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Scot Consultoria

As melhores estratégias para cuidar do principal ativo financeiro do pecuarista: a pastagem

Entrevista com o zootecnista, me., professor e pesquisador, Leandro Barbero

Quinta-feira, 17 de agosto de 2023 - 06h00
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Zootecnista e mestre em Zootecnia pela Universidade Estadual de Maringá (UEM), doutor em Ciência Animal e Pastagens pela Universidade de São Paulo/ESALQ e Massey University – Nova Zelândia. Atualmente, é professor, pesquisador e coordenador do Projeto Boi a Pasto da Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Atua nas áreas de manejo e adubação de pastagens, além de integração entre lavoura e pecuária.


Scot Consultoria: Leandro, sabemos que a maior parte das pastagens no Brasil possui algum nível de degradação. Quais passos essenciais o produtor deve avaliar sobre o principal ativo financeiro (pastagem), para entender a condição de sua propriedade no contexto nacional?

Leandro Martins Barbero: Primeiramente, o produtor deve levar em consideração se as pastagens de sua propriedade têm permitido manter uma lotação suficiente para que haja produtividade. Muitas vezes, em uma mesma propriedade, temos pastagens em diferentes graus de degradação. É importante, então, definirmos quais são os piores pastos e encontrarmos o caminho para sua reforma ou recuperação, de modo que, no geral, a fazenda tenha pastos produtivos que suportem uma lotação suficiente para tornar a atividade lucrativa. Feita esta análise, o primeiro passo é definir se o pasto precisa ser reformado (replantio) ou pode ser recuperado. Para isso, normalmente precisamos do auxílio de profissionais competentes, no sentido de fazer um correto diagnóstico e determinar qual operação será mais eficiente. Vencidas as etapas de reforma ou recuperação, passamos então para a etapa de manutenção desta pastagem produtiva, que compreende tratos culturais como adubação, controle de pragas e manejo adequado do pastejo.

Scot Consultoria: Poderia comentar um pouco sobre a importância da utilização do adubo nitrogenado em sistemas de produção em pastagem? E as diferenças quanto à adubação nitrogenada que um sistema em rotação (soja-capim ou soja-milho-capim) pode ter em relação a um sistema apenas com pastagem?

Leandro Martins Barbero: O nitrogênio (N) é o nutriente mais importante para a produção das gramíneas forrageiras tropicais, que prevalecem na grande maioria das fazendas de nosso país. Basicamente, a adubação nitrogenada auxilia a planta de duas formas: aumentando sua produtividade e melhorando seu valor nutricional. Quando adubamos com nitrogênio, objetivamos, principalmente, o aumento da produtividade, visto que esta proporciona ao pasto maior capacidade de suporte, ou seja, suporta maior lotação animal. A maior lotação animal, aliada ao maior desempenho individual, fruto de uma forragem com melhor valor nutricional, resulta em um aumento da produtividade animal daquela área. O uso da adubação nitrogenada em sistemas de rotação com culturas, ou os chamados sistemas de integração lavoura-pecuária (ILP) pode ser diminuído pelo fato de algumas plantas destas rotações, como é o exemplo da soja, do amendoim e da crotalária, serem plantas leguminosas que fixam nitrogênio atmosférico no solo, aumentando o aporte deste nutriente para as gramíneas. Da mesma forma, mesmo que a rotação seja feita com plantas não leguminosas como, por exemplo, o milho e o sorgo, os resíduos de fertilizantes nitrogenados, que ficam na área após a colheita da cultura, podem também diminuir a necessidade de adubação nitrogenada.

Scot Consultoria: Em algumas regiões do Brasil, principalmente em partes do Centro-Sul, onde há fortes ondas de frio, podendo atingir temperaturas negativas, as pastagens podem sofrer danos severos. Quais estratégias podem ser utilizadas para amenizar os efeitos da geada?

Leandro Martins Barbero: Dentre as estratégias para amenizar os efeitos do frio para as pastagens, a principal delas é escolher plantas forrageiras adaptadas a estas condições. De forma geral, algumas plantas dos gêneros Cynodon, Pennissetum, Axonopus, Hemartria e Paspalum se mostram adaptadas a estas condições. Algumas plantas de ciclo anual como o azevém, a aveia branca e a aveia preta também podem ser utilizadas com este objetivo. Outra estratégia é o uso de adubação foliar nos pastos, especialmente com boro, cobre, manganês e zinco, de forma a deixar o plasma celular mais denso diminuindo seu ponto de congelamento, fazendo com que a planta suporte temperaturas mais baixas.

Scot Consultoria: Nas últimas décadas, o aumento na conscientização sobre questões ambientais tem levado a mudanças nos paradigmas de produção animal em pastagens no Brasil. Por isso, muitos projetos de sustentabilidade estão sendo lançados a cada ano, como o projeto de pastos saudáveis, para potencializar o sequestro e a estocagem de carbono. Você acha que o consumidor de carne bovina pagaria um valor maior por animais criados em pastos bem manejados?

Leandro Martins Barbero: Eu acredito que sim. Alguns consumidores pagariam mais na carne de animais criados em pastos bem manejados, que mitigam o efeito de danos ao meio ambiente causado por este sistema. Entretanto, o trabalho para se conseguir chegar neste patamar deve ser de divulgação, à sociedade e ao consumidor final, sobre os benefícios que o manejo eficiente de pastagens traz ao meio ambiente. Nós tratamos muito disso na comunidade científica, em eventos técnicos e com produtores, mas nos esquecemos de divulgar isso ao nosso cliente final.

Scot Consultoria: O uso de bioestimulantes em áreas de pastagem, seja via foliar ou em tratamento de sementes para gramíneas forrageiras, proporciona aumento na produção total de forragem, bem como a produção de folhas. É possível recuperar a produção da pastagem que possui um nível baixo de degradação através dessa tecnologia?

Leandro Martins Barbero: Se considerarmos pastagens com nível baixo de degradação, sim, o uso de bioestimulantes pode melhorar a condição produtiva deste pasto. Entretanto, deve-se tomar cuidado com o uso destas tecnologias, pois a planta continuará extraindo nutrientes do solo, nutrientes que não são fornecidos pelo bioestimulante. Para entender melhor este processo, é preciso compreender como agem os bioestimulantes. Eles são moléculas que proporcionam à planta condições fisiológicas favoráveis a algum processo: produção de folhas, produção de raízes, produção de sementes etc., sendo assim, a planta melhora esta condição, mas ainda continua demandando nutrientes do solo. Desta forma, se a planta apresenta maior produção de folhas, por exemplo, ela vai demandar mais nutrientes do solo, extraindo mais. Consequentemente, o uso isolado de bioestimulantes pode, no médio a longo prazos, degradar a fertilidade do solo, caso não haja reposição.


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