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Scot Consultoria

Mercado de couro: produção sustentável

Entrevista com o gerente de sustentabilidade da JBS Couros, Kim Sena

Terça-feira, 26 de julho de 2022 - 11h00
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Atua como gerente de sustentabilidade na JBS Couros, trabalhando em soluções ecoeficientes para a indústria coureira, desde a otimização de processos até a avaliação de mecanismos para a minimização do uso de recursos naturais. No passado, Kim foi um dos responsáveis pela criação do Kind Leather e da plataforma de rastreabilidade JBS360. Confira!

Foto: Shutterstock


Scot Consultoria: Quais impactos ambientais e econômicos o couro sustentável traz para o setor?

Kim Sena: Por se tratar do beneficiamento de um subproduto, o couro produzido de maneira responsável e conforme padrões produtivos modernos presta um serviço ambiental de upcycling, ou seja, aumenta o valor para a sociedade e traz utilidade a algo que se tornaria um resíduo. Assim, promove um material duradouro, resistente e atrativo, que aumenta a eficiência de toda a cadeia e gera empregos.

De toda maneira, é preciso garantir que as boas práticas sejam adotadas durante todo o processo para que seja realizado de forma sustentável. Por isso, é importante que curtumes tenham políticas auditáveis de rastreabilidade da matéria-prima processada e realizem verificações de seus processos fabris.

Scot Consultoria: Quais os avanços em pesquisas quanto à fabricação de produtos que usam biomateriais como matéria-prima?

Kim Sena: Inseridos na era do plástico por muitos anos conseguimos ter uma relação muito mais madura com o material. Apesar de ser extremamente útil para diversas aplicações (afinal, como produziríamos computadores ou seringas sem o plástico?), aprendemos que ele não deve ser utilizado para tudo. E uma aplicação para a qual o plástico não é o material ideal é em revestimentos: vemos nesse setor o plástico sendo usado como algo barato, porém descartável.

Por outro lado, vemos fibras naturais como algodão, seda, lã ou couro como materiais provenientes do solo e que se degradam com maior facilidade quando submetidos às condições necessárias, fazendo parte de um ciclo natural e circular. Ao invés de processar carbono armazenado por milênios sob o solo na forma de petróleo ou gás natural, as fibras naturais usam o carbono fixado da atmosfera pela fotossíntese das plantas.

Existem ainda os biomateriais feitos em laboratório, uma rota promissora para a criação de revestimentos alternativos. Entretanto, hoje esses materiais possuem desafios tecnológicos de performance e resistência, de forma que geralmente são misturados com plásticos para dar a estrutura necessária. Essa informação nunca é compartilhada com o consumidor, de forma que ele é levado a acreditar que se trata de uma fibra natural quando na realidade se trata de algo híbrido e não facilmente biodegradável.

Scot Consultoria: Quais frentes de atuação a JBS tem trabalhado em direção à uma produção mais sustentável de couro?

Kim Sena: Adotamos há 2,5 anos uma visão de ciclo de vida para a caracterização dos nossos produtos e processos produtivos, uma metodologia que permite a mensuração dos impactos ambientais de cadeias produtivas.

Através dela, obtemos dados detalhados de quais são os fatores que contribuem para o impacto total do produto como: químicos, equipamentos, ou métodos produtivos específicos, possibilitando o início de projetos de melhoria.

Em adição, conseguimos direcionar o fluxo de pesquisa e desenvolvimento para que apenas as melhores práticas sejam replicadas quando algo novo está sendo criado, promovendo uma rota para uma produção continuamente mais sustentável.

Scot Consultoria: As exigências relacionadas à rastreabilidade da cadeia de carne bovina também estão no radar para o mercado de couro?

Kim Sena: Sem dúvida alguma é um tema muito importante para o setor. Apesar de se tratar de um subproduto e representar uma fração muito pequena do valor do boi, o couro é utilizado em carros, calçados, sofás e outros bens duráveis vendidos por grandes marcas globais.

Assim, existe uma grande lupa sobre o couro e outras matérias-primas provenientes de áreas apontadas como de risco de desmatamento, exigindo processos detalhados de due dilligence para garantir sua origem.

No momento, diversos protocolos estão sendo escritos internacionalmente para o monitoramento de produtos manufaturados sobre commodities, inclusive exigindo verificação da cadeia até a primeira fazenda produtora.

Neste sentido, temos a oportunidade de sermos parte importante da solução, entregando um produto nacional de qualidade, sustentável e de origem responsável. Na JBS Couros apresentamos a plataforma JBS360 Leather ID, que permite o rastreio dos produtos a partir de códigos marcados em cada couro.

Scot Consultoria: Qual a porcentagem do couro produzido no Brasil que é considerado Kind Leather e quais os principais benefícios desse produto?

Kim Sena: Hoje aproximadamente 30% dos couros produzidos no Brasil são Kind Leather. Entretanto, o mercado tem, cada vez mais, percebido que a abordagem proposta pelo Kind Leather é o futuro do setor em termos de eco-eficiência e apresentação de um couro sustentável, por isso vemos com muito otimismo o aumento crescente da parcela de Kind Leather nos próximos anos.

Scot Consultoria: Você poderia comentar rapidamente sobre a Avaliação do Ciclo de Vida (ACV)? Esse método vem se popularizando na indústria brasileira de couro?

Kim Sena: A visão de ciclo de vida tem ganhado cada vez mais visibilidade por possibilitar quantificar o impacto de diferentes produtos e comparar os valores obtidos. Isso permite que se aprenda muito com o processo e se utilize das informações obtidas para traçar uma trajetória de melhoria contínua.

O método se estabeleceu como a melhor forma de avaliar os impactos de uma cadeia, por isso tem ganhado popularidade em muitos e diferentes setores, inclusive o de materiais, no qual o couro está incluído.


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