• Sexta-feira, 14 de agosto de 2026
Assine nossa newsletter
Scot Consultoria

"Não se trata de escolher entre retaliar ou não fazer nada"

Para o especialista, é preciso negociar e usar a Lei de Reciprocidade como forma de pressão.


Entrevista publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo no dia 2 de agosto de 2026, conduzida pela jornalista Márcia de Chiara.

Após o tarifaço anunciado por Donald Trump sobre produtos brasileiros, ganhou força a discussão sobre qual seria a resposta ideal do governo brasileiro. E a questão da retaliação voltou à tona. Embora a maior parte dos setores afetados defenda que a solução é continuar negociando – e essa seja até a posição oficial do governo –, há uma corrente que acredita ser necessário retaliar numericamente, taxando produtos americanos.

E uma outra ideia, defendida por alguns especialistas e economistas, sugere até mesmo elevar o imposto de exportação de alguns produtos brasileiros importantes para os EUA, como café, carne ou suco de laranja, como uma forma de elevar os preços no mercado americano e forçar uma negociação.

Tentar forçar o governo Trump a sentar-se à mesa, porém, seria equivocado e arriscado, na avaliação do professor sênior do Insper e especialista em agronegócio global, Marcos Jank “seria um tiro no pé”, afirma Jank ao Estadão. Entre os argumentos para refutar essa proposta, ele aponta que o efeito do encarecimento dos itens exportados para os EUA por conta do imposto de exportação não é líquido e certo.

Além disso, a estratégia de tentar encarecer as exportações brasileiras de produtos importantes para os EUA pode ser neutralizada pela entrada de outros países fornecedores. Por isso, Jank ressalta que o ônus da retaliação poderá recair sobre os próprios exportadores brasileiros, que poderão perder mercado.

A seguir, os principais trechos da entrevista:

Após o tarifaço americano, uma das principais discussões passou a ser se o Brasil deveria retaliar os EUA. Qual é a sua posição?
Marcos Jank: Não se trata de escolher entre retaliar ou não fazer nada. O Brasil precisa agir, mas o caminho mais adequado é a negociação. Mais de 80 países foram atingidos por medidas comerciais dos EUA, e a maioria optou por negociar, e não por retaliar. Mesmo a China, que reagiu inicialmente com tarifas equivalentes, manteve as conversas com Washington. O importante é ter uma negociação ampla, permanente e proativa.

Então, como reagir?
Marcos Jank: O primeiro caminho é fortalecer a negociação bilateral. O segundo é utilizar a Lei de Reciprocidade Econômica aprovada pelo Brasil. Ela permite a abertura de consultas e procedimentos administrativos arquivados, que podem resultar em medidas de pressão sobre os EUA, especialmente em áreas nas quais os norte-americanos têm forte presença, como serviços e propriedade intelectual. O objetivo não é criar uma escalada de retaliações, mas trazer os dois lados para a mesa.

Por que serviços e propriedade intelectual seriam instrumentos mais eficazes?
Marcos Jank: Porque são áreas em que os Estados Unidos têm interesses relevantes no Brasil. Existe inclusive um precedente: o contencioso do algodão na Organização Mundial do Comércio (OMC). Quando o Brasil ameaçou retaliar na área de propriedade intelectual, os norte-americanos aceitaram renegociar uma solução para evitar o conflito. Esse tipo de instrumento tende a ser mais efetivo do que medidas comerciais convencionais.

O que o sr. acha da proposta de taxar exportações brasileiras importantes para os Estados Unidos, como café, carne e suco de laranja? 
Marcos Jank: Acho uma proposta infeliz e perigosa. Nenhum dos países atingidos pelas medidas americanas necessariamente elevaria os preços pagos pelos consumidores americanos e forçaria Washington a negociar. Isso está longe de ser garantido. O resultado pode ser apenas o encarecimento para os consumidores americanos concorrentes internacionais.

Por que seria uma medida arriscada?     
Marcos Jank: Porque não há garantia de que a taxação elevaria os preços nos Estados Unidos ou provocaria uma reação do governo norte-americano. Outros fornecedores podem ocupar rapidamente o espaço deixado pelo Brasil. Nesse caso, o prejuízo recairia principalmente sobre os exportadores brasileiros.

Pode dar exemplos?         
Marcos Jank: Na carne bovina, o Brasil responde apenas por 15,0% das importações americanas e cerca de 2,0% do consumo local. Canadá e Austrália têm participação maior e poderiam ampliar as vendas. Mesmo em produtos nos quais somos mais relevantes, como café e suco de laranja, os consumidores podem migrar para fornecedores alternativos ou produtos substitutos. Por isso, a medida corre o risco de punir mais o exportador brasileiro do que os EUA.

Seria um tiro no pé?       
Marcos Jank: Sim. Existe uma visão equivocada de que uma taxação sobre as exportações brasileiras necessariamente elevaria os preços pagos pelos consumidores americanos e forçaria Washington a negociar. Isso pode não acontecer. E, se acontecer, pode haver substituição por outros fornecedores.

O Brasil errou ao não negociar antes?                                                                                      
Marcos Jank: O setor privado brasileiro atuou fortemente em Washington, contratou consultorias e realizou diversas viagens. O problema é que não houve um diálogo amplo e construtivo entre os dois governos. Questões político-ideológicas acabaram se sobrepondo aos interesses econômicos.

Há espaço para uma agenda positiva entre Brasil e Estados Unidos?         
Marcos Jank: Sem dúvida. Existem temas de interesse comum, como biocombustíveis, minerais críticos, terras raras, aeronaves, biotecnologia, serviços e propriedade intelectual. São áreas que poderiam servir de base para uma negociação mais ampla e estratégica entre as duas maiores economias das Américas.

Qual seria, então, a melhor estratégia para o Brasil?       
Marcos Jank: Combinar negociação permanente com a utilização da Lei de Reciprocidade como instrumento de pressão. Ao mesmo tempo, o país deve avançar na diversificação de mercados, acelerar acordos comerciais e ampliar a inserção nas cadeias globais de valor. Há muitas agendas mais importantes do que uma retaliação unilateral.

Acha que o governo adotará medidas de retaliação?           
Marcos Jank: Não acredito que vá taxar exportações brasileiras. Além dos riscos econômicos, existe o risco de um instrumento costumeiro ser difícil de remover depois de criado. A experiência da Argentina mostra que impostos sobre exportações podem causar danos duradouros à competitividade do agronegócio.

O que deve acontecer nos próximos meses?       
Marcos Jank: A tendência é de pouca movimentação até as eleições. Mas, independentemente do cenário político, o Brasil precisará buscar uma negociação mais estruturada com os Estados Unidos. A Lei de Reciprocidade pode ser uma ferramenta importante para incentivar essa mediação, mas o objetivo final deve continuar sendo a construção de uma solução negociada.

A Lei de Reciprocidade pode ser considerada uma forma de retaliação? 
Marcos Jank: Não exatamente. A lei cria um rito formal, com consultas diplomáticas e procedimentos administrativos, antes da adoção de qualquer medida. Ela funciona mais como um instrumento de pressão para incentivar a negociação do que como uma retaliação imediata. É uma forma de mostrar que o Brasil tem ferramentas para reagir, sem necessariamente entrar em uma escalada de conflitos comerciais.

Por que alguns setores defendem a taxação das exportações brasileiras?  
Marcos Jank: Há quem veja essa medida como uma demonstração de força nas negociações, além de uma forma de aumentar a arrecadação. Mas essa lógica é perigosa. Um imposto sobre exportações pode reduzir a competitividade dos produtos brasileiros, diminuindo a participação do país em mercados estratégicos e acabar prejudicando justamente os setores que hoje sustentam boa parte da balança comercial brasileira.

A China conseguiu negociar com mais força com os Estados Unidos. O que o Brasil pode aprender com esse caso?           
Marcos Jank: A principal lição é a importância de reduzir a dependência de um único mercado. A China entrou nas negociações em uma posição mais forte porque ampliou seus destinos de exportação e sua presença em diferentes cadeias globais. O Brasil precisa avançar nessa mesma direção, acelerando acordos comerciais, atraindo investimentos, agregando valor às exportações e ampliando sua presença em mercados como Canadá, Japão, Coreia do Sul e outros parceiros estratégicos. 

Marcos Jank

Professor sênior de agronegócio no Insper e coordenador do centro Insper Agro Global, é engenheiro agrônomo formado pela ESALQ-USP, mestre em política agrícola pela Montpellier-França, doutor em administração pela FEA-USP e livre docente pela ESALQ. É membro do “Board of Trustees” do International Food Policy Research Institute (IFPRI) em Washington, Estados Unidos, do Conselho Consultivo Independente da Cargill Global para sustentabilidade, uso da terra e proteção de florestas e membro dos Conselhos da RUMO Logística (CAD) e da COMERC Energia.

<< Entrevista anterior
Buscar

Newsletter diária

Receba nossos relatórios diários e gratuitos

Assine nossa newsletter

Loja