• Segunda-feira, 14 de setembro de 2026
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Carta Grãos e Agricultura - Arroz - preços melhoram no segundo semestre, mas ainda não pagam o custo de produção

Oferta curta, exportação com bom desempenho e a volta da Conab às compras sustentam a alta, que já soma 49,2% desde dezembro de 2025.


Foto: Scot Consultoria

Foto: Scot Consultoria

A safra de arroz 2025/26 está encerrada. Em comparação com a safra 2024/25 houve uma redução da área em 13,9% e queda na produção (mil t) em 13,2% (Conab). A produtividade aumentou 0,9%, passando de 144,7 para 146,0 sacas de 50 quilos por hectare.

A produção ficou estimada em 11,1 milhões de toneladas em uma área cultivada de 1,5 milhão de hectares, sendo a Região Sul a maior produtora, com mais de 1,1 milhão de hectares plantados.

A oferta menor mudou o patamar dos preços no segundo semestre. Em setembro (figura 1), o indicador do arroz em casca Cepea/Irga-RS foi negociado, em média, por R$79,16 a saca de 50kg, contra R$63,63 em setembro de 2025, alta de 24,4%. Na comparação com janeiro deste ano, quando a média foi de R$53,38, a alta chega a 48,3%. No dia 11 de setembro a saca fechou em R$79,79.

Figura 1.
Cotação média do arroz em casca, mês a mês, em R$/saca de 50kg.

*até 11/9
Fonte: Cepea/Irga-RS | Elaboração: Scot Consultoria

Em relação aos últimos cinco anos, a cotação da saca vinha caindo desde novembro de 2024 e encontrou o piso em dezembro de 2025, com a menor cotação média do período, R$53,06 (figura 2). A reação começou em janeiro de 2026 e ganhou força no segundo semestre: a cotação subiu 7,9% em julho, 15,7% em agosto e 6,6% em setembro. O acumulado desde o piso chega a 49,2% e a média de setembro é a maior desde março de 2025 (R$82,16). Mesmo assim, a cotação ainda não repõe os custos dos produtores.

Figura 2.
Cotação média do arroz em casca, de setembro de 2021 até setembro* de 2026, em R$/saca de 50kg

*até 11/9
Fonte:
Cepea/Irga-RS | Elaboração: Scot Consultoria

De acordo com o Instituto Rio Grandense de Arroz (IRGA, figura 3), o custo médio para a produção de uma saca de arroz na safra 2025/26 ficou em R$90,22, ante R$95,04 na safra 2024/25, recuo de 5,1% puxado pelo ganho de produtividade, que passou de 169,90 para 174,79 sacos por hectare. No mês do fechamento da safra, junho de 2026, a cotação média foi de R$59,49, ou R$30,73 abaixo do custo. É o segundo ano consecutivo em que o custo de produção supera o preço negociado no fechamento.

Figura 3.
Comparação entre o custo de produção por saca e a cotação média do arroz em casca no mês do fechamento da safra.

Fonte: IRGA (custo) e Cepea/Irga-RS (preço) | Elaboração: Scot Consultoria

O que explica o cenário atual?

O que mais mexeu com o preço foi a oferta, não a demanda. A safra 2025/26 veio 13,2% menor e a área plantada diminuiu 13,9%, ou seja, entrou menos arroz no mercado. A isso se somam dois movimentos: o produtor, depois de dois anos vendendo abaixo do custo, segurou o que tinha em estoque; e a indústria chegou ao segundo semestre precisando repor matéria-prima. Menos arroz disponível e comprador com pressa: a saca saiu de R$59,49 em junho para R$79,16 em setembro, alta de 33,1% em três meses.

A exportação e a importação entram como fator complementar, e não como causa principal. O embarque não empurra a cotação no mês em que acontece: ele tira arroz do país e só faz falta depois, quando a indústria vai comprar e encontra menos produto. Os números mostram esse descompasso com clareza. O primeiro trimestre de 2026 concentrou o maior volume exportado do ano, 404,4 mil toneladas, exatamente quando a saca marcava as menores cotações do ano, entre R$53,38 e R$58,83. A conta só chegou no segundo semestre, com o estoque remanescente reduzido.

Segundo os dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) no Comex Stat, a exportação de arroz, somados o produto em casca, o descascado e o beneficiado, chegou a 848,5 mil toneladas de janeiro a agosto de 2026, alta de 72,3% sobre o mesmo período de 2025. Em oito meses o país já embarcou mais do que em todo o ano passado, quando foram 827,2 mil toneladas. A receita somou US$266,24 milhões, avanço de 34,7%. O arroz em casca puxou o movimento, com 685,4 mil toneladas embarcadas (mais 86,1%), enquanto o beneficiado somou 160,9 mil toneladas (mais 35,9%). Somente em agosto foram 151,6 mil toneladas, 86,5% acima de agosto de 2025 e o maior volume mensal do ano.

O preço médio de exportação, porém, caiu de US$401 para US$314 a tonelada, queda de 21,8%. O ganho de receita veio do volume embarcado, não da valorização do produto no mercado internacional. Venezuela (38,7%), Costa Rica (18,1%), México (8,7%) e Panamá (7,0%) concentraram os embarques do período.

A importação também cresceu, mas em ritmo menor: 804,4 mil toneladas de janeiro a agosto de 2026, alta de 17,1% sobre o mesmo período de 2025, com desembolso 6,7% menor, de US$268,28 milhões, reflexo da queda do preço médio de US$419 para US$334 a tonelada. Paraguai (74,1%), Uruguai (18,8%) e Argentina (6,4%) responderam por praticamente todo o volume.

A diferença entre os dois ritmos virou a balança do arroz. De janeiro a agosto de 2025 o Brasil importava 194,3 mil toneladas a mais do que exportava; no mesmo período de 2026 passou a exportar 44,1 mil toneladas a mais do que importou. Em valor, o déficit praticamente desapareceu, caindo de US$90,00 milhões para US$2,04 milhões. Resumindo: o comércio exterior não criou a alta, mas ajudou a manter o mercado apertado, porque o país deixou de ser comprador líquido de arroz.

Conab volta a comprar

Em 16 de setembro a Conab realizará o primeiro leilão de compra de arroz em casca da safra 2025/26 para formação de estoques públicos: até 127,33 mil toneladas de arroz longo fino tipo 1, sendo cerca de 102,08 mil toneladas no Rio Grande do Sul e 25,25 mil toneladas em Santa Catarina. A Portaria Interministerial no. 20 destinou até R$500 milhões às aquisições, limitadas a 125% do preço mínimo em cada estado. É um piso adicional para o mercado interno em um momento no qual a oferta já está apertada.

Expectativa

A recuperação das cotações deve seguir amparada pela oferta restrita, pelas compras da Conab e pela demanda externa firme. Ainda assim, no curto prazo é pouco provável que os produtores consigam remunerar integralmente os custos de produção: mesmo com a alta de setembro, a saca está R$10,43 abaixo do custo de R$90,22 calculado pelo IRGA.

Para a próxima safra, o ajuste de área continua. O IRGA estima uma intenção de semeadura de 861,8 mil hectares de arroz irrigado no Rio Grande do Sul em 2026/27, 3,4% a menos que os 891,9 mil hectares da safra passada. A redução de área pelo segundo ano consecutivo, o crédito caro e o risco climático tendem a resultar em menor oferta, o que deve sustentar a firmeza dos preços.

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