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Scot Consultoria

Produção agrícola e confinamento de bovinos aliados à tecnologia e sucessão familiar

Entrevista com os diretores do Grupo Campanelli, Antônio e Victor Campanelli

Terça-feira, 28 de março de 2023 - 06h00
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Antônio Campanelli é engenheiro agrônomo, graduado pela ESALQ/USP, onde trabalhou, também como pesquisador. Junto aos seus irmãos, foi um dos fundadores da Campanelli, onde atua como diretor presidente desde 1982. Foi um dos mentores da Tecnobeef junto à sua família. Atuou também como conselheiro e presidente da Coopercitrus Industrial. Sua missão é que o Brasil produza a melhor agropecuária para o mundo

Victor Campanelli é administrador pela Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP), CEO da Tecnobeef e da Campanelli, é a terceira geração de agropecuaristas da família. Atua como conselheiro da Coopercitrus e é membro da Câmara Consultiva de preço do Boi Datagro. Através de sua gestão estratégica, revolucionou a empresa e tornou o confinamento um dos mais tecnológicos e sustentáveis do Brasil.

Foto: Bela Magrela


Alcides Torres: O destaque do nosso evento são os dinossauros e o mote é “Não seja você, a causa da sua própria extinção”. Sabemos que são poucos os negócios familiares que dão certo. O que vocês fizeram de diferente e que levou ao sucesso do Grupo Campanelli?

Antônio Campanelli: É evidente, Scot, que nosso caso vem de longa data. Meu pai veio da Itália para trabalhar em fazendas de café, há mais de 100 anos. A maneira que minha família foi criada influencia muito nisso, porque fomos criados unidos. Em 1980, fui inspirado pelo meu pai e sugeri que nos organizássemos de maneira diferente, assim montamos a nossa empresa em 1982, há 40 anos. Penso que seja muito importante ter humildade para seguir nos negócios, com muito trabalho e transparência, e foi assim que conseguimos administrar nossa empresa ao longo dos anos.

Alcides Torres: Antônio, uma vez você me disse que distribuir dividendos todo ano era o seu maior segredo, é verdade?

Antônio Campanelli: É verdade. Desde 1982, sinceramente, nós nunca deixamos de distribuir dividendos nenhum ano. A empresa precisa crescer, se desenvolver, mas nossos sócios também precisam ter participação nos nossos resultados.

Alcides Torres: Victor, você é representante da modernidade, da economia circular. Eu gostaria que falasse um pouco do seu trabalgo de racionalização da colheita da cana-de-açucar, da reciclagem no confinamento, da gestão de riscos na pecuária e na Tecnobeef. Como é que as coisas foram de "apenas uma fazenda" para um grande empreendimento?

Victor Campanelli: Como meu pai disse, a união é a razão do sucesso da nossa empresa, mas temos também o lado da operação. Sinergia é uma palavra que encaixa muito bem no grupo. Eu sempre gostei muito de tecnologia, sempre confrontei o status quo e refleti em como posso fazer melhor do que já é feito. Entre 2005 e 2007, estávamos no início da mecanização da colheita da cana-de-açúcar, em que a cana queimada era colhida manualmente e mudamos para a colheita mecanizada. Em 2007, nos perguntamos: como vamos colher uma cana com alta produtividade, sem ter prejuízos econômicos e garantindo a longevidade do canavial? Naquela época, buscamos por tecnologia com outras empresas que já tinham distribuição aqui no Brasil e foi nosso primeiro contato com tecnologia pesada, de lá pra cá, viemos em uma espiral ascendente, utilizando piloto automático, agricultura de precisão, taxa variável e drones, tecnologias que, hoje, estão muito consolidadas na agricultura e que estão chegando para a pecuária, que está passando por uma mudança de perfil do produtor, já que a terminação está ficando cada vez mais profissional.

Quanto à gestão de risco, estamos com um problema crítico na terminação por conta dos recentes problemas com a exportação para a China, que é onde geralmente dói mais, a volatilidade é maior. Então, a onda tecnológica está chegando à terminação primeiro e, quando é necessário mais capital, é necessário mais controle. Como disse, está havendo uma mudança no perfil do terminador, acredito que não será mais o pecuarista, será o agricultor-pecuarista. O pecuarista do futuro é aquele que tem a pecuária integrada à agricultura. É aí que entra a economia circular, já que, por exemplo, hoje, conseguimos fazer uma grande área de agricultura orgânica, com uma pequena parte de fertilizantes químicos, não porque é bonito, ou porque a Europa está pedindo, mas porque faz sentido dos pontos de vista econômico e ambiental. Por isso eu digo que o futuro pecuarista é o agricultor, já que podemos utilizar o esterco como adubo, uma ferramenta para aumento da produtividade agrícola.

E indo para a gestão de risco, não é só saber vender o boi, é olhar para dentro do seu negócio, é possuir um modelo de negócio que funcione. Por exemplo, milho e fertilizantes subiram e, para a gente, quanto pior melhor, porque temos uma estrutura verticalizada. Então essa é a verdadeira gestão de risco, controlar seu custo, não o preço de venda. Então temos investido cada vez mais em produzir mais barato, com maior qualidade nutricional para sermos mais competitivos no valor da arroba. Temos dois negócios que carregam o grupo, que são a cana-de-açúcar e a pecuária e, agora, entramos com um terceiro pilar, que é a nutrição animal. Estamos num momento difícil para o boi, mas colhemos os frutos da cana, então essa diversificação é muito importante para o crescimento e perpetuação.

Alcides Torres: Ouvi falar que vocês têm um centro de pesquisa. Isso é uma raridade, quase um diamante. Como é que funciona?

Antônio Campanelli: Scot, eu gosto muito de pesquisa desde a faculdade e, quando me formei, ganhei uma bolsa de estudos para ficar 2 anos em Viena, o que foi um divisor de águas, pois acabei decidindo não ir à Viena e ficar na fazenda, mas eu sempre gostei da área. Hoje, temos um dos maiores centros de pesquisa do mundo, com 3.700 bovinos utilizados somente para nossas pesquisas, em que testamos novas moléculas, fazemos experimentos com bem-estar animal e estamos tentando melhorar a nossa pecuária. Temos feito um trabalho muito importante.

Victor Campanelli: Temos muitos trabalhos feitos e publicados em revistas científicas. As universidades fazem um trabalho fantástico, porém um dos maiores desafios da pesquisa, é levar para a prática o que é estudado com um pequeno grupo de bovinos, pois quando se aplica o estudo em um número maior, não se vê exatamente o mesmo resultado. Temos 4 doutores CLT trabalhando conosco nessa área, esperamos que muita coisa boa saia dali.

Alcides Torres: E a família toda topou fazer o centro de pesquisa?

Antônio Campanelli: Na verdade, a diretoria tem poderes de decidir o que é o melhor para a empresa, sendo tudo muito bem pensado e conversado. Nenhuma decisão é tomada sem estudo ou trabalho por trás.

Victor Campanelli: A gente consegue ter muita confiança nas decisões que tomamos. Hoje estamos no controle dos centavos no confinamento, centavos que viram milhões no final do ano. É claro que isso tem seus custos, mas quando ponderamos os custos e os benefícios, os benefícios fizeram mais sentido.

E, deixando claro, nosso centro de pesquisa não é para concorrer com as universidades, mas para complementar, utilizando a tecnologia de maneira comercial.

Antônio Campanelli: Só complementado, a Tecnobeef foi criada para nos atender. Quando criamos a parte de nutrição para nós, alguns amigos começaram a se interessar pelos produtos também e foi aí que começou. Ela ficou uns 3 anos e meio sem departamento de venda, os amigos que vendiam nosso produto. De um ano para cá, que começamos a estruturá-la. Criamos um nicho de mercado que não existe outro igual. Fabricamos aquilo que o cliente quer, nossos produtos são personalizados.

Victor Campanelli: O conceito do nosso negócio de nutrição é baseado na customização. É claro que tem produtos que servem para a maior parte dos nossos clientes, porém alguns precisam de um produto único, então desenhamos um específico. E esse é um mercado que algumas empresas não gostam de atuar, porque existe um rendimento industrial ao fabricar somente um tipo de produto, mas quando se fala em produzir produtos diferentes, existem rendimentos e custos operacionais diferentes.

Alcides Torres: Eu queria encerrar falando da ação social que vocês têm com o Hospital do Amor (HA) de Barretos. A Scot Consultoria também realiza algumas ações, mas o que vocês fazem é muito importante. Podem falar um pouco sobre?

Victor Campanelli: Então Scot, eu sempre ouvi falar sobre o que o pessoal do HA realiza. Em um dia, fomos fazer uma visita, com a JBS, e saímos de lá com um sentimento de que ainda bem que eles existem, é um trabalho admirável. Então de lá para cá, estamos na missão de ajudar e multiplicar. Começamos a doar 1 real por boi abatido, na época, e fomos fomentando, duplicamos, triplicamos as doações e muitas pessoas entraram nessa onda conosco, inclusive nossos fornecedores. Hoje damos uma contribuição relevante, mas tento multiplicar a mensagem, passando nossos conhecimentos e ajudando o próximo.


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