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Scot Consultoria

Avanço genético em frangos de corte

Entrevista com o gerente de produtos na empresa Cobb Vantress, Rodrigo Terra Celidonio

Segunda-feira, 16 de agosto de 2021 - 12h00
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Rodrigo Terra, gerente de produtos na empresa Cobb Vantress

Foto: Unsplash


Nesta semana nossa entrevista é com o Rodrigo Terra, gerente de produtos na empresa Cobb Vantress, que explicou os processos envolvidos para a seleção genética de frangos de corte e seus avanços.

Scot Consultoria: Um dos maiores mitos relacionados à avicultura de corte está ligado à utilização de hormônios na produção e os ganhos produtivos de curto prazo. O senhor poderia comentar um pouco a respeito dos avanços da genética na seleção de frangos de corte e como isso impactou a produtividade brasileira?

Rodrigo Terra: Realmente, o dito de que os frangos evoluíram ou evoluem baseados em aditivos hormonais, é um grande engano. Os avanços genéticos têm sua base na hereditariedade das características e sua taxa de herdabilidade, que variam, dependendo da característica que está em foco. O desafio é conseguir evoluir em várias características ao mesmo tempo.

Para conseguirmos um ganho consistente e contínuo, precisamos equilibrar vários fatores que, em algumas situações se antagonizam; isto é, se evoluirmos em certa característica, não conseguiremos evoluir em outra, se contrapondo à outra característica. Para evoluirmos nas duas características em questão, precisaremos encontrar um valor mínimo para ambas, a ponto de conseguirmos que as duas tenham resposta positiva.

Por isso, a evolução genética é longa e constante, para que seja produzido um pequeno ganho de cada vez, de maneira consistente. Lembremos que a Cobb é uma empresa de 105 anos, e faz o que faz de maneira equilibrada e constante há muito tempo.

O frango que consumimos hoje é fruto de um longo e constante processo de melhoramento de cada característica. Se voltarmos 30 anos, quando comecei a trabalhar em avicultura, o frango tinha muito menos carne em sua carcaça, demorava mais para chegar aos 2,0 kg (na época, era o peso padrão do mercado), com muito mais consumo de ração. Não houve mágica, mas sim muito trabalho!

Scot Consultoria: O senhor poderia explicar brevemente como funciona o processo de seleção e produção até chegarmos aos frangos de corte comerciais que vão para a mesa do consumidor?

Rodrigo Terra: O processo de melhoramento é baseado nas leis da hereditariedade, elaborada na segunda metade do século 19, início do século 20, que diz que as características de um indivíduo são transferidas para seus descendentes, através da união das células reprodutivas de machos e fêmeas que carregam metade da informação genética de cada um dos indivíduos.

O processo de seleção inicia-se na escolha dos indivíduos que carregam as características que consideramos positivas e desejamos reproduzir e aumentar sua frequência nos seus descendentes. Machos e fêmeas têm uma similaridade de caraterísticas para produzirmos descendentes híbridos com maior frequência de características positivas desejadas, vindas de cada um dos sexos.

Consideramos então que há uma fase inicial de seleção e fases seguintes de multiplicação das características já selecionadas, o que chamamos de pirâmide de seleção, que consiste em fases de seleção e de multiplicação com cruzamentos dirigidos, para mantermos um equilíbrio entre produtividade e desempenho. Assim, implementamos estratégias de cruzamentos para equilibrarmos essas características em cada fase da pirâmide de seleção/multiplicação.

Na pirâmide de seleção, temos diferentes níveis genealógicos, que vai desde o pedigree, bisavós, avós, matrizes para enfim obtermos o frango de corte.

Scot Consultoria: Hoje, pensando em melhoramento genético, qual o principal critério de desempenho que as casas de genética têm procurado melhorar?

Rodrigo Terra: Hoje, não há uma característica principal. A necessidade de equilibrarmos as características é fundamental para mantermos um produto atualizado com as demandas do mercado consumidor e competitivo. A evolução das características selecionadas, no decorrer das décadas, foi grande.

Hoje, as características selecionadas incluem fatores econômicos, produtivos, livres de antibióticos, saúde animal e bem-estar animal, por exemplo. Esses dois últimos fatores, para podermos manter a produtividade sempre crescente, se tornaram praticamente, mais de 50% das características selecionadas no processo de melhoramento.

A saúde animal é fundamental para permitir que o processo continue. A qualidade dos animais selecionados é base para continuarmos selecionando suas eficiências de crescimento, conversão alimentícia, quantidade e qualidade da carne a ser disponibilizada ao mercado.

Scot Consultoria: Quais outros fatores na produção (nutrição, manejo, sanidade, ambiência) são fundamentais para potencializar os ganhos proporcionados pela seleção genética?   

Rodrigo Terra: Na missão que nos propusemos a atender, a eficiência e produtividade são fatores que nos mantém competitivos e são base para conseguirmos oferecer produtos (proteína) de qualidade e acessíveis ao consumidor.

Os fatores que você relaciona são considerados fatores ambientais, que em interação com os fatores genéticos determinam a expressão fenotípica do indivíduo, ou como ele será oferecido ao mercado no final de seu processo de desenvolvimento. Fatores ambientais serão adaptados para possibilitar o melhor desempenho do animal, pois será parte importante dessa equação: desempenho = genética + ambiente.

Os estudos em estrutura física, conforto térmico, por exemplo, alavancaram uma grande evolução no desempenho dos frangos de corte nos últimos 20 anos, pelo menos. Em combinação com isso, a saúde animal, em um ambiente adequado também melhorou, as taxas de sobrevivência aumentaram, as intervenções terapêuticas com antibióticos se tornaram cada vez menores, pois as aves são mais saudáveis.

Com isso tudo em jogo, os custos de produção são menores pois a expressão da eficiência ocorre quase que em sua plenitude e menores gastos extraordinários à execução do processo são necessários. O objetivo das casas genéticas em proporcionar um produto de qualidade e acessível é cada vez mais atendido.

Scot Consultoria: Rodrigo, para se intensificar alguma característica através do melhoramento genético, quanto tempo demora até chegar aos híbridos comerciais? Por que os resultados do melhoramento genético são bem mais marcantes em frangos do que bovinos?

Rodrigo Terra: Se consideramos que cada fase de multiplicação dure 1 ano, e na cadeia de desenvolvimento e reprodução temos pedigree, bisavós, avós, matrizes, para aí chegarmos aos frangos de corte, temos um processo com uma duração de 4 anos para selecionarmos as aves pedigree e multiplicarmos a melhoria dessa geração até chegarmos ao frango de corte, pois passaremos pelas fases intermediárias - bisavós, avós e matrizes, além da fase de reprodução do pedigree.  

Em termos práticos, é dizer que o que é selecionado no pedigree hoje, no ano de 2021, estará disponível para o mercado consumidor em 2025 e o que temos agora disponibilizado para o mercado, foi selecionado em 2017.

Entretanto, para um novo produto, da prancheta ao mercado, necessitará de bem mais tempo, talvez 10 anos ou mais.

Quanto à sua pergunta sobre a melhoria genética das aves em relação aos bovinos, minha visão é: sua pujança e rapidez de evolução, podem estar na característica de seu ciclo reprodutivo, menor que o dos bovinos. Podemos verificar as características selecionadas e sua frequência de expressão em um tempo menor em que o observado na bovinocultura.

O espaço físico para estabelecermos populações de indivíduos também proporciona uma vantagem ao melhoramento das aves. No mais, as exigências são as mesmas no campo da saúde animal e nutrição, pois devemos proporcionar a melhor condição nesses quesitos para proporcionar uma boa expressão das características selecionadas. A dimensão do ambiente e instalações devem se adequar à espécie animal que estamos trabalhando e isso pode também facilitar as coisas para o desenvolvimento das aves.


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