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Scot Consultoria

El Niño e sua influência na safra de trigo e plantio de soja para 2023/2024

Engenheiro-agrônomo e pesquisador, Gilberto Rocca da Cunha

Quinta-feira, 26 de outubro de 2023 - 11h00
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Gilberto Rocca da Cunha é engenheiro-agrônomo (1985), mestre (1988) e doutor (1991) pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). É pesquisador da Embrapa, desde agosto de 1989. Foi Chefe-Geral da Embrapa Trigo, de 1º de março de 2006 a 5 de setembro de 2010. É autor da série de livros Meteorologia: Fatos & Mitos (1997, 2000 e 2003), Cientistas no Divã (2007), Galileu é meu pesadelo (2009), A ciência como ela é... (2011) e Ah! Essa estranha instituição chamada ciência (2021); entre outros. Atua em pesquisa nas áreas de bioclimatologia de cereais de inverno, aplicações de previsões climáticas na agricultura e zoneamento agrícola de risco climático.


Scot Consultoria/Destaque Rural: Estamos vendo muitos eventos fortes do El Niño, como volume de chuvas acima da média, causando diversos problemas não só no campo, mas nas cidades. O que tem causado esse aumento tão forte dos impactos esse ano?

Gilberto Rocca da Cunha: As principais instituições que trabalham com previsão do tempo, eram unânimes desde o começo de 2023 em sinalizar que a tendência do comportamento da temperatura da superfície das águas, do Oceano Pacífico, na faixa equatorial, estava indicando a volta do fenômeno El Niño, então, já no mês de abril, o centro de previsão climática dos Estados Unidos mudou de “alerta” para “orientação” sobre a configuração de El Niño.

Muitos sinalizavam que o fenômeno chegaria com a possibilidade de um evento bastante forte em 2023 e, em nosso caso, ele é bem conhecido e sua influência maior é na primavera, o que levou as pessoas a não acreditarem na sua volta, porque, mesmo anunciado em abril, até então ele não havia ainda claramente mostrado sua força.

Chegou setembro e o quadro mudou radicalmente. Então, dentro do comportamento típico do El Niño, embora nenhum evento seja igual ao outro, em 2023, podemos dizer que estamos sob a influência e ação de um El Niño bem característico, a exemplo dos que foram clássicos, como os eventos de 1972 e 1973, 1982 e 1983, 1997 e 1998, e em tempos mais recentes, 2015 e 2016.

Scot Consultoria/Destaque Rural: Nós tivemos um grande volume de chuva de junho a setembro no Sul, cerca de 900 milímetros contra um “padrão” de 600 milímetros. Essa diferença de 300 milímetros não é tão grande assim, podemos dizer que o que causou problemas foi o fato dessa chuva ter se concentrado em setembro?

Gilberto Rocca da Cunha: Sim. Os solos já estavam bastante úmidos, mas, no começo de setembro, as chuvas foram muito intensas. Tanto que em setembro de 2023, se nós tomarmos como referencial a estação meteorológica de Passo Fundo - RS, que tem séries de observações que começaram em 1912, tivemos 498 milímetros de chuva, representando o segundo mês de setembro mais chuvoso de toda a história das observações meteorológicas. Até então, o recorde é de 517 milímetros, ocorrido em setembro de 1928.

Essa chuva concentrada em poucos dias causou todos os transtornos na Bacia do Taquari-Antas, também tivemos a tragédia no Vale do Taquari, com cidades praticamente arrasadas na região.

Só que não parou por aí. Nas últimas semanas, as chuvas voltaram fortes, marcando a presença do El Niño típico, com grande aporte de umidade que vem da região amazônica, com grandes aglomerados de nuvens que se formam na região do Chaco, no Paraguai e Argentina, e se deslocam transversalmente aqui no Sul do Brasil, atingindo principalmente o Norte, Sul e Noroeste do RS com chuvas de grande intensidade.

Scot Consultoria/Destaque Rural: Nós estamos na iminência da colheita de trigo. Qual é o momento em que ocorre o maior volume de colheita no estado e quais são as tendências climáticas para esse período?

Gilberto Rocca da Cunha: A colheita varia conforme a semeadura, mas, a partir da segunda metade de outubro até a primeira quinzena de novembro, a maior parte das regiões já estariam prontas para a colheita. É claro: o Noroeste, as Missões e as regiões da depressão Central, são regiões mais quentes, que colhem antes e, a última região a colher o trigo, é o Planalto Catarinense e o Planalto do Sul do Paraná.

E aí entra um ponto importante, porque esse período da colheita do trigo coincide com a semeadura da soja, é o período do calendário preferencial dos produtores e esse ano tem El Niño, com chuvas mais frequentes e mais intensas. Isso exige que se priorize a colheita do trigo, logo que seja possível a entrada de máquina nas lavouras. Não se deve ficar postergando essa colheita.

É claro que, muitas vezes, seja por maquinário ou por quantidade de pessoal, o produtor opta por privilegiar a semeadura da soja, e aí é comum passar pelas rodovias em uma semana e ver uma lavoura de trigo que já está pronta para a colheita. Aí você passa duas semanas depois e ela continua lá. Só mais escura, porque pegou chuva, mas continua lá à espera.

Então, se eu tivesse que destacar um ponto importante na questão da triticultura, é que não se postergue a colheita do trigo em ano de El Niño, porque os riscos de chuvas intensas e mais frequentes, até mesmo granizo, são altos. Uma ocorrência dessas pode causar prejuízos que podem ser até totais nas lavouras.

Scot Consultoria/Destaque Rural:  Quais são as tendências climáticas que se apresentam para esse período, principalmente a partir de agora, da segunda quinzena de outubro, até meados de novembro?

Gilberto Rocca da Cunha: Nós temos que ter claro que eventos como o El Niño, uma vez estabelecidos, não somem do horizonte de uma semana para outra. São eventos que ficam atuando aí de um ano até um ano e meio, e o caso específico desse, com todas as projeções apontando que, pelo menos até o final do verão e início do outono de 2024, nós ainda estaremos sob a influência do El Niño.

Mesmo que a sua influência maior seja na primavera, em setembro, outubro e novembro, as chuvas são mais regulares e, em geral, acima do padrão normal do clima na estação de verão. Então, afasta um pouco aquele temor das estiagens por parte dos produtores, que vimos nos últimos 3 anos, com açudes e rios com estrutura de irrigação sem disponibilidade de água.

É claro que El Niños e La Niñas sempre reforçam a questão do bom manejo, o bom manejo da construção, de um perfil de solo, e isso não se faz na pré-safra. Isso se faz ao longo de alguns anos, trabalhando com rotação de culturas, com sistematização de áreas, embora muitas pessoas achem que não devem fazer estruturas de conservação, como terraceamento. Enfim, várias regiões mostrando que algumas estruturas que impedem esse escorrimento das águas, quando as águas da chuva, em vez de irem para as divisas, correm para as estradas e ficam no campo infiltradas. A melhor forma de armazenar água é no solo, e para isso é necessário ter estrutura, matéria orgânica e uma atitude de manejo conservacionista. E sem pressa, isso é feito com sucessão de espécies de comportamento diferente, leguminosas e outras espécies.

Scot Consultoria/Destaque Rural: Agora quanto a questão climática relacionada a doenças, acompanhamos o Paraná colhendo muita soja, mas sofrendo muito com doenças. Podemos prever que o próximo ano será marcado por maior presença de doenças?

Gilberto Rocca da Cunha: Existe sim a necessidade de maior atenção ao monitoramento. Muitas vezes entram com uma prática de proteção depois que a doença já se instalou, e aí não resolve mais. Temos que tentar fazer a identificação, pelo menos naqueles momentos em que os estudos técnicos e a assistência técnica dominam.

Então, algo fundamental na agricultura, que nós não podemos mais abrir mão, é ter assistência técnica em todas as lavouras. Claro que tem muitos produtores que são agrônomos, que têm excelente formação, mas é necessário a presença de um profissional da área agronômica hoje na atividade agrícola.


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