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Scot Consultoria

A sustentabilidade e o manejo de plantas daninhas

Entrevista com o engenheiro agrônomo e doutor em agricultura, Sidnei Roberto de Marchi

Terça-feira, 26 de abril de 2022 - 16h30
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Sidnei Roberto de Marchi possui graduação em Agronomia pela Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias de Jaboticabal (1990), mestrado em Produção Vegetal pela mesma instituição (1995) e doutorado em Agricultura pela Faculdade de Ciências Agrárias de Botucatu (2006). Atualmente é Professor Associado IV da Universidade Federal de Mato Grosso. Tem experiência na área de Agronomia, com ênfase em fitotecnia, atuando principalmente nos seguintes temas: reguladores de crescimento para gramados e interferência de plantas daninhas em áreas de pastagem.

Foto: Envato


Sidnei é um dos palestrantes convidados para o Encontro de Confinamento e Recriadores  da Scot Consultoria para falar sobre controle de plantas daninhas em pastagens.

Scot Consultoria: Quais os principais impactos das plantas daninhas sobre os componentes morfoestruturais e na qualidade nutricional do capim?

Sidnei de Marchi: As plantas daninhas são um reflexo da degradação de pastagens, é equivocado pensar que elas são a causa da degradação. Se os pecuaristas e técnicos envolvidos na cadeia produtiva da carne mantiverem a forrageira em bom estado, o surgimento de plantas daninhas será bem menor.

Elas são altamente competitivas e estão no ambiente delas. Já a forrageira foi trazida da África, está muito bem adaptada, mas tem um ruminante se alimentando dela. A seleção do bovino em se alimentar somente da gramínea permite maior vantagem competitiva às plantas daninhas em relação às forrageiras.

Quando se retira os animais do pastejo para permitir o rebrote da forrageira, as plantas daninhas já estão com muita força, recrutando recursos do ambiente, como água, nutrientes e luz. A forrageira tenta escapar e buscar luz e, para alcançar esse objetivo, acontece um fenômeno chamado estiolamento, que faz com que a forrageira fique mais alta e, em detrimento disso, reduza o diâmetro do colmo, o que gera uma terrível consequência para a pastagem em termos de morfoanatomia, pois a forrageira vai perder rapidamente as folhas da base, ficando como um “espanador de pó”, de haste rígida e com poucas folhas no ápice, alterando a morfologia da planta. A perda de folhas reduzirá todos os teores nutricionais da forrageira e aumentará o teor de fibras não digeríveis pelo ruminante. Como resultado desse processo, haverá menor desempenho zootécnico dos animais e maior emissão de gases de efeito estufa.

Scot Consultoria: Quais são as principais medidas preventivas para minimizar a introdução e disseminação de plantas daninhas em pastagens?

Sidnei de Marchi: É muito importante que os pecuaristas tenham pastos quarentena dentro da propriedade, que consiste em manter um pasto isolado para receber lotes de animais oriundos de outras fazendas, permitindo que ele elimine, por meio das fezes, propágulos de sementes vindas da alimentação de um possível pasto altamente infestados por plantas daninhas.

Tenho uma série de fotos que mostram a germinação de sementes de plantas daninhas no esterco. Uma das principais plantas daninhas que germinam no esterco é o capim-navalha ou capim-navalhão (Paspalum virgatum), do qual o gado se alimenta somente da flor, somente quando há escassez de alimento, pois é pouco palatável.

Se eu adquirir um lote de animais que se alimentou dessa planta e introduzi-lo diretamente no pasto onde serão engordados, por exemplo, os animais vão defecar com essas sementes e ali irão nascer plantas de capim-navalha. Mas se eu tiver condições de manter esse lote em um pasto quarentena para eliminar essas fezes em um determinado período, será uma grande e eficaz medida preventiva.

Outra planta daninha que tem preocupado os pecuaristas é o capim-capeta (Sporobolus indicus), que não é ingerido pelos animais, mas que pode se aderir à pelagem do animal e também germinar nas fezes.

Scot Consultoria: Em pastagens o controle de plantas daninhas é tão importante quanto a recuperação de solo?

Sidnei de Marchi: O que permite o estabelecimento de plantas daninhas é um processo evolutivo de degradação, então, quando se faz o controle de plantas daninhas e adubação, consegue-se uma melhoria na oferta de alimento para os animais. Sendo assim, coloco o controle de plantas daninhas e adubação de pastagens no mesmo patamar e, vou mais além, tenho uma enorme preocupação com o que os grandes mercados consumidores de carne brasileira pensam sobre nossa forma de produzir carne. Tenho medo de que nos rotulem como poluidores e que embarguem nossa carne, em função da questão de emissão de gases de efeito estufa.

Embora sejamos produtores de “boi verde”, somos acusados de sermos grandes poluidores e responsáveis pelo aquecimento global e as plantas daninhas podem contribuir para isso também, pois, como já comentei antes, se altero a relação colmo:folha, vou produzir um alimento de menor qualidade e, consequentemente, os animais irão emitir mais gases de efeito estufa pelo baixo aproveitamento nutricional da forragem.

Ao controlar plantas daninhas, eu começo a mitigar emissão de gases estufa. Pretendo abordar esse assunto na minha palestra no ECR 2022.

Scot Consultoria: Comente sobre a importância de combater plantas daninhas de pastagens também no período seco.

Sidnei de Marchi: Consideramos seco o período em que a forrageira estará bem sensível pela falta de umidade no ambiente. Acontece que algumas plantas daninhas possuem o sistema radicular bem profundo, abaixo do nível da raiz das forrageiras, desse modo, as plantas daninhas conseguem sobreviver com muito mais facilidade durante esse período, tanto que em muitas regiões que visito, vejo a forrageira bem seca, mas com plantas daninhas verdes no meio, o que fará com que no período das águas as plantas daninhas estejam bem mais fortes do que a forrageira e com maior vantagem competitiva para captar nutrientes no solo.

Então, o período seco é um excelente momento para controlar as plantas daninhas, não visando uma ação momentânea, mas pensando na maior chance das forrageiras se recuperarem mais rapidamente no início das águas, livres da competição com plantas daninhas.

Para combater plantas daninhas na seca se utiliza métodos diferentes dos utilizados no período das águas, como aplicação de herbicidas na base da planta ou roçando a planta e aplicando herbicida no toco. Medidas como uso de correntão ou roçadeira também podem ser adotadas, embora eu seja contra o uso de roçadeira, porque ela não é seletiva e atinge a forrageira também.

Scot Consultoria: Na sua opinião, quais os desafios no manejo sustentável de plantas daninhas em pastagens?

Sidnei de Marchi: O manejo sustentável passa pela conscientização de que devemos cuidar muito bem do alimento que será fornecido aos ruminantes e respeitar a fenologia do capim, seja ele um panicum ou urochloa. É extremamente importante respeitar a altura de entrada e, principalmente, de saída das forragens, com a finalidade de deixar um resíduo, sempre respeitando a máxima altura de pastejo, pois isso elimina uma série de problemas.

Evidentemente, adotar práticas para fortalecer o componente forrageiro gera condições para haver sustentabilidade na atividade. Acredito que o caminho é cuidar da forrageira como uma lavoura que será utilizada como alimento para o principal componente produtivo, o ruminante.

Para tanto, há necessidade de quebrar os paradigmas do passado em que a pecuária era conduzida na forma de exploração, deixar a mentalidade extrativista para trás e começar a considerar a pecuária como a atividade econômica que é, onde todos os custos de produção são contabilizados e considerados no custo da @ produzida.

Já existem fazendas modelos de pecuária sustentável onde o manejo de plantas daninhas é um fator de economia.

A sustentabilidade econômica é importante, mas reitero minha preocupação com a sustentabilidade do ponto de vista ambiental, então meu trabalho é provar que é possível uma pecuária mais sustentável, realizando manejo de plantas daninhas e obtendo forrageiras de melhor qualidade, reduzindo a emissão de gases de efeito estufa.


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