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Scot Consultoria

Halal: carne e sustentabilidade

Entrevista com o diretor-executivo da Cdial Halal Ali Saifi

Terça-feira, 5 de outubro de 2021 - 16h00
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Ali Saifi é brasileiro, nascido em São Bernardo (SP) e graduado em Administração de Empresas pela Universidade Metodista. É diretor-executivo da Cdial Halal, vice-presidente do Centro de Divulgação do Islam para América Latina (Cdial), vice-presidente da Câmara de Comércio Brasil Iraque; embaixador pela paz do EML - European Muslim League e membro do IMMC - International Muslim Minority Community.

Fonte: Shutterstock


Scot Consultoria: Ali, o mercado Halal é muito conhecido e difundido no mercado brasileiro pela forte presença na produção de carne de frango e bovina. Mas, a certificação Halal não é exclusiva à produção de carne. Você poderia comentar outros produtos e processos envolvendo a certificação Halal?

Ali Saifi: Para entender um pouco mais sobre a importância deste mercado, é interessante conhecer alguns conceitos. O alimento permitido no Islã, de acordo com as regras de Deus escritas no Alcorão, é denominado Halal, que em árabe significa lícito, autorizado, ou seja, alimentos que seguem 100% todas as normas da jurisprudência islâmica para consumo dos muçulmanos. A carne suína e seus derivados são totalmente proibidos para o mercado Halal, ou seja, para o consumo muçulmano.

Atualmente, são 1,8 bilhão de muçulmanos no mundo e a previsão é chegar a 3 bilhões até 2030. Conforme dados do State of the Global Islamic Economy Report (Relatório Global da Economia Isâmica), os gastos com produtos Halal no mundo (comida, fármaco, cosmética, higiene pessoal, logística, embalagem, moda, mídia, recreação, turismo, lifestyle e outros) podem chegar a simples cifras de US$3,2 trilhões até 2024.

A certificação Halal é um processo, onde uma agência controlada pelo governo ou organização islâmica reconhecida por esses órgãos, certifica a capacidade de uma empresa em praticar os procedimentos Halal, desde o processo, armazenamento até a comercialização de produtos destinados aos consumidores mulçumanos.

Para emitir essa certificação, são utilizadas normativas tanto nacionais como internacionais para garantir o processo de certificação Halal, como:

· GCC – Gulf Standardtization Organization (Golfo);

· Malaysian Standard (Malásia);

· MUIS-HC-S001 - General Guidelines for the Handling and Processing of Halal Food (Singapura);

· ESMA – Emirates Authority for Standardization and Metrology;

· LPPOM MUI (Indonésia);

· BPF - Boas Práticas de Fabricação;

· Boas Prática Agrícolas;

· APPCC - Análise de Perigos e Pontos Críticos de Controle;

· Padrões internacionais de segurança dos alimentos, como FSSC 22000 e BRC;

· Padrão internacional de Boas Práticas de Cosméticos, como a ISO 22716.

Há várias categorias que podem ser certificadas: agricultura, pecuária, produtos (de origem animal, de origem vegetal, industrializados, químicos, têxteis e de couro), nutrição animal, alimentos, cosmético, embalagem, fabricação de equipamentos, transporte e armazenagem, serviços e distribuição.

Scot Consultoria: O comércio eletrônico e os canais de venda online têm contribuído para esse mercado? Qual a melhor maneira de identificar se um produto é, de fato, Halal?

Ali Saifi: Com certeza. O e-Commerce deu maior visibilidade e as expectativas são que esses canais ganhem mais força no mercado árabe. De acordo com dados e-Commerce Brasil, o mercado de comércio eletrônico de varejo nos Emirados Árabes Unidos atingiu recorde de US$3,9 bilhões em 2020, um aumento de 53% em relação ao ano anterior, motivado pela covid-19. O comércio eletrônico foi responsável por 8% do mercado de varejo durante o mesmo ano conforme uma análise da Câmara de Comércio e Indústria de Dubai. O estudo tem expectativas de atingir US$8 bilhões até 2025, uma tendência de crescimento apoiada por vários fatores-chaves: potencial de alta renda, alta taxa de acesso a internet, rede logística de transporte, modernos sistemas de pagamento digital e aumento na população jovem, além do apoio governamental. O cenário é positivo e temos muito para crescer.

As empresas brasileiras precisam ficar mais atentas aos negócios islâmicos, ou seja, não somente ao mercado árabe, mas ao mercado islâmico mundial. Hoje, os muçulmanos são quase um terço da população do mundo.

Um detalhe importante: muitos países que não são muçulmanos estão também consumindo produtos halal devido à sua qualidade, rastreabilidade e segurança. Por exemplo, o Japão, Austrália, China, África e outros países estão em busca dos produtos brasileiros Halal. O Brasil tem bons produtos e bons relacionamentos comerciais. Precisamos aproveitar melhor as oportunidades de negócios que estão aos nossos olhos e são gigantescos.

Para identificar um produto Halal, basta verificar se ele tem um selo de certificação Halal.

Scot Consultoria: Quais fatores contribuem para o Brasil ser o maior exportador de produtos Halal do mundo?

Ali Saifi: Temos capacidade, os melhores produtos em todas as categorias e uma parceria próxima aos países árabes e aos outros países islâmicos e não islâmicos. Mas, precisamos fomentar ainda mais esse mercado, para que as empresas possam expandir suas exportações.

O mundo árabe tem uma grande importância para economia brasileira. É um mercado extremamente promissor e precisamos estreitar cada vez mais as relações bilaterais, para que ele se desenvolva com todo o potencial disponível. Precisamos de uma agenda positiva e traçar novas estratégias de cooperação para continuar com nossas exportações. Não podemos perder nosso foco. É importante manter nossa resiliência e continuar com controles sanitários rígidos, buscar e ampliar as oportunidades de negócio.

Scot Consultoria: Hoje temos alguma dificuldade dentro no mercado Halal para o comércio interno?

Ali Saifi: Hoje temos uma dificuldade na questão de distribuição no Brasil. Em território brasileiro temos em torno de 1 milhão de muçulmanos. Precisamos saber melhor onde eles estão, para que possamos oferecer nossos produtos aqui também. O e-Commerce com certeza é uma ferramenta importante para identificarmos melhor a localização desta população que também cresce por aqui.

Já existem algumas empresas brasileiras – de pequeno e médio portes - focadas em atender a comunidade islâmica no Brasil, buscando traçar estratégicas e mapear essa população, para que seus produtos possam chegar às suas mesas.

Vale a pena ressaltar que a certificação Halal não é apenas uma certificação religiosa, mas uma certificação de qualidade e sustentabilidade.

Scot Consultoria: Pensando no avanço das políticas ESG no mercado, quais seriam os avanços e as dificuldades do mercado Halal nessa onda de políticas sustentáveis que temos observado?

Ali Saifi: Não há como oferecer produtos no mercado mundial sem pensarmos na sustentabilidade. Ou seja, sustentável na parte econômica e com certeza na preservação do meio ambiente. Com o aumento de consumo em todo o mundo, se as indústrias não tiverem regras específicas para manter e proteger o meio ambiente, uma hora esta fonte vai acabar.

Todos nós temos uma grande importância nesta preservação. Se cada um fizer a sua parte, os negócios vão evoluir sem que a gente corra o risco de faltar o abastecimento para qualquer pessoa ou país. O Brasil já tem essa cultura de preservação ambiental, mas precisamos fomentar ainda mais.

No próximo dia 3 de outubro, será inaugurada a ExpoDubai 2020, onde inclusive a Cdial Halal participará do Fórum de Sustentabilidade Econômica Emirados Árabes Unidos – Brasil. Falarei sobre o tema Halal Sustentável – o potencial deste mercado e estarão presentes o vice-presidente Hamilton Mourão e outras autoridades árabes.

Scot Consultoria: Considerando o mercado Halal, quais países são os principais consumidores dos produtos brasileiros? Existem cobranças específicas desses mercados para uma produção Halal mais sustentável?

Ali Saifi: Os países que mais importam produtos árabes são: Emirados Árabes, Arábia Saudita, Egito, Jordânia, Irã, Indonésia, Palestina, Líbano, Iraque, Iêmen, Bahrein, Catar, Líbia, Egito, Europa (Reino Unido, Espanha, Suíça, Albânia, entre outros) e em outros continentes: China e África do Sul etc.

Referente às cobranças específicas desses mercados, há um comprometimento das empresas auditadas anualmente. Por exemplo, todas as empresas auditadas e certificadas este ano têm o compromisso de melhorar todas as atividades que envolvem a preservação do meio ambiente. Elas devem apresentar melhorias contínuas nestes processos. Todos esses compromissos são descritos em relatórios que ficam à disposição das autoridades islâmicas para eventuais consultas.


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