Os coprodutos úmidos da indústria de etanol de milho avançam nos confinamentos, enquanto a armazenagem e a conservação se consolidam como desafios centrais para a segurança nutricional.
Foto: Bela Magrela
O avanço da produção de etanol de milho no Brasil tem ampliado a oferta de coprodutos destinados à nutrição animal, especialmente aqueles na forma úmida, como o WDG (grãos úmidos de destilaria), o WDGS (grãos úmidos + solúveis) e o WFS (fibra úmida + solúveis). Embora apresentem vantagens econômicas e nutricionais, esses coprodutos trazem desafios importantes relacionados à conservação, à logística e ao manejo dentro das propriedades, exigindo maior profissionalização do uso no campo. Além disso, a tendência de crescimento da participação dos coprodutos úmidos no mercado reforça a necessidade de entendimento técnico sobre armazenamento, perdas, investimentos em infraestrutura e aspectos de segurança nutricional.
Para discutir esse cenário, conversamos com Luiz Gustavo Nussio, professor titular da Esalq/USP, que analisa a evolução desse mercado, os gargalos operacionais e os cuidados que o pecuarista deve considerar ao incorporar esses coprodutos à estratégia nutricional dos confinamentos.
Quais são os principais desafios relacionados à conservação e à organização dos coprodutos úmidos da indústria do etanol, e qual é a participação desses coprodutos — como WDG, WDGS e WFS — no mercado atualmente?
Luiz Gustavo Nussio: De fato, vocês me pediram para tratar de um tema bastante atual, que é a organização desse coproduto úmido da indústria de etanol. Ele, naturalmente, como úmido, é um coproduto difícil de ser conservado. Então, parte da abordagem se deve ao fato de que os coprodutos úmidos têm natural dificuldade de conservação. Acho que a primeira informação muito importante é que hoje os números apontam que todas as formas de resíduos úmidos, ou coprodutos úmidos, perfazem cerca de 20,0% do mercado, neles estão embarcados o WDG, o WDGS e o WFS, que são procedimentos industriais diferentes e que resultam em coprodutos diferentes. Todos eles com matéria seca entre 30,0% e 40,0%, ou seja, grosseiramente 60,0% de umidade.
E por que a versão úmida está no mercado?
Luiz Gustavo Nussio: Porque não existe capacidade de secagem instalada para tudo o que se produz no Brasil e não haverá. Aliás, parte dos números que eu apresentei, que são decorrentes das estatísticas que temos à disposição, é que em dez anos a proporção de úmido deve subir da casa de 20,0% para 35,0% da divisão de mercado. E isso quer dizer que a produção total desses produtos vai aumentar, mas que a proporção de material úmido deve crescer muito, mostrando que o Brasil deve aumentar com as plantas de produção de etanol de milho, mas haverá restrição de capacidade de secagem. Mesmo quem seca todo esse coproduto hoje, deverá começar a aderir, ao menos em parte, para uma não secagem. Porque uma das restrições de estabelecimento de novas plantas é a capacidade de secagem. É substrato para ser utilizado na secagem. Então, para um bom entendedor, os coprodutos úmidos não somente têm uma importância grande, eles vão aumentar em volume e devem aumentar em proporção. E isso quer dizer o seguinte: vamos ter que viver com eles.
E como viver com esse coproduto úmido?
Luiz Gustavo Nussio: O utilizador mais frequente é o indivíduo que recebe partidas de úmido semanais, ou a cada 15 dias, ou eventualmente a cada três semanas. Esse é o mais frequente hoje. E nesse caso a gente conseguiu profissionalizar essa logística, criando uma condição de armazenagem mais favorável no nível de fazenda: piscinas revestidas, geralmente com uma inclinação que facilita a entrada e saída de pá carregadora. Portanto, o ângulo de rampa foi calculado para isso, e você consegue ter o produto bem-organizado ali com perdas reduzidas. Quando eu falo de perdas reduzidas, há cerca de sete ou oito anos quando nós começamos a estudar esse assunto, nós chegávamos a ter perda de 50,0%. As fazendas estavam totalmente despreparadas, se despejava no chão. E o material tem uma característica pastosa, ele não forma montes, ele se esparrama. Essa característica limita a construção de pilhas e montes mais altos. Ele raramente ultrapassa o meio metro de altura.
O primeiro passo foi criar revestimento e pavimentação do lugar onde o produto ia ser estocado. E hoje nós temos bons exemplos de sucesso nessa área. São investimentos que conseguiram reduzir perdas para alguma coisa próxima de 10,0%. Então, melhorou demais a capacidade de armazenamento. E aí, nós aprendemos duas coisas: parte da eficiência de custo do produto depende de reduzir perda, e quando a perda é muito alta, o seu custo vai proporcionalmente subir. A outra questão que fez as propriedades pensarem no investimento de armazenamento, é que elas estariam entrando num negócio que teria, de fato, um tamanho de operação cada vez maior. Não é uma atividade fortuita, passaria a ser uma atividade que só aumentaria. Isso fez muita gente se interessar por caixas revestidas e eventualmente até cobertas.
Por que há necessidade de estruturas cobertas para esse tipo de coproduto?
Luiz Gustavo Nussio: A oferta quantitativa mais generosa que o Brasil tem hoje desses produtos é exatamente nos meses de verão, quando as empresas continuam produzindo com toda a força, mas como as pastagens estão funcionando bem, a demanda de suplementação de campo é baixa. Então começa a sobrar produto. E as diversas empresas que têm produtos úmidos, elas criaram lógicas de favorecimento ou de incentivo para retirada nas águas. E essa retirada nas águas presume cobertura. Tem lugares que têm 600/700 milímetros de chuva em dois ou três meses. Então a sofisticação das instalações para você armazenar depende um pouco do entendimento de quão bom pode ser esse negócio. Eu acompanho produtores hoje que conseguem comprar produto por meio de uma valoração bonificada e estimulada a menos de R$200,00 a tonelada. Não custando nem uma arroba, por exemplo, para o produtor.
Se você quiser aproveitar uma chance como essa, você vai ter que fazer um investimento para estar pronto para ela. E no caso do coproduto úmido, mais frequentemente usado é esse: você vai desenhar uma capacidade de estocagem que vai te permitir estocar por duas ou três semanas e você vai receber cargas sucessivas. Isso, na verdade, não caracteriza exatamente um sistema de conservação. Ele é mais um sistema de armazenamento. Se eu tivesse que ser preciosista, eu diria o seguinte: “mas em duas semanas vão ter perdas?” Tem. Porque já começa a ver oxidação, começa a ver escurecimento de massa, e isso quer dizer que uma parte daquilo está sendo perdido. Mas se eu quiser realmente investir por estocagem longa, por exemplo, uma unidade por 90 dias, 180 dias, então eu vou ter que investir em estratégias de aditivos que sejam cirurgicamente posicionados para controlar o crescimento de fungos e leveduras. São geralmente os micro-organismos mais espoliadores da massa. Esse público ainda é pequeno, embora a gente já tenha conhecimento de como fazer. A gente demorou uns três ou quatro anos para conseguir evoluir e chegar ao ponto de dizer que nós temos, sim, um refinamento de produtos e doses que podem ser usados estrategicamente para conseguir conservar o produto de maneira mais eficiente.
Esse ponto que você cita é muito interessante, porque há dúvidas a respeito da questão do enxofre, que era uma preocupação dentro das propriedades tanto para o coproduto seco quanto úmido. E parece que nos últimos anos essa sofisticação tem colaborado com a diminuição do enxofre. Claro que ainda há essa preocupação, mas tem sido menor nos últimos anos. Procede?
Luiz Gustavo Nussio: Sim. Na verdade, um pouco disso se deve à importação de informação. E ela é meio que anacrônica no tempo. Porque os americanos tiveram muito problema com o enxofre há mais de dez anos atrás. E aparecia problema porque as primeiras plantas tinham uma ineficiência industrial em conseguir usar todo o amido para convertê-lo em etanol. Então para facilitar a quebra do grão e a lise daquelas células de amido, se utilizava de doses relativamente altas de ácido sulfúrico, que é um agente hidrolítico que facilitava que as enzimas pudessem atuar na sequência. Mas o ácido sulfúrico é um portador de enxofre. Então, no final do dia, você tinha doses altas de enxofre decorrentes dessa quebra dentro do processo produtivo.
Com o passar dos anos, as plantas americanas, e mais tarde as brasileiras, começaram a ganhar rapidamente eficiência enzimática. Ou seja, a associação de enzimas e a maneira como elas são aplicadas na massa começaram a ganhar ano a ano competência aumentada de forma a poder diminuir progressivamente as doses de ácido sulfúrico que, acredite, em algumas empresas hoje foi zerado.
Professor, encerrando nossa conversa, o que o pecuarista precisa saber para escolher o coproduto úmido do etanol de milho para compor a estratégia nutricional do seu confinamento?
Luiz Gustavo Nussio: Você tem que saber de quem você está comprando. E na dúvida, mandar analisar o enxofre. Desde que você tenha doses que não sejam elevadas, o risco de enxofre não é inerente ao coproduto, ele é inerente ao processo. E reforço, você tem que saber de quem está comprando. O que eu posso te dizer é que hoje as grandes empresas do setor já não têm mais esse problema. Então os riscos de enxofre foram praticamente reduzidos.
Esta entrevista foi gravada no Encontro de Intensificação de Pastagens, em setembro de 2025. Clique aqui para assistir na íntegra.
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Luiz Gustavo Nussio possui graduação em Engenharia Agronômica e mestrado em Zootecnia e Pastagens pela Universidade de São Paulo e doutorado (PhD) em Animal Sciences pela University of Arizona. Atua no Departamento de Zootecnia da ESALQ desde 1988 nas áreas de Conservação de Forragens e Nutrição de Ruminantes, ocupando o cargo de professor titular. Também é líder do grupo de pesquisa do CNPq e atua como assessor da FAPESP e CAPES.
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