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Scot Consultoria

Desafios e perspectivas para o mercado do leite

Entrevista com a zootecnista, analista de mercado da Scot Consultoria, Juliana Pila

Segunda-feira, 4 de dezembro de 2023 - 06h00
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Zootecnista, formada pela Universidade Estadual Paulista-UNESP, com MBA em Gestão de Negócios pela Pecege USP/Esalq. É editora-chefe da área de pecuária de leite e da Carta Leite. Pesquisadora e analista do mercado pecuário (boi gordo, leite, grãos, frangos, suínos e insumos para a atividade). Ministra palestras e treinamentos nas áreas de mercado de leite, boi gordo, grãos e assuntos relacionados à agropecuária em geral.

Foto: ShutterStock


Scot Consultoria: Desde maio, o mercado está presenciando um recuo significativo em relação ao preço do leite pago ao produtor, por que isso está ocorrendo?

Juliana Pila: Em 2023, estivemos diante de um dos anos mais desafiadores para a pecuária leiteira. Nos últimos meses de 2022, observamos os maiores patamares de preços do leite pago ao produtor. Com isso, começamos 2023 com as cotações trabalhando em patamares acima do registrado em anos anteriores. A primeira metade do ano foi marcada por uma menor produção, o que colaborou para o cenário de alta nos preços. Porém, mesmo estando em um momento sazonal, de produção menor no inverno, junho – julho, em que normalmente observamos recuperação de preços, as cotações ao produtor cederam em plena entressafra. O aumento na disponibilidade interna de leite via importação foi o principal motivo da pressão ao mercado. Ao mesmo tempo, a produção no campo começou a reagir gradativamente com as margens melhores ao produtor, corroborando para a pressão de baixa.

Scot Consultoria: Com base nas apresentações dos modelos climáticos, o El Niño deve persistir até o início do outono em 2024. Quais os principais impactos que devem ocorrer para o agro voltado para o mercado de leite e derivados?

Juliana Pila: O principal impacto para a cadeia leiteira é com relação aos custos. Os impactos do fenômeno são diferentes em cada região, enquanto na região Sul, o El Niño causa um volume de chuvas acima do normal e um aumento da temperatura média, no Centro-Oeste, Norte e Nordeste o fenômeno gera uma menor precipitação. Como a produção leiteira é, em sua maioria, à pasto, devemos ter pastagens com menor vigor e valor nutricional, o que poderá impactar na produção. Além disso, o estresse térmico afeta a produção das vacas.

No mercado de grãos, já se espera que a produção brasileira deva ser menor que a safra passada. No caso da soja, o desenvolvimento das lavouras está prejudicado e há necessidade de ressemeadura em regiões tradicionalmente produtoras, o que está atrasando a semeadura frente a 2022 e, provavelmente, reduzirá a produtividade. Com o atraso na semeadura de soja, prolonga-se o período para a colheita do grão e estreita-se a janela de semeadura para a segunda safra de milho, a principal no país. Já se espera uma menor produção para essa cultura e, com uma semeadura fora da janela ideal, os riscos de menor produtividade são maiores, elevando a cotação dos produtos. Todo este quadro colabora com a expectativa de firmeza às cotações dessas commodities e, consequentemente, alta nos custos com alimentação.

Scot Consultoria: A eleição do candidato Javier Milei causou expectativas positivas em muitos produtores de leite no Brasil. Quais são os principais impactos que isso pode causar no mercado de leite brasileiro?

Juliana Pila: Considerando que parte dessa expectativa positiva reside na percepção de que, ao ter um viés liberal, o novo governo intervirá menos na economia, eliminando distorções que tornam o leite argentino mais barato, os impactos poderiam ser em preços menos interessantes de importação para o Brasil, porém, ainda é muito precipitado fazer qualquer previsão e o melhor é aguardar quais serão os próximos capítulos.

Scot Consultoria: A importação de lácteos tem agravado a crise do setor leiteiro brasileiro desde o ano passado. Quais as alternativas para a diminuição da importação de produtos lácteos?

Juliana Pila: O aumento na importação de leite pelo Brasil neste ano chamou a atenção de agentes do setor. O grande volume internacionalizado foi apontado como um dos principais motivos de queda nos preços no mercado brasileiro, um movimento incomum no período de entressafra da produção no mercado nacional, conforme já comentado. O principal produto comprado foi o leite em pó, que correspondeu a 70,8% do total de lácteos adquiridos pelo país. Considerando o leite em pó, o preço médio do produto importado até outubro de 2023 foi de US$3,79 por quilo, sendo 6,1% menor na comparação com a média do mesmo período de 2022, cuja cotação estava em US$4,03 por quilo. Para uma comparação, o quilo do mesmo produto no mercado doméstico (mercado atacadista), de janeiro até outubro, ficou cotado, em média, em R$28,33 ou US$5,65, considerando o câmbio médio no período sendo R$5,01 por dólar. Em resumo, o produto importado custou 33,0% menos que o nacional, sendo este o principal fator relacionado ao aumento na importação este ano.

Devido ao aumento do volume adquirido este ano, projetos de leite, como o Projeto de Lei 4309/23, que proíbe empresas de importar leite em pó e transformá-lo em leite líquido para venda no mercado nacional, e o decreto sobre a medida tributária, voltada a dar incentivo fiscal para indústrias que compram o leite in natura nacional, estão sendo analisados, a fim de melhorar a competitividade do produto nacional e acredito que isso seja um bom começo para equalizar o mercado.

Scot Consultoria: Juliana, o que podemos esperar para o mercado de leite em 2024? Deve ser um ano melhor que 2023?

Juliana Pila: São muitos os pontos que precisamos analisar. Do lado dos preços do leite pago ao produtor, estes devem continuar recuando nos próximos meses (final de 2023 e primeiro trimestre de 2024). Com o retorno das chuvas, sazonalmente há maiores volumes de leite sendo produzidos devido a melhora na condição das pastagens. Assim, com a maior oferta de matéria-prima, os preços tendem a diminuir.

Com relação à oferta de leite no campo, o ritmo de crescimento observado em 2023 deve se manter, porém, fatores relacionados ao clima, com possíveis efeitos do fenômeno El Niño, podem gerar desafios à produção.

Do lado da demanda, a situação do consumidor brasileiro deve seguir compassada. O mercado espera mais um ano de crescimento econômico, porém em um ritmo menor comparado a 2022 e 2023, com projeções atuais do Banco Central para o PIB em 1,5% para 2024.

Para os custos de produção, a perspectiva é de que o custo com alimentação animal subirá em 2024.

No mercado internacional, a recuperação nos preços, que já está acontecendo desde agosto de 2023, deve continuar ocorrendo. A desaceleração na oferta internacional, causada justamente pelo desestímulo com os recuos nos preços, deve manter o mercado firme. Para o Brasil, os preços internacionais maiores reduzem a competitividade do leite importado. Cabe lembrar, porém, que o câmbio, o preço do mercado interno e a competitividade com o leite do Mercosul (nossos principais fornecedores) serão fatores importantes para definir o rumo das compras brasileiras.

Com isso, pontos de atenção para o próximo ano são: clima, efeitos do El Niño na produção nacional de leite e grãos; aumento da produção doméstica de leite na China, que pode diminuir as importações do gigante asiático, pressionando os preços no mercado internacional e influenciar na importação de lácteos, e a demanda nacional por lácteos, que pode manter maior o equilíbrio entre a oferta e a demanda.


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