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Scot Consultoria

Gestão de dados em propriedades rurais

Entrevista com o zootecnista, Paulo Marcelo Dias

Terça-feira, 19 de abril de 2022 - 11h00
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Zootecnista, mestre em produção animal e em gerenciamento corporativo focado na pecuária. É CEO da Gestão Agropecuária (GA) + Intergado e foi pioneiro na inovação e tecnologias de gestão, transformando fazendas em empresas rurais com foco em gestão de alta performance.

Foto: Envato


Scot Consultoria: Paulo, você poderia comentar um pouco sobre a Pecuária 4.0 e onde a Gestão Agropecuária+Intergado tem tido participação em meio a esse novo cenário?

Paulo Marcelo: O conceito de Pecuária 4.0 está ligado ao processo de digitalização da fazenda, que significa, na prática, mudar o modelo de gestão tradicional para uma gestão orientada à informação.

Isso só é possível com um mapeamento e organização dos processos da originação à comercialização para se coletar e conectar todas as informações necessárias para planejar o negócio, definir os indicadores de cada etapa da produção e medir os resultados produtivos e econômicos.

A tecnologia tem papel fundamental nesse cenário porque ela facilita a gestão orientada à informação por integrar todos esses pontos conectando os animais, os processos, as pessoas e os números do início ao fim. Isso dá mais poder aos gestores para controlar tudo com agilidade e mais segurança para tomar as melhores decisões de olho na meta de longo prazo.

Com a fusão das nossas marcas, nós conseguimos combinar a precisão do monitoramento do comportamento animal, que é uma inteligência da Intergado, com a visão gerencial de toda a operação, que é uma inteligência da GA, para calibrar os processos e os indicadores de forma mais assertiva, reduzindo as margens de erro e aumentando a segurança nos resultados.

Scot Consultoria: Como implementar a cultura de gestão de dados dentro de uma propriedade rural?

Paulo Marcelo: A pecuária é arriscada quando intensificada. A margem de lucro muitas vezes está no detalhe. É preciso conhecer as particularidades de cada fazenda, de cada operação, para saber onde intervir e isso só é possível com informação.

Para implantar a cultura de gestão de dados, o produtor precisa entender o valor da informação para o negócio dele e ter em mente que se deve integrar a gestão zootécnica, financeira e contábil. A questão é que existe uma diferença muito grande do resultado do negócio entre a visão zootécnica e a financeira com DRE contábil. Sem integrar essas informações há mais riscos para a sustentabilidade do negócio.

Para que o produtor possa implementar essa cultura, é necessário o envolvimento de todas as áreas da empresa com o foco em um objetivo único que deve estar direcionado para prover sustentabilidade e longevidade da operação.

A mudança começa de cima para baixo, com investimento em uma estrutura adequada para uma coleta de dados de qualidade e, acima de tudo, criar um ambiente para que seus colaboradores e stakeholders possam usar as suas experiências e transformar os dados em informações úteis na melhoria contínua do negócio.

A cultura da informação tem três pilares: uma coleta de dados bem-feita e confiável, a aderência aos processos e a análise constante para melhoria contínua, através da experiência das pessoas.

O objetivo final é associar a experiência profissional de todos os envolvidos, da operação à gestão, a uma nova cultura de transformar dados em conhecimento.

Scot Consultoria: Quais são as maiores dificuldades para pequenos e médios pecuaristas que visam a intensificação do seu sistema produtivo para a implantação desse tipo de tecnologia?

Paulo Marcelo: Muitos pensam que é o custo da tecnologia, mas é uma percepção errada. As tecnologias estão cada vez mais acessíveis e quando são bem utilizadas, o retorno do investimento é rápido e claro. Para se ter uma ideia, o investimento em automação de fabricação e fornecimento de trato gera um impacto de redução de perdas tão significativo que a tecnologia se paga, muitas vezes, no primeiro giro. Em um estudo que associou o investimento em tecnologias de pesagem voluntária e automação da nutrição, a cada R$1,00 investido o produtor teve R$6,00 de retorno. Então, o custo da tecnologia não é o problema.

A maior dificuldade está no ambiente que a tecnologia encontra para fazer o seu papel. A maior parte dos pecuaristas, mesmo os grandes, não tem um mapeamento adequado dos seus processos, não tem procedimentos operacionais padrão (POP’s) e, consequentemente, não tem como capacitar a sua equipe. Quando a tecnologia encontra esse tipo de ambiente, ela não opera em todo seu potencial. Em muitos casos, implantar um software de gestão, que já traz uma arquitetura de processos e rotinas com auditoria de atividades e travas de segurança, acelera a evolução da fazenda. Mas sem uma organização correta dos processos internos é difícil parametrizar o software e isso prejudica o desempenho da tecnologia e a melhoria dos resultados da fazenda.

Alguns dos exemplos mais básicos de falha nos processos são:

1. Registrar todos os animais com a mesma categoria ou raça e fornecedor, dessa forma não é possível medir e comparar os resultados por boi inteiro/Angus, boi castrado/Nelore, garrote, novilha, do “José” ou do “Manoel” etc.

2. Gestão de estoque, sem o mapeamento de perdas do processo de fabricação e fornecimento de ração adequado.

3. Registro errado da % MS e custos dos ingredientes: realizar nova compra e não atualizar esse dado no sistema é um erro grave, porque essa informação altera a projeção de animais atendidos e, consequentemente, interfere no controle do estoque.

Scot Consultoria: Quais resultados podem ser comprometidos com a má gestão da informação?

Paulo Marcelo: Na verdade, todos. O primeiro de tudo é não saber onde atuar para melhorar a margem de lucro do negócio. É preciso identificar as falhas internas para poder corrigir os erros e o que está funcionando bem. A partir de então, é perseguir os ajustes finos para melhorar a rentabilidade a cada ciclo.

A má gestão dos dados gera uma área nebulosa que começa com os custos invisíveis que o pecuarista não consegue perceber. Uma nota lançada errada com custos apropriados de forma errada prejudicando a análise financeira e a parte contábil, uma comissão de frete não considerada ou que foi somada ao valor do animal, um desperdício de ração fabricada e fornecida por erros de anotação ou ineficiência do processo são apenas alguns exemplos. Por esse prejuízo não ser visto, ele não é medido e, portanto, não pode ser corrigido. O pecuarista acaba tendo a falsa sensação de que está tendo lucro quando na verdade está operando em prejuízo, correndo um grande risco de não conseguir se manter na atividade a longo prazo.

Scot Consultoria: A informatização é fundamental para transformar propriedades rurais em empresas rurais. Como empresas de softwares têm superado a barreira de acesso à internet nas fazendas?

Paulo Marcelo: Quando começamos a implantar a tecnologia de gestão nas fazendas, há mais de 15 anos, enfrentamos problemas de estrutura ainda mais graves como a falta de acesso à energia elétrica e o acesso à internet era ainda mais restrito. Nossas soluções já foram pensadas e desenvolvidas para esses ambientes e, por isso, funcionam online e off-line com sincronização de dados.

Ao longo do tempo, os produtores também investiram em infraestrutura, principalmente no período de 2020 para cá. Em razão da pandemia, muitos viram a necessidade de ter acesso às informações de qualquer lugar e de criar mecanismos de controle e acompanhamento da produção, tanto presencial quanto à distância. Isso acelerou a digitalização e a profissionalização do campo.

Fazendas que operam com alta maturidade de gestão têm investido fortemente nos pilares de processos, infraestrutura, pessoas, tecnologias, liderança e conectividade. Quanto mais equilibrados são esses pilares entre si, maiores as oportunidades de lucro e de sustentabilidade econômica do negócio. Ainda temos a conectividade como um grande desafio para o produtor rural.

Scot Consultoria: Qual a diferença entre visão financeira e visão contábil na fazenda?

Paulo Marcelo: A diferença é simples no conceito, mas na prática exige integrar diferentes competências.

A visão financeira está muito relacionada aos custos. Seu controle se dá pelo fluxo de caixa, entradas e saídas de animais e insumos e acompanha o ciclo produtivo. Por isso, seus principais indicadores estão ligados ao desempenho do animal.

Já a visão contábil está mais relacionada ao resultado econômico e seu controle se dá pelo D.R.E (Demonstrativo de Resultados do Exercício) que registra investimentos, capital imobilizado, depreciação, estoque (animais e insumos).

Essas duas visões estão conectadas e dependem uma da outra. Integrar essas informações exige uma padronização dos conceitos, nomenclaturas e, principalmente, da coleta e registro correto dos dados desde a entrada dos animais até a sua saída.

O animal é um ativo biológico que muda de status ao longo do processo produtivo. Ele evolui de categoria, ele muda de peso, ele muda de lugar, ele gera custos diferentes em cada etapa do processo, ele morre e, principalmente, ele muda seu valor de venda presente diariamente. Ou seja, o patrimônio muda com as mudanças do estoque de animais e controlar isso de forma integrada é fundamental para saber o melhor momento de lucrar. Por isso, as fazendas de maior maturidade de gestão estão fazendo a integração do software de gestão produtiva com o ERP. Esse é o mais alto nível de gestão da informação no negócio pecuário. Precisamos da contabilidade inserida no dia a dia da fazenda e não apenas no final do mês recebendo as notas fiscais, pois dessa forma conseguiremos melhorar sempre os processos e antever problemas.

Scot Consultoria: Quais os benefícios de conectar as informações para a gestão da fazenda?

Paulo Marcelo: Informações conectadas de ponta a ponta na fazenda dão uma visão macro do negócio e uma visão micro dos processos. O benefício direto é saber o que está acontecendo em qualquer rotina da fazenda, a qualquer momento e poder analisar o impacto das ocorrências no planejamento do negócio.

Com isso, os gestores podem manter o foco na estratégia, planejar com mais segurança, identificar as falhas e os pontos de melhoria, e atuar nesses ajustes mantendo o controle dos custos e a margem de lucro.

A realidade de muitas fazendas hoje é ter planilhas, app’s, fichas de anotações manuais com pessoas diferentes alimentando e acessando esses dados de forma parcial. Isso gera problemas de comunicação e falhas na operação, porque fica praticamente impossível concentrar as informações num lugar, mantê-las atualizadas e compartilhar com as pessoas necessárias no momento certo. O operador sabe o que acontece no curral, o nutricionista sabe o que acontece na nutrição, o zootecnista sabe como está o desempenho dos animais, o dono sabe dos custos. Cada um sabe uma parte importante e ninguém consegue ter uma visão do todo e isso dificulta identificar como uma área interfere no resultado da outra. A fazenda fica ilhada.

Com uma boa infraestrutura tecnológica, esse fluxo roda redondo, e ter uma plataforma de gestão da informação que facilite essa integração é fundamental. Esse é um dos principais atributos que a GA e Intergado juntas entregam para o mercado. Convergir e integrar as informações do animal ao DRE implantando um amplo mix de soluções para atender à necessidade de diferentes modelos de negócio.


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