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Desmistificando os sistemas integrados, suas aplicabilidades e implantações

Como a integração lavoura-pecuária melhora o uso dos recursos, sustenta sistemas mais produtivos e proporciona menos riscos sobre eventos climáticos extremos.


Foto: Arquivo pessoal

A integração lavoura-pecuária vem ganhando espaço no Brasil como uma estratégia para tornar os sistemas produtivos mais eficientes menos expostos a riscos climáticos. Apesar da adesão crescente desse sistema, sua adoção ainda esbarra em desafios de manejo, assistência técnica e na necessidade de uma visão integrada da produção. Nesse contexto, também ganham espaço novos conhecimentos sobre solo, reciclagem de nutrientes, uso da água e complementaridade entre agricultura e pecuária.

O engenheiro agrônomo e professor do departamento de plantas forrageiras da faculdade de agronomia e zootecnia da UFRGS, Pedro de Albuquerque, é um dos palestrantes do Encontro de Intensificação e Pastagens, que acontece nos dias 23 e 24 de setembro, no Multiplan Hall do Ribeirão Shopping, em Ribeirão Preto-SP. Convidamos ele para comentar sobre o assunto nesta entrevista. Confira a seguir:

Qual é o nível de adoção da integração lavoura-pecuária no Brasil atualmente? Quais são os principais fatores que ainda limitam a expansão desse sistema e o que precisa ser feito para aumentar a adesão dos produtores?       
Pedro de Albuquerque: O Brasil tem hoje, segundo estimativa da Rede ILPF, algo entre 17,5 e 18,0 milhões de hectares sob algum tipo de sistema integrado de produção agropecuária (SIPA). Isto é, integração lavoura-pecuária (ILP), integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF), integração pecuária-floresta ou silvipastoril etc. A grande maioria corresponde a ILP. A adoção da integração lavoura-pecuária aumentou de forma expressiva nos últimos anos, mas ainda há muita oportunidade de avançar sobre áreas de pastagens degradadas, principalmente no centro do país, e sobre áreas ociosas na entressafra, no Sul.

Os fatores que freiam a adoção são a maior complexidade de manejo, já que o produtor passa a manejar lavoura e pecuária de forma integrada e precisa desenvolver um olhar sistêmico, alguns mitos perpetuados pelo mau manejo e a escassez de assistência técnica capacitada para integrar efetivamente esses dois componentes. Uma vez que isso é superado, o produtor passa a enxergar que os SIPA são sistemas “ganha-ganha” e não volta mais atrás.

Diante de um cenário de maior variabilidade climática e ocorrência mais frequente de eventos extremos, como a integração lavoura-pecuária pode contribuir para a adaptação dos sistemas de produção e para a redução dos riscos enfrentados pelo produtor?
Pedro de Albuquerque: Este será o principal foco da palestra [em setembro]. Nossos estudos têm mostrado que não se trata apenas de uma redução de risco, mas também da possibilidade de ter mais de uma fonte de renda na fazenda: gado e lavoura. Sim, isto traz mais estabilidade e segurança, sobretudo a pecuária à lavoura, por esta ser mais sensível às oscilações do clima. Mas trata-se também de uma maior resiliência biológica que o sistema adquire ao integrar estes dois componentes. Ou seja, o sistema passa a funcionar de forma diferente quando tem pastagens bem manejadas em rotação com os cultivos e sente menos o estresse climático em anos extremamente secos ou muito chuvosos. Além disso, o “superpoder” do gado em reciclar nutrientes aumenta a eficiência de uso dos nutrientes e contribui para construir solos mais férteis e estruturados, com maior capacidade de armazenar e disponibilizar água, viabilizando a produção em regiões mais desafiadoras, como em regiões de solos muito arenosos.

O que o produtor precisa avaliar antes de adotar a integração lavoura-pecuária como estratégia para reduzir os riscos climáticos?
Pedro de Albuquerque: [O produtor] precisa avaliar se tem as condições necessárias para fazer um bom manejo, tanto da fase lavoura quanto da fase pecuária. Entender que estas fases não são independentes e que se busca maximizar não só o resultado de cada uma delas independentemente, mas o resultado do sistema todo. Para isto, é necessário quebrar alguns paradigmas, ter um olhar sistêmico e uma maior capacidade gerencial. A assistência técnica habilitada em integração lavoura-pecuária ajuda muito neste processo, permitindo identificar o sistema mais adequado para cada realidade e auxiliando no planejamento forrageiro, no plano de uso das áreas e outros controles.

Quais são os principais mitos sobre integração lavoura-pecuária que ainda precisam ser desconstruídos? Pedro de Albuquerque: O principal mito ainda é o da compactação do solo, que comprometeria a produtividade das lavouras em sucessão a pastagens. Mas não é só este, há também o medo de que a remoção do capim, que se tornaria palha para cobertura do solo no sistema de plantio direto, comprometa o sequestro de carbono, a fertilidade do solo e a produtividade das culturas sucessoras, entre outros paradigmas vinculados à presença de animais em áreas agrícolas. No entanto, o que veremos é que nada disso acontece quando o sistema de integração lavoura-pecuária é bem manejado, o que passa essencialmente por planejamento e manejo de pastagens. Na verdade, falamos cada vez menos “a pecuária não prejudica a agricultura”. E sim “a agricultura precisa da pecuária”. Como já dizia Assis Brasil, produtor rural gaúcho e um dos pioneiros da modernização da agropecuária brasileira, há mais de um século e muito antes de existir o conceito de ILP: “A agricultura e a pecuária são sócias e irmãs inseparáveis”. Isto denota a complementaridade entre essas duas atividades.

O Encontro de Intensificação e Pastagens está se aproximando. O que o público pode esperar da sua palestra durante o evento?         
Pedro de Albuquerque: O público pode esperar informações com base científica, mas traduzidas para a realidade do produtor rural e já testadas em milhares de fazendas no Brasil onde a Aliança SIPA atua. Os grupos de pesquisa que integram a Aliança SIPA são pioneiros na pesquisa em integração lavoura-pecuária e têm experimentos de longa duração, alguns com mais de 20 anos, gerando informações continuamente sobre o tema. Hoje o grupo conta com pesquisadores e embaixadores em todo o território nacional, em diversas instituições de ensino e pesquisa, gerando dados, aplicando o conhecimento na fazenda e compartilhando suas experiências em prol da intensificação sustentável e da adoção dos SIPA. O plano é compartilhar estas experiências com o público do evento.

Para garantir seu ingresso para o Encontro de Intensificação e Pastagens, acesse o site: www.encontros.scotconsultoria.com.br

Pedro Arthur de Albuquerque Nunes

Engenheiro agrônomo pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e doutor em Zootecnia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), com período de formação na Universidade da Califórnia - Davis. Professor do Departamento de Plantas Forrageiras da Faculdade de Agronomia e Zootecnia da UFRGS e do Programa de Pós-Graduação em Zootecnia da mesma instituição. Integra o Grupo de Pesquisa em Ecologia do Pastejo, desenvolvendo estudos sobre manejo de pastagens e seus efeitos em ecossistemas pastoris naturais, cultivados e integrados à agricultura.

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