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Scot Consultoria

Práticas ILP e ILPF, avanços dos sistemas no Brasil e o mercado de carbono

Entrevista com o médico-veterinário e consultor sênior em agronegócio na CRIATEC, William Marchió

Terça-feira, 21 de fevereiro de 2023 - 06h00
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Graduado em Medicina Veterinária, pela Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias Campus de Jaboticabal, da Universidade Estadual Paulista, UNESP, concluído em 1992. É pós-graduado em Produção Animal pela Universidade Federal de Lavras (2000), UFLA, e em Qualidade Total Rural e Análise de Perigos e Pontos Críticos de Controle pelo convênio SEBRAE/SENAR/SENAI (2001 e 2002, respectivamente). Atualmente, é CEO da CRIATEC, Consultoria em Agronegócios e gestor de projeto de sustentabilidade socioambiental.

Foto: ShutterStock


Scot Consultoria: O que podemos definir como um sistema integrado de produção pecuária

William Marchió: Os SIPAs, sistemas integrados de produção agropecuária, são definidos como uma estratégia de produção agropecuária que integra diferentes sistemas produtivos, agrícolas, pecuários e florestais, dentro da mesma área. Pode ocorrer em cultivo consorciado, em rotação ou sucessão, de forma que haja interação entre os componentes, gerando benefícios mútuos.

Scot Consultoria: Quando falamos sobre isso, o que é que o produtor precisa ter em mente para começar a pensar na sua propriedade e no modelo de produção?

William Marchió: Dentre as tecnologias do grupo ABC, Agricultura de Baixo Carbono, temos a ILPF como uma das ferramentas disponíveis ao produtor. Em nosso país, cuja maioria de nossos solos são pobres em nutrientes e, quase sempre, em regiões com desafios climáticos, a ILPF vem como uma alternativa muito interessante de intensificação das atividades produtivas e que geram mais receita líquida por hectare quando comparado aos sistemas convencionais. Sendo assim, o produtor pode usufruir desse conhecimento que é gerado por nossas instituições e universidades e pode aplicar em sua propriedade.

Scot Consultoria: A Integração Lavoura-Pecuária é um marco e é crescente no país. Mas, sabemos que a pecuária no sistema possui “vida útil” associada ao preparo das lavouras para a próxima safra. Há como, dentro de sistemas integrados, realizar a terminação do gado ou o resultado deve ser medido pela quantidade de arrobas produzidas em determinado período?

William Marchió: Quando temos uma fazenda com Integração Lavoura-Pecuária, é importante o produtor pensar em um sistema de produção, onde uma das culturas será a pastagem e a produção dessa área, as arrobas geradas. Porém, temos vários arranjos com diferentes períodos de pastoreio, indo do “boi safrinha” com 7 a 8 meses de pastagens na ILP, ou também períodos mais curtos de 70 a 90 dias de pastejo após as culturas de grãos. Sendo assim, o planejamento deverá ser realizado em função dessas disponibilidades, para determinar que animal adquirir, que recria implementar, ou até a implementação de uma TIP (terminação intensiva a pasto) ou RIP (recria intensiva a pasto). Tudo pode ser ajustado em função da disponibilidade e da estratégia a ser adotada pelo produtor. Lembrando que, num sistema ILP, o animal passa a ser indissociável da cultura de grãos, pois os benefícios são muitos em termos de produtividade de @ e de grãos.

Scot Consultoria: O assunto do mercado de carbono para a pecuária está em foco, o que se pode dizer quanto aos benefícios de sistemas integrados quanto a este mercado?

William Marchió: Como já dito antes, a ILPF faz parte do conjunto de tecnologias do grupo ABC, dessa forma, temos produtos advindos dessa tecnologia com uma menor pegada de carbono, ou até carbono negativo, devido ao intenso sequestro de carbono pelo uso da tecnologia. Porém, para chegarmos a monetizá-lo, ainda temos um caminho longo a percorrer, o carbono poderá vir a ser a “cereja do bolo” de um processo tecnológico que entrega resultado por si.

Scot Consultoria: Sabendo da regionalização das produções agrícolas brasileiras (milho, soja, trigo, sorgo etc.), qualquer cultura consegue trabalhar bem em sistema integrado?

William Marchió: Nós temos vários modelos de ILP/ILPF capazes de serem utilizados com diferentes culturas e em diferentes biomas. A Embrapa, assim como outras instituições espalhadas pelo nosso país, desenvolve modelos com arranjos inusitados. Temos uva com ovelhas, temos suínos com coco-da-bahia, cabras e vacas de leite, algodão ou trigo na integração, palma e gliricídia no sertão. Isto é, sempre teremos um modelo adequado e adaptado à grande maioria de nosso território

Scot Consultoria: E com relação ao capim, qual a melhor indicação para iniciar os trabalhos com sistemas integrados?

William Marchió: Para o produtor tomar uma iniciativa e diminuir a margem de erros, é muito importante visitar vizinhos que já utilizam a tecnologia para minimizar os erros. Não existe um capim ideal, existe um capim adequado ao solo, clima e capacidade de manejo da fazenda. Não existe uma receita de bolo, mas arranjos capazes de serem implementados em cada região. Para não ficar na retórica, o mais comum para quem está iniciando nas regiões do cerrado, é se fazer milho com Brachiaria ruziziensis ou utilizá-la após a cultura de soja. Para alguns pecuaristas, iniciar com o milho e braquiária é a maneira mais fácil de fazer, pois se algo sair do controle, ele pode colher tudo para silagem e não terá prejuízo e um bom pasto pós-colheita.

Scot Consultoria: Qual o impacto da suplementação do gado dentro de sistemas de integração? Além disso, quais os impactos da lavoura para o desempenho do capim?

William Marchió: No consórcio, temos um capim com alta produtividade e, normalmente, em boa condição vegetativa em pleno período de diminuição das chuvas, o resíduo de adubação da cultura de grãos impacta positivamente no vigor dessa pastagem consorciada. A suplementação animal, dentro desse contexto, é fundamental para melhorar o desempenho desses animais e o aproveitamento desse material produzido, respeitando o conhecimento técnico direcionado a qual o melhor suplemento para atender ao conjunto, o tipo de animal, o objetivo esperado, a disponibilidade de massa de forragem e qualidade dessa massa, lembrando que isso irá se alterar significativamente com o passar dos meses de pastoreio na área.

Scot Consultoria: Por fim, qual o principal recado que o senhor deixa para o produtor que pretende trabalhar com sistemas integrados?

William Marchió: Como em toda aventura por um novo sistema de produção, começar pequeno, pensar grande e crescer rapidamente. Sempre se apoiando em informação técnica de qualidade e buscando mentores eficazes.


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