• Terça-feira, 30 de junho de 2026
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Carta Grãos e Agricultura - A safrinha é a perna mais arriscada do ciclo soja-milho

Em Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás e Paraná, a segunda safra de milho é quase o dobro que a da soja e responde pela maior parte das quebras de produtividade do ciclo.


Foto: Shutterstock

Foto: Shutterstock

A soja concentra a atenção do produtor: é a maior área, a primeira a ser colhida e a que dita o calendário comercial. Mas, quando o assunto é o risco de quebra – o risco produtivo –, da lavoura simplesmente não apresentar a produtividade esperada, o protagonista passa a ser a segunda safra.

Convém uma ressalva. O resultado financeiro de um ano não se resume à produtividade, porque depende também do preço da soja e do milho, do custo de produção e do câmbio. O que tratamos aqui é mais específico e, justamente por isso mais acionável. Dentro do ciclo soja-milho é na safrinha que se concentra a incerteza de quanto a terra, de fato, produzirá.

A produtividade da safrinha oscila quase o dobro da soja

Para comparar o risco das duas culturas, retiramos de cada série a tendência produtiva (tecnologia, manejo etc.) de longo prazo estimada para cada cultura e estado. Em outras palavras, comparamos a produtividade observada em cada safra com aquilo que seria esperado para aquele ano, dado o avanço estrutural da produtividade ao longo do tempo.

Com isso, a análise deixa de comparar apenas o nível bruto de produtividade e mede o quanto soja e safrinha oscilam, ano a ano, em relação ao rendimento esperado para aquele período. Os dados vieram da série histórica da Conab.

A soja é uma cultura comparativamente estável, a produtividade oscila de 7,5% a 13,6% ao ano, conforme o estado. A safrinha balança de 13,7% a 29,7%, entre 1,7 vezes e 2,2 vezes mais que a soja, em todos os quatro estados sem exceção. Em termos práticos, a soja entrega um resultado relativamente previsível, enquanto a safrinha é a fonte real de surpresa, do ciclo.

Figura 1. 
Variabilidade ano a ano da soja e da safrinha.  

Fonte: Conab / Elaborado por Scot Consultoria

Mato Grosso, o maior e um dos mais tecnificados estados, é o caso mais comportado de todos, e mesmo assim a sua safrinha oscila quase o dobro da soja, em Mato Grosso do Sul, em Goiás e no Paraná, a distância entre as duas culturas é ainda maior.

A figura 2 ilustra esse descompasso em Mato Grosso. Enquanto a linha da soja se mantém perto do normal de um ano para o outro, a da safrinha despenca e dispara com uma amplitude muito maior, e é dela que saem as grandes quebras. A mais severa foi a de 2016, quando o milho de segunda safra rendeu cerca de 28,0% abaixo do esperado sob o El Niño daquele ano.

Figura 2. 
Desvio (%) do normal na produtividade de soja e milho segunda safra em Mato Grosso. 

Fonte: Conab / Elaborado por Scot Consultoria

A explicação está relacionada ao calendário e à chuva. A soja é semeada no início da primavera e atravessa o auge da estação chuvosa, entre outubro e fevereiro, com água relativamente farta e baixo risco de frio, é a aposta mais segura do produtor.

A safrinha entra depois da colheita da soja e depende justamente do final da temporada de chuvas, entre março e maio, quando a água começa a ficar escassa e o tempo fecha contra o relógio. Soma-se a isso o risco de geada no Sul e nas áreas mais altas, e tem-se uma cultura que vive no fio da navalha. Pequenas diferenças na data de semeadura, ou quando a chuva vai embora, se traduzem em grandes diferenças de rendimento, daí a oscilação maior.

Conclusão

A leitura prática é simples: no ciclo soja-milho, a soja tende a ser a parte previsível da conta, enquanto a safrinha exige cautela, acompanhamento e decisões bem calibradas.

Na safrinha, a decisão não pode se limitar à disponibilidade de área após a colheita da soja. É preciso acompanhar de perto a janela de semeadura, as previsões climáticas, o perfil de umidade no solo, o risco de corte precoce das chuvas e, nas regiões sujeitas, a possibilidade de frio ou geada. Pequenas diferenças no calendário podem separar uma lavoura bem-posicionada de uma lavoura exposta ao estresse no momento crítico.

O mesmo vale para o mercado. Como o risco produtivo é maior, a informação de preço ganha peso. Relações de troca, custo dos insumos, travas, seguro, preço futuro e expectativa de oferta precisam entrar na conta antes e durante o desenvolvimento da cultura. Na soja, o produtor costuma trabalhar com uma base produtiva estável. Na safrinha, a margem depende muito mais da combinação entre clima, produtividade e oportunidade comercial.

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