadas, a intensificação ocorre dentro e fora do confinamento. Os produtores utilizam a Terminação Intensiva a Pasto (TIP), a recria intensiva e o manejo nutricional focado em novilhas e primíparas. Enquanto a média nacional de novilhas em confinamento na amostragem é de 24,9%, o Paraná atinge 41,2%. Esse índice demonstra o aproveitamento eficiente de categorias mais precoces para giro rápido de capital, além de atenderem mercados específicos buscados pelas cooperativas de carne.
A sustentabilidade e a infraestrutura completam o modelo paranaense. O levantamento mapeou o uso de biodigestores para transformar dejetos em energia elétrica, além de investimentos em fábricas próprias para dosagem e distribuição da ração. Essas ações reduzem o custo operacional e garantem maior controle sobre os insumos utilizados na propriedade.

Foto: Scot Consultoria
Chegando no Oeste paulista, a equipe viu como a proximidade com a agroindústria direciona a estratégia nutricional dos confinamentos. A ampla oferta regional de coprodutos e as curtas distâncias de transporte reduzem o custo do frete e favorecem a inclusão desses insumos nas dietas dos bovinos.
Em um estado marcado pelo elevado preço da terra e pela forte concorrência com culturas agrícolas de alta rentabilidade, a pecuária paulista especializa-se na etapa final do ciclo. A cria e parte da recria são realizadas em outros estados, enquanto São Paulo concentra a terminação intensiva. Nesse cenário, o modelo de prestação de serviços de engorda (boitel) consolida-se como uma solução estratégica para otimizar o uso do capital fundiário.

Foto: Scot Consultoria
O levantamento do Confina Brasil revelou a força desse modelo no estado: mais da metade dos confinamentos visitados em São Paulo (14 de 20) operam no sistema de boitel. A modalidade permite que pecuaristas parceiros terceirizem a engorda em estruturas profissionais, pagando por arroba produzida, quilo de matéria seca consumida ou diária de permanência. A estratégia evita que o produtor imobilize capital em instalações próprias ou adquira novas áreas a custos elevados, mantendo o foco na rentabilidade por hectare.
A rota no Oeste paulista também se destacou por propriedades de grande escala, nas quais a eficiência operacional e a gestão de riscos orientam o negócio. Os confinadores utilizam ferramentas de proteção de preços no mercado futuro, planejamento rigoroso na compra de insumos e monitoramento contínuo dos custos de produção. Essa estrutura garante previsibilidade aos resultados, protege a margem operacional e consolida a região como referência em logística, tecnologia de engorda e gestão econômica.

Foto: Scot Consultoria
Com o fim da quarta rota, o Confina Brasil encerra as visitas de 2026. Ao longo de 15 semanas e cerca de 30 mil quilômetros rodados, a pesquisa percorreu diferentes realidades da pecuária intensiva brasileira, mostrando que não existe um único caminho para produzir com eficiência. Em cada região, as estratégias refletem a disponibilidade de insumos, as condições de produção, a estrutura das propriedades e as oportunidades de mercado.
Com o trabalho de campo concluído, começa uma nova etapa: transformar as informações levantadas em análises que ajudem a compreender os avanços, os desafios e as tendências do setor. Esse conhecimento será reunido no Benchmarking Confina Brasil 2026, dando continuidade ao propósito do projeto de aproximar a experiência prática dos produtores da inteligência técnica aplicada à pecuária.
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